Turismo e a tragédia anunciada da (des)estrutura básica no País

Periferia de Belém, no Pará: discurso de melhoria
da Prefeitura destoa da situação do entorno
(foto: Peter Kutuchian)

Crianças brincam de forma apática diante de pedaços de madeira, sacolas plásticas, vala a céu aberto, roedores que dilaceram dejetos e o que mais encontram em meio ao imenso lodo verde. Adiante, galinhas ciscam enquanto mulheres estendem roupas, equilibrando-se em estreitas tábuas que adornam o chão de barro. A cena, semelhante à de um longa-metragem trágico que serve de simulacro de regiões brasileiras, é baliza para a falta de saneamento básico, visão corriqueira em muitas cidades brasileiras.
 
Intrinsecamente ligada à atividade turística, a desestrutura do País reverbera a mesquinhez com que o Estado trata tais problemas. Altruísmo é palavra jocosa neste jogo. Para se ter ideia, a última leitura da PNSB (Pesquisa Nacional de Saneamento Básico), anunciada no segundo semestre de 2010 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostra avanço tímido no serviço de saneamento básico entre 2000 e 2008. A estimativa é que há três anos quase 35 milhões de pessoas (18% da população brasileira) viviam em regiões onde não há nenhum tipo de rede coletora e esgoto. Hoje os números devem ter perdido ainda mais timidez e seguem espetacularmente malsucedidos.
 
Não é preciso perscrutar muito para ver esses índices vociferando pelo País - a exemplo das regiões Norte e Nordeste, torrentes do descaso. Dos 34,8 milhões de brasileiros que vivem sem rede coletora, 15,3 milhões (44%) são nordestinos.
 
Rondônia, Pará, Amapá e Amazonas têm os menores índices de domicílios com acesso à rede de esgoto. No Nordeste, região tida como a de maior potencialidade turística do Brasil, Piauí, Maranhão e Alagoas são os piores.
 
Apenas quatro em cada dez domicílios brasileiros têm acesso à rede geral de esgoto. Cerca de 134 cidades paraenses - do total de 144 - continuavam sem ter sistema de esgotamento sanitário, em 2008. Em 78 delas, a solução alternativa ainda era feita por fossas sépticas e sumidouros. Outras 53 cidades utilizavam fossas rudimentares.
 
O que se vê em Belém, representação primeira do estado do Pará? Um potencial destino turístico, que exala história e cultura. Dezenas de casarões, Estação das Docas, Ver-o-Peso, Tacacá, rios, florestas e afins. Mas, como em muitas outras cidades por aí, principalmente as do Norte e Nordeste, descaso típico, muito lixo.
 
Em bairros de classe média, o esgoto também está no meio fio. O excesso das fossas sépticas é despejado na rua, ali onde todos estacionam os carros, crianças brincam, comidas são vendidas. Normalidade, senso comum com a cena.
 
Notadamente, fala-se de locais com tangível potencial turístico que estão absortos em pontos básicos, até mesmo da existência humana nestes locais. Não são poucos os que têm praias paradisíacas, paisagens que tomam os olhos e, juntamente, falta de água potável, populações à beira da miséria e nenhuma perspectiva de vida.
 
O turismo é benigno para tais locais e pode ser luz à podridão que assola questões mínimas. Todavia, não são somente os polos turísticos que pedem socorro - ao menos para a infraestrutura básica.
 
De forma lacônica, são municípios que vivenciam a indiferença governamental e que, se não ganharem a perplexidade coletiva, tendem a naufragar junto ao turismo neste locais - presumivelmente o setor da economia que melhor movimenta tais cidades.
 
É preciso afastar as grandes tigelas fumegantes de hipocrisia e, mesmo a contragosto, assumir a negligência que massacra moradores e toda a vida no entorno. Aliás, a vida, nestes casos, segue apequenada, ignóbil e auto-indulgente.
 
O turismo e a existência das pessoas nestes locais pranteiam para que a abjeção política deixe de lado a sovinice contrária à índole da atividade no Brasil. Deve-se agir contra os tiques de avareza que empesteiam essa geração como piolhos, ou a queda virá de forma melíflua e já anunciada.

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