O abismo entre a academia e a realidade do mercado hoteleiro

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A professora durante palestra na Fecomercio-SP

(foto: Fecomercio-SP)

Ao questionar qualquer gestor hoteleiro sobre as principais dificuldades que enfrenta atuando no segmento nacional, sem dúvida a falta de qualificação profissional será apontada como um dos problemas mais graves do setor no nosso País. Segundo estudo produzido pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) apenas 4,4% dos profissionais que trabalham na indústria da hospitalidade brasileira têm curso superior completo. O índice revela a baixa escolaridade dos colaboradores que fazem da prática a sua escola. Mas mesmo aqueles que obtiveram diploma, ainda encontram dificuldades para se encaixar no mercado devido à inadequação de muitos cursos que insistem com conteúdos obsoletos e técnicas ultrapassadas.

Diante dessa realidade, a então responsável pelas Vendas Corporativas do Caesar Park São Paulo - quando ainda funcionava na rua Augusta -, decidiu pesquisar os motivos das distâncias das diretrizes curriculares nos cursos de hotelaria diante da realidade do mercado de trabalho nacional. Este foi o tema da dissertação de mestrado de Mariana Aldrigui, hoje doutora e professora do curso Lazer e Turismo da EACH (Escola de Artes, Ciências e Humanidades) da USP (Universidade de São Paulo).

Para saber as conclusões desse e de outros trabalhos de pesquisa, a reportagem do Hôtelier News conversou com a acadêmica que acumula 20 anos de experiência no setor e não mede as palavras ao dizer: "Qualquer pessoa que atua na hotelaria se sente extremamente frustrada numa sala de aula, pois tem a impressão que está estudando arqueologia".

* Por Priscilla Haikal

A escolha por turismo se deu por uma razão muito simples. "Porque era o curso mais longe da minha casa", revela Mariana. Natural de Limeira, no interior de São Paulo, a estudante viu na faculdade a chance de morar longe dos pais e começar uma nova fase da vida na maior metrópole do País. Enquanto cursava a graduação pela Universidade de São Paulo, concluída em 1998, a turismóloga atuou em cruzeiros, agências de viagens e em hotéis, e por fim acabou se apaixonando pela área.

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Mariana acumula 20 anos de experiência no setor
(foto: arquivo pessoal)

Em meados dos anos 2000, Mariana dividia seu tempo entre o Caesar Park São Paulo e a docência. Apesar da flexibilidade de horário no meio de hospedagem que permitia o acúmulo de funções, chegou o momento no qual o salário passou a ser um fator determinante para sua escolha. "Os valores pagos pela hotelaria não competiam com os da academia que tinham propostas quase três vezes maiores. Então eu comecei a fazer carreira como professora", detalha. Antes de ser chamada para atuar na USP, a docente passou por instituições como Senac, Unibero e PUC (Pontifícia Universidade Católica).

Após ter conhecido a dinâmica da hotelaria na prática e estar envolvida com a formação teórica, veio a inquietação. "Por que as escolas não formam o profissional que o mercado quer contratar?", indagava Mariana. Foi a a partir desse e de outros questionamentos que teve origem a sua dissertação de mestrado em Ciências da Comunicação pela ECA (Escola de Comunicação e Artes).

"Utilizei três grupos para o estudo: coordenadores de cursos de hotelaria, diretores de Recursos Humanos e diretores gerais de hotéis. A pergunta era o que o aluno deveria saber após sair da faculdade. O resultado foi triste, pois o RH e mercado apontavam para uma direção e escola para outra, ou seja, a formação é completamente diferente do que esperado", lamenta.

Sabendo que não poderia mudar o mercado - que é regulado pela demanda - Mariana decidiu agir onde atuava, elaborando uma série de recomendações para os cursos. Para evitar essa distância entre o ensino e a prática, a professora sugere a inclusão de mais simulações e casos de realidade, visitas técnicas, e a participação de gestores de hotéis - ao menos uma vez no semestre - no conselho das universidades.

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Pesquisadora acredita na presença de hoteleiros atuantes nas universidades
(foto: designshare.com) 

"O mestrado foi defendido em 2003 e nos anos seguintes fui chamada para falar em diversas escolas, assessorando a leitura do documento apresentado. Mas a educação no Brasil não muda e os cursos ainda continuam alheios à realidade", pontua. "Onde fica a grande barreira hoje? É conseguir mudar a mente de determinados professores despreparados para falar do que está acontecendo de verdade", critica.

Segundo o diagnóstico traçado por Mariana, um hoteleiro atuante dificilmente tem tempo para se dedicar à docência. Por outro lado, os integrantes da academia deixam de trabalhar na área e acabam desatualizados. "Em cidades mais afastadas há casos de professores que nunca estiveram hospedados em um hotel. Da mesma forma que existem escolas de ponta, que acompanham as tendências e os procedimentos mais inovadores, e que vão formar os profissionais mais rapidamente absorvidos pelo mercado.", afirma a especialista.

Necessidade de formação
Os cursos de turismo e hotelaria tiveram um grande impulso no País durante os anos 2000, quando houve o aumento considerável do número de centros educativos oferecendo cursos técnicos e de formação na área. O movimento acompanhou a forte expansão de unidades de ensino superior no Brasil, e surgiu como resposta para a crescente demanda nas cidades brasileiras. Mas por se tratar de uma área substancialmente prática, que faz parte das ciências sociais aplicadas, até que ponto o diploma é necessário? Pesquisa produzida pela QI Profissional em meados de 2011 mostra que a graduação não é sinônimo de aumento salarial em algumas regiões do País, a exemplo do Sudeste.

Na opinião da professora, a existência desses cursos está atrelado à ideia de formação de aprendizes, configurando uma lapidação do profissional. Ela explica que apesar da grade curricular ter disciplinas como teoria da psicologia e administrativa, o mercado é o principal regulador das diretrizes, já que o objetivo final é ter hóspedes dentro do hotel.

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Especialista elaborou um plano para aproximar os anseios do mercado e da academia
(foto: Fecomercio-SP)

"O que se tem é uma valorização genérica do diploma. No que você se formou para atuar com turismo ou hotelaria não é algo exigido. Um fenômeno interessante são os engenheiros, administradores e economistas que estão sendo chamados para atuar em hotéis, devido à sua capacitação para trabalhar com os números. Os cursos não preparam os alunos para lidar com projeção financeira ou retorno do investimento, e assim profissionais de outros segmentos acabam tendo vantagem e contribuindo para essas análises específicas", enaltece.

Competências de destaque
Muito se discute sobre o que deve saber um estudante recém-formado nessas áreas. Pessoas que escolheram entrar para esse mundo têm em comum a vontade de trocar experiências, trabalhar e se relacionar com clientes, turistas, e agenciar negócios. Então qual seriam as competências primordiais para conseguir ter destaque profissional?

"Não dá mais para ser especialista em comercializar o produto ou em planejar o turismo. É preciso ser um gestor de informação, para poder entender as dinâmicas envolvidas e daí sim desenvolver os trabalhos de acordo as realidades de cada projeto. Um exemplo: antes você tinha tarifas fechadas o ano inteiro, que só mudavam na alta temporada ou nas festas de fim de ano. O fluxo e a rapidez das informações alteraram o jeito de pensar a negociação hoteleira. É inviável um tarifário sem flutuações ou adequações, bem como uma administração que não faça promoções seguindo a lógica da procura", destaca.

Para Mariana, cada vez mais fará diferença no mercado aqueles profissionais capazes de lidar com a tecnologia da informação focada no usuário final.

"O importante é reconhecer a autonomia do cliente, assumir que ele também têm suas ferramentas de pesquisa e a partir daí redesenhar o próprio negócio. Quem não visualiza isso trabalha numa leitura muito protecionista e pequena", sintetiza a especialista.

Serviço
ldrigui@usp.br  

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