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A ESG aplicada à hotelaria e a longevidade ativa, produtiva e cidadã.

A agenda ESG aplicada à hotelaria ganha uma dimensão estratégica incontornável quando analisada à luz da longevidade e da expansão da chamada economia prateada. O envelhecimento populacional configura-se como um fenômeno global acelerado. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2020), até 2030 haverá mais pessoas com 60 anos ou mais do que crianças menores de 10 anos no mundo. No contexto brasileiro, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022) indicam que a população com 60 anos ou mais já ultrapassa 32 milhões de pessoas, podendo representar aproximadamente 30% da população até 2050. Esse cenário redefine o perfil do consumidor turístico e impõe à hotelaria uma reconfiguração estrutural de suas práticas sob a ótica ESG, não apenas como diferencial competitivo, mas como imperativo de sustentabilidade e relevância mercadológica.

No pilar social, a responsabilidade social corporativa assume papel central na estratégia de hospitalidade. A inclusão etária emerge como uma das principais frentes de atuação, exigindo o enfrentamento do etarismo e a construção de ambientes acessíveis, acolhedores e seguros para o público 60+. Tal abordagem ultrapassa adaptações físicas, como acessibilidade universal, ergonomia e sinalização adequada, abrangendo dimensões mais complexas da experiência do hóspede, como atendimento empático, comunicação inclusiva e personalização de serviços. Estudos da World Tourism Organization (UNWTO, 2021) indicam que empreendimentos que adotam práticas inclusivas apresentam aumento significativo nos índices de satisfação e fidelização desse público, que tende a possuir maior permanência média e maior gasto por experiência.

A transformação mais crítica, entretanto, ocorre no eixo da formação e capacitação profissional. O atendimento qualificado ao público longevo demanda o desenvolvimento de competências técnicas e comportamentais específicas. Profissionais da hotelaria devem ser preparados para reconhecer a heterogeneidade desse público, contemplando desde indivíduos ativos até aqueles com limitações funcionais ou cognitivas. Isso inclui capacitação em comunicação clara, escuta ativa, inteligência emocional, noções de primeiros socorros e fundamentos de gerontologia aplicada ao turismo. Além disso, programas de formação contínua devem incorporar competências digitais, considerando o aumento da conectividade entre a população idosa.

Nesse contexto, a intergeracionalidade configura-se como um ativo estratégico. Equipes compostas por diferentes faixas etárias ampliam repertórios, estimulam a inovação e fortalecem a capacidade adaptativa das organizações. A adoção de uma governança humanizada, inclusiva e multidisciplinar contribui para a consolidação da diversidade etária como valor organizacional e prática de gestão. Modelos de liderança que incentivam a colaboração intergeracional e a aprendizagem contínua favorecem ambientes mais resilientes, éticos e produtivos.

No pilar da governança, a incorporação da longevidade nas estratégias corporativas exige estruturas decisórias orientadas por dados e alinhadas às diretrizes ESG. Conselhos consultivos devem incorporar indicadores relacionados à diversidade etária, acessibilidade e satisfação do cliente, promovendo maior transparência e responsabilidade organizacional. O compromisso com os direitos humanos e a construção de uma cultura inclusiva são elementos fundamentais para a geração de valor sustentável no longo prazo.

Sob a perspectiva econômica, a economia prateada representa uma das mais relevantes oportunidades de crescimento para o setor de hospitalidade. Estimativas internacionais apontam que esse segmento movimenta trilhões de dólares globalmente (OMS, 2020). No Brasil, o público 60+ apresenta crescente poder aquisitivo e maior disponibilidade para viagens fora dos períodos de alta temporada, contribuindo para a redução da sazonalidade no setor hoteleiro. Dessa forma, a adaptação de produtos e serviços a esse público configura-se como estratégia econômica e socialmente responsável.

Por fim, no pilar ambiental, a integração com ESG amplia o conceito de sustentabilidade ao considerar os impactos das operações na qualidade de vida das gerações presentes e futuras. Empreendimentos hoteleiros que adotam práticas sustentáveis, como eficiência energética, gestão de resíduos e consumo consciente, alinham-se aos valores de um público cada vez mais engajado com questões socioambientais.

Em síntese, a convergência entre ESG, hotelaria e longevidade exige uma mudança estrutural no setor, com a transição de um modelo operacional tradicional para uma abordagem estratégica, inclusiva e orientada à diversidade etária. O investimento em responsabilidade social, capacitação profissional e governança humanizada fortalece a competitividade organizacional e posiciona a hotelaria como protagonista em um cenário global marcado pela longevidade e pela transformação dos padrões de consumo.

REFERÊNCIAS (ABNT NBR 6023:2018/2026)

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Global report on ageing and health. Genebra: OMS, 2020.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Projeções da população do Brasil e Unidades da Federação. Rio de Janeiro: IBGE, 2022.
WORLD TOURISM ORGANIZATION (UNWTO). Tourism and ageing population report. Madrid: UNWTO, 2021.

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Betty Dabkiewicz Andragoga, Mestre em educação organizacional , conselheira  consultiva na Associação Comercial do RJ – economia prateada;  docente e mentora de carreira no curso de formação de conselheiros Consultivos da Board Academy. Especialista em gestão humanizada, inclusiva e intergeracional com  foco na ESG,  sustentabilidade e perenidade das empresas. Co- criadora do Programa Hotelaria para longevidade -projeto que integra bem-estar, experiência  e performance. Sócia da empresa Pontes e Conexões, mentora e palestrante. Articulista do Hub ESG Hotels Business

(*) Crédito da imagem: arquivo pessoal da autora

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