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Seg 30 Mai 2016

Room Tax: contribuição como forma de incentivo para o desenvolvimento turístico de São Paulo

Contraste entre arquiteturas no Centro de São Paulo (foto: Pixabay/Criativopippa)

Não raro atuantes da hotelaria comparam a atividade nos bastidores de um hotel à de um corpo humano, onde todas as partes são vitais para seu bom funcionamento. Nesse sentido, todos os departamentos seriam como engrenagens tendo como finalidade oferecer experiências memoráveis, sustentadas pelo emblema da hospitalidade.

Imergindo na alegoria, o turismo seria possivelmente um dos alimentos que fortalece e mantém o bom desempenho de um hotel. Tendo em vista que a atividade turística abarca toda a infraestrutura, divulgação e apresentação de um destino para quem chega, esta é capaz de condicionar o fluxo de hóspedes em um empreendimento, contribuindo para tonificá-lo ou debilitá-lo.

Seguindo uma lógica bilateral, ao passo que uma boa infraestrutura turística auxilia na captação de hóspedes para a hotelaria, um funcionamento que encanta o visitante de um hotel pode viabilizar o aumento de sua permanência em um destino. Ambas as situações contribuem mutuamente para o turismo e seu braço hoteleiro.

Reconhecendo o potencial presente nessa relação, CVBx (Convention & Visitors Bureaux) de destinos internacionais e nacionais passaram a adotar junto ao seu parque hoteleiro uma taxa intitulada Room Tax, em que hóspedes podem optar por contribuir por meio de um valor com o turismo da região por onde viaja.

Os CVBx são entidades sem fim lucrativos que atuam de forma independente com o objetivo de promover o desenvolvimento econômico e social do destino que representa. A taxa, portanto, serve como recurso para fomentar e impulsionar a indústria do turismo na região, especialmente sob a ótica de captação de eventos nacionais e internacionais.

Responsável por receber cerca de 75% das principais feiras e eventos de negócios do Brasil, e abrigando um total de 410 hotéis - conforme dados do Observatório do Turismo em 2015 -  a cidade de São Paulo é um amplo campo de atuação para o SPCVB (São Paulo Convention & Visitors Bureau), que possui 250 hotéis associados, conforme apontado por Toni Sando, presidente da entidade, em entrevista ao Hôtelier News.

Assumindo que a capacidade quantitativa e qualitativa da região pede um diálogo igualitário entre os setores para que haja um aproveitamento efetivo das potencialidades do destino, o Room Tax é implementado por todos os hotéis do SPCVB com o objetivo de respaldar as ações de desenvolvimento turístico na cidade.

Ultrapassando a interpretação literal do nome, para Sando, o Room Tax não é um taxa, mas sim uma contribuição facultativa, paga por hóspedes por diárias nos hotéis associados da entidade. “O valor varia de acordo com a categoria do quarto, de econômico a luxo, indo de R$ 2,00 a R$ 9,00. Após aplicados os descontos dos devidos impostos, o valor arrecadado no hotel é repassado ao SPCVB”, explicou.

*Por Giulia Ebohon

Toni Sando, presidente da SPCVB
(São Paulo Convention & Visitors Buerau) (foto: Arquivo HN/ Filip Calixto)

Hôtelier News: A verba arrecadada com a taxa é destinada unicamente aos Conventions, ou existem outras entidades que são beneficiadas?
Toni Sando: O valor arrecadado da contribuição do Room Tax é repassado unicamente ao CVB. É um acordo direto entre CVB e a hotelaria.

HN: A contribuição é sempre facultativa ou há situações em que ela deve ser obrigatória?
Sando: Em São Paulo e no Brasil é sempre facultativa. Torná-la obrigatória é perigoso para a sustentabilidade e independência do setor, uma vez que, de contribuição passaria a se configurar como imposto, acarretando em bitributação e o valor não seria totalmente destinado ao trabalho de um CVB.

Um grande esforço é realizado junto aos eventos captados e apoiados para que os hotéis que receberão seus participantes cobrem e repassem o Room Tax; além de um diálogo direto com os gestores de viagens nas chamadas Empresas Amigas da Cidade, com o mesmo intuito.
 
HN: De que maneira os empreendimentos apresentam essa taxa para os hóspedes?
Sando: A forma mais viável é deixar o valor parametrizado no sistema. É essencial também ter uma equipe treinada e engajada com o setor, munida de argumentos para explicar a importância da contribuição quando questionada pelo hóspede.
 
HN: A verba arrecadada vai integralmente para a entidade ou o hotel também tem participação?
Sando: Após os descontos dos impostos, o hotel passa o valor ao CVB. Caso o hotel fique com parte desse recurso, é apropriação indébita e poderá ser auditado pelos Agentes Públicos, considerando que o SPCVB é uma Fundação Estadual e presta conta de todo o valor recebido à Procuradoria das Fundações do Estado de São Paulo.
 
HN: Como ocorre o diálogo para a inserção do Room Tax em um hotel? Geralmente é um consenso ou ainda existe resistência?
Sando: Há sempre um trabalho de conscientização da linha de frente da hotelaria, principalmente por ser uma área de grande rotatividade. Há um consenso da importância do trabalho de um CVB para a hotelaria em níveis estratégicos e gerenciais, mas nem sempre essa percepção chega aos profissionais responsáveis pelo recebimento e repasse da contribuição.

HN: Quais são os benefícios que essa taxa dá para as entidades?
Sando: Hoje, o Room Tax compõe a grande maioria da renda dos CVBx associados a Unedestinos no Brasil. Dessa maneira, é o que possibilita a continuidade do trabalho de captação e apoio a eventos nacionais e internacionais; de capacitação de profissionais e de divulgação do destino, mantendo uma equipe qualificada de agentes técnicos. O trabalho de captação de eventos pode durar anos.

No momento, contamos com a prospecção de mais de 400 eventos para até 2027. E os profissionais capacitados pelos cursos da Academia Visite São Paulo ultrapassam os limites da hotelaria. O SPCVB já treinou taxistas, manobristas, garçons e guardas de trânsito, tudo para envolver o visitante em boas experiências, aproveitar sua estadia, recomendar e voltar mais vezes. Tirar o Room Tax do orçamento pode parecer uma solução a curto prazo para negociação de preços, mas será um valor muito alto a se pagar a médio e longo prazo.

HN: Qual o volume de negócios que o SPCVB trouxe para os hotéis nos últimos anos?
Sando: De 2013 até o momento, o SPCVB apoiou, promoveu e captou mais de 1.600 eventos, além de capacitar cerca de 10 mil profissionais responsáveis pela hospitalidade, por meio da Academia Visite São Paulo. É difícil falar em volume de negócios, pois cada evento movimenta seu próprio setor. Mas sabe-se que, de acordo com pesquisa da Fipe com a Ubrafe, os bens e serviços relacionados à cadeia produtiva de feiras e eventos movimentam cerca de R$ 16,3 bilhões por ano em São Paulo; que os visitantes da capital paulista, em sua grande maioria, são motivados por negócios e eventos; e que esses visitantes gastam até o dobro, se comparados com visitantes de lazer.

Cidade recebe maior fatia de eventos de negócios no País
(foto: Pixabay/Skeeze)

HN: Existe um repasse da verba arrecadada pelo hotel para a entidade. Como ocorre essa transação e como é supervisionado?
Sando: Todos os meses, os hotéis associados preenchem e enviam um formulário descritivo dos valores arrecadados no mês até o dia 1º do mês subsequente, já descontando 15% de impostos e taxas. Após o envio, o hotel se compromete no pagamento do valor até o dia 10. O SPCVB é uma Fundação de 32 anos de existência e tem suas contas frequentemente auditadas e realiza prestação de contas à Curadoria das Fundações.

HN: Existe um programa definido para a utilização desta verba ou cabe ao Convention determinar onde ela será utilizada?
Sando: O SPCVB, por se tratar de uma entidade sem fins lucrativos, mas mantida pela iniciativa privada, tem um Estatuto e segue rigorosamente seus objetivos. A principal missão sempre é mantida, que é a captação e apoio a eventos nacionais e internacionais, capacitação de profissionais e divulgação do destino. Juan Pablo De Vera, presidente do Conselho de Administração, com sua diretoria, aprova o planejamento estratégico do ano.

Periodicamente, o SPCVB reúne seus Conselhos de Administração, Consultivo e Curador, formados por profissionais, empresas e entidades de toda a cadeia produtiva de turismo, eventos e viagens, para alinhar os objetivos principais e secundários, assim como criar e desenvolver novos projetos. Além, é claro, de sempre reunir e ouvir seus associados. E, todo ano, o associado recebe o Relatório de Gestão, com absolutamente todas as atividades realizadas pelas cinco áreas e diretoria da entidade.
 
HN: Como você acredita que essa coleta pode contribuir para a manutenção turística do destino?
Sando: Qualquer empresa do setor em um destino de eventos precisa de um CVB próximo à hotelaria e dos espaços de eventos para manter seu trabalho e conquistar novos resultados. O mercado de eventos é dinâmico e não para, mesmo em período de crise. A exemplo do SPCVB, trabalhamos muito com o calendário de eventos associativos da ICCA, que tem por natureza a característica de serem rotativos. Trazer eventos novos é renovar o público visitante e mostrar ao mundo cada vez mais que São Paulo tem muito a oferecer. O investimento do SPCVB é este: captar eventos para aumentar o fluxo de visitantes em São Paulo.

Agora, há os investimentos públicos ou público-privados feitos em níveis municipais, estaduais e federais, referentes à infraestrutura e manutenção, como para transporte, reformas e comunicação visual no destino. Nestes casos, especificamente, o trabalho do SPCVB é institucional, pressionando e representando as necessidades do setor, promovendo diálogos com a São Paulo Turismo, Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo, Conselho Municipal de Turismo da Cidade de São Paulo, Comissão do Turismo da Câmara dos Deputados, Frente Parlamentar Mista em Defesa do Turismo, Embratur e Ministério do Turismo, além de compor a diretoria da Unedestinos, União Nacional de CVBx e Entidades de Destinos.
 
HN: Em sua opinião, o Room Tax seria uma medida paliativa, tendo em vista que o investimento em melhorias deveria ser proveniente da Prefeitura?
Sando: O SPCVB é uma entidade mercadológica e envida esforços na criação das oportunidades de negócios para os associados. Quanto mais eventos, mais visitantes, mais se movimenta a economia. Com isso, duas coisas acontecem: as empresas do setor se desenvolvem; e, por consequência, um maior valor de impostos é arrecadado, que, aí sim, pode ser revertido para a melhoria da estrutura do destino.
Estamos vendo também a iniciativa privada investindo em estrutura, como os centros de convenções e espaços para eventos que foram construídos, reformados e/ou ampliados nos últimos anos; hotelaria se modernizando; e restaurantes aderindo a novas tecnologias para aumentar a acessibilidade, por exemplo.

Uma perspectiva​ hoteleira

Chieko Aoki, presidente da Blue Tree Hotels
(foto: divulgação/Aproach Comunicação)

Assim como os CVBx, os hotéis são uma parte insubstituível no processo de desenvolvimento turístico de um destino, impactando no fomento do setor, uma vez que possibilita, junto a outros meios de hospedagem, a permanência de visitantes na região. Essa importância é salientada quando se trata do Room Tax, que depende da inclinação dos empreendimentos para ser implementado. A parceria entre os dois protagonistas tem como finalidade um benefício simultâneo que deve ser o fator de comunhão entre os dois setores. 

Em entrevista à reportagem do Hôtelier News, Chieko Aoki, presidente da Blue Tree Hotels, trouxe a ótica da rede - que administra quatro unidades em São Paulo - sobre a contribuição. "Todos os hotéis da rede Blue Tree em São Paulo adotam o Room Tax, no valor de R$ 3,90. A prática é utilizada internacionalmente em diferentes cidades, sempre com o mesmo objetivo de apoiar e incentivar ações de promoção e desenvolvimento do turismo local", detalhou.

A taxa nas unidades do grupo é realizada de forma compulsória, e a cobrança acontece no momento do check-out, no qual o cliente pode decidir se irá ou não aderir à contribuição, explicou a executiva. O valor arrecadado é direcionado para a SPCVB com o intuito de contribuir para a entidade na busca e identificação de oportunidades para promover a cidade de São Paulo e evidenciar os principais temas de interesse ao consumidor. 

"De nossa parte, se tivermos mais turistas na cidade e apoiarmos a entidade, consequentemente, vamos ter mais hóspedes também, o que acaba sendo bom para todo mundo. O São Paulo Convention tem feito grandes avanços, desde a captação e realização de grandes eventos. Temos também benefícios inéditos no País como o novo ônibus turístico que roda os principais atrativos da cidade".  

Para Chieko a efetividade da ação pode ser notada nos resultados do turismo de São Paulo, o que aparentemente mina qualquer tipo de desvantagem para a adoção da contribuição. Segundo a presidente, é fundamental demonstrar para os hóspedes a vantagem do Room Tax. O esforço, salientou, é mostrar a utilidade e importância dessa contribuição para o turista e para a indústria. 

"O sucesso dos maiores destinos turísticos do mundo, é fruto do conjunto de ações da iniciativa privada e do setor público.  É a prática do contribuir junto, desenvolver junto e liderar junto o mercado. Queremos juntos construir um turismo sustentável e consistente, com marketing e divulgação presentes nos mercados nacional e internacional importantes. O turismo é importante, qualquer que seja o objetivo. Os hotéis são um pedacinho de um todo, de uma experiência muito maior que começa quando o turista sai de sua casa", concluiu.

Serviço
www.bluetree.com.br
www.visitesaopaulo.com

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