InícioPESSOASArtigosA força feminina na indústria como estratégia para a hospitalidade gastronômica
Slaviero hospitalidade

A força feminina na indústria como estratégia para a hospitalidade gastronômica

“Dando continuidade à série sobre mulheres que movimentam a hospitalidade por meio da gastronomia, conversamos com Thaís Abdo sobre o papel estratégico da indústria na construção da experiência gastronômica contemporânea — da operação à formação de pessoas.”

Durante muito tempo, a discussão sobre hospitalidade gastronômica esteve concentrada quase exclusivamente na figura dos chefs, dos restaurantes e das experiências à mesa. Mas existe um elo silencioso, estratégico e absolutamente essencial para que toda essa engrenagem funcione: a indústria de alimentos e bebidas. E, cada vez mais, mulheres têm ocupado posições decisivas nesse setor, conduzindo operações, desenvolvendo soluções e conectando eficiência, experiência e propósito.

Dentro da série de reflexões sobre mulheres que transformam a hospitalidade por meio da gastronomia, olhar para a indústria torna-se não apenas necessário, mas coerente com o momento vivido pelo setor. Afinal, sustentar a experiência gastronômica de hotéis, resorts, cafeterias, eventos e grandes operações de alimentação exige inteligência operacional, visão de cadeia e capacidade de compreender a experiência do consumidor de ponta a ponta.

Thais Abdo

É nesse contexto que profissionais como Thaís Abdo ajudam a ampliar a compreensão sobre o papel estratégico da indústria dentro da hospitalidade contemporânea. No comando de uma das frentes da Nestlé Professional Thaís conduz um trabalho que ultrapassa o fornecimento de produtos e se conecta diretamente à construção de experiência, eficiência e formação profissional.

“A hospitalidade é construída em cima de experiência, mas ela também se sustenta em conexão emocional”, afirma a executiva. 

A fala ajuda a compreender uma mudança importante do mercado. A gastronomia deixou de ocupar um papel complementar na hotelaria para se tornar parte central da jornada do hóspede. O café servido no lobby, a sobremesa do buffet, a bebida consumida na piscina ou mesmo a memória afetiva despertada por determinadas marcas influenciam diretamente a percepção de acolhimento e qualidade.

Mas existe um ponto pouco discutido quando se fala em hospitalidade gastronômica: a necessidade de escala com consistência. Em operações que chegam a servir milhares de refeições por dia, romantizar que toda a cadeia possa ser sustentada exclusivamente por pequenos produtores desconsidera a complexidade operacional do setor. É justamente nesse espaço que a indústria especializada assume relevância estratégica.

Segundo Thaís, o grande diferencial está em compreender que o trabalho não termina no produto. “A gente sai do produto para a solução, da solução para o serviço e do serviço para a experiência.” 

Esse pensamento revela uma indústria que busca atuar como parceira das operações, desenvolvendo soluções adaptadas às necessidades de cada hotel, restaurante ou empreendimento. E talvez um dos movimentos mais interessantes dessa construção esteja justamente no campo da educação.

A Nestlé Professional mantém equipes de chefs, culinaristas e baristas que atuam diretamente junto aos operadores, auxiliando no desenvolvimento de receitas, treinamento de equipes, padronização de processos e otimização das cozinhas. Mais do que vender produtos, existe um investimento constante na transmissão de conhecimento técnico e na formação prática dos profissionais que sustentam a hospitalidade diariamente.

“Um produto não faz apenas uma receita. Ele pode gerar inúmeras possibilidades. E é justamente o trabalho dos chefs e culinaristas que ajuda o operador a transformar isso em resultado”, explica Thaís. 

Quando mulheres ocupam posições de liderança dentro dessa cadeia, elas também ajudam a transformar a forma como a indústria se relaciona com o mercado. Existe um olhar mais atento para conexão, escuta, desenvolvimento humano e construção de relações de longo prazo — elementos fundamentais para a própria essência da hospitalidade.

A agenda ESG aparece como consequência natural desse movimento. E, nesse ponto, a atuação da Nestlé Professional também evidencia como sustentabilidade precisa estar integrada à prática cotidiana e não apenas ao discurso institucional.

Entre as iniciativas destacadas está o programa Yocuta — Young Culinary Talents — voltado à formação e empregabilidade de jovens em situação de vulnerabilidade social. O projeto conecta capacitação técnica, educação alimentar, sustentabilidade e inserção profissional, ao mesmo tempo em que responde a uma das maiores dores do setor: a falta de mão de obra qualificada.

“Formar jovens talentos para o setor é um dos pilares mais fortes do nosso olhar social dentro do ESG”, afirma Thaís. 

Mais do que apoiar operações, iniciativas como essa ajudam a fortalecer toda a cadeia da hospitalidade gastronômica, criando oportunidades reais de transformação social por meio da cozinha, do serviço e da formação profissional.

Ao olhar para mulheres à frente da indústria gastronômica, talvez o ponto mais importante seja compreender que elas não estão apenas conduzindo marcas ou operações. Elas estão ajudando a redesenhar a maneira como a hospitalidade se conecta com eficiência, educação, sustentabilidade e experiência humana.

Porque, no fim, hospitalidade também é isso: a capacidade de sustentar o acolhimento em todas as camadas da experiência — inclusive nas que o consumidor quase nunca vê.

—-

Reila Criscia é jornalista, especialista em gastronomia e hospitalidade, curadora de experiências e colunista da Hotelier News. Diretora da Anagrama e membro do Comitê de Jovens Empreendedores da FIESP.

(*) Crédito das fotos: divulgação