O Airbnb intensificará sua atuação no segmento hoteleiro a partir de agora. Após traçar um plano ambicioso para a próxima década, Brian Chesky, CEO da companhia, anunciou testes com a inclusão de hotéis boutique e independentes listados diretamente na plataforma, ao lado das opções de aluguel de imóveis. A única cidade confirmada a receber a novidade, até o momento, é Nova York.
Durante o Skift Global Forum, o executivo declarou que a aposta da companhia na hotelaria está ficando cada vez mais séria. “Existe um mercado inteiro que não está sendo atendido de forma adequada, e acreditamos que podemos suprir essa demanda reunindo os melhores hotéis independentes e boutiques”, afirma.
Segundo ele, os hotéis não terão seção separada, aparecendo junto aos resultados tradicionais de imóveis em um carrossel. A estratégia do Airbnb é priorizar propriedades independentes, reforçando a integração com a experiência de busca já utilizada pelos viajantes.
A empresa já comercializava diárias de hotéis, sobretudo após a aquisição do Hotel Tonight, em 2019. Agora, a diferença é a escala e o destaque dentro da plataforma.
O executivo também ressalta a atratividade da base de usuários, já que cerca de 1,6 bilhão de dispositivos acessam o Airbnb por ano. Ele destaca ainda que a taxa de comissão aplicada (15,5%) é uma das mais baixas do setor, especialmente em comparação com grandes OTAs (agências de viagens online). “Os hotéis independentes na Europa gostam do nosso público de alto poder aquisitivo, em sua maioria jovens e americanos”, afirma Chesky.
O CEO reconheceu que a empresa deve, nos próximos meses, acelerar seu crescimento. “Não estou satisfeito com a taxa atual. Quero que o Airbnb cresça significativamente mais rápido e, por isso, acredito que os hotéis, entre outras categorias novas, serão parte essencial disso”, conclui.
Carga tributária
Um levantamento da LCA Consultoria Econômica, encomendado pela plataforma de short-term rental, concluiu que a carga tributária incidente sobre pessoas físicas que alugam imóveis pela plataforma é equivalente ou até maior que a aplicada aos hotéis. A análise considerou tributos sobre renda e consumo, tanto nas regras atuais quanto nas projeções após a reforma tributária.
O estudo, divulgado pelo Infomoney, teve como objetivo rebater a percepção de que anfitriões de aluguel por temporada atuam em um cenário de “paraíso fiscal” em relação à hotelaria convencional. “Historicamente, a gente escuta da indústria de acomodações que o Airbnb seria uma concorrência desleal na questão tributária, como se os anfitriões não pagassem impostos. A realidade, contudo, é justamente o contrário”, afirma Henrique Índio do Brasil, diretor tributário do Airbnb para América Latina e Canadá.
Atualmente, anfitriões pessoas físicas são tributados pelo IR (Imposto de Renda) com alíquotas progressivas, que podem chegar a 27,5%, recolhidas mensalmente pelo sistema Carnê-Leão. “Grande parte dos nossos anfitriões já está na faixa mais alta do IR. Como a tabela está defasada e há poucas deduções possíveis, a alíquota efetiva fica próxima dos 27,5%”, explica o executivo.
Já os hotéis, que atuam como pessoas jurídicas, podem adotar regimes como Simples Nacional, lucro presumido ou lucro real, além de deduzirem despesas operacionais e royalties. “Quanto maior a rede hoteleira, menor tende a ser a carga efetiva sobre o faturamento”, complementa.
A diferença também se reflete nos incentivos fiscais. Apenas no Rio de Janeiro, em 2023, hotéis receberam mais de R$ 100 milhões em isenções de IPTU e outros R$ 15 milhões em ITBI, benefícios que não abrangem os anfitriões. Durante três anos de pandemia, o setor hoteleiro também ficou isento de tributos federais, enquanto locadores pessoas físicas seguiram recolhendo IR normalmente.
Reforma tributária
O levantamento da LCA também avaliou os efeitos da reforma tributária. A conclusão é que a proporção de carga sobre anfitriões deve permanecer igual ou maior à da hotelaria. “No cenário pós-reforma, alguns anfitriões pagarão dois tributos: o IR da pessoa física e o IBS/CBS, que se somam à carga. Os hotéis, por sua vez, continuam com regimes que permitem uma carga efetiva menor. Sendo assim, a diferença não diminui, mas pode, sim, se intensificar”, afirma Brasil.
Ele destaca, porém, que a nova regra prevê isenção para anfitriões com até três imóveis ou faturamento anual inferior a R$ 240 mil. “Foi um reconhecimento de que o pequeno empreendedor, aquele que aluga um único imóvel para complementar a renda, não deveria ser afetado pelos novos impostos”, avalia.
Competitividade
Segundo o Airbnb, os dados reforçam que não há vantagens fiscais para quem atua no aluguel de temporada. “O chamado paraíso fiscal do Airbnb não existe. Quando você compara rendimentos equivalentes, muitas vezes o anfitrião paga mais imposto do que uma rede de hotéis estruturada”, conclui o executivo.
Impacto econômico no Rio de Janeiro
Pela ótica de destino, um estudo inédito da FGV (Fundação Getulio Vargas) mostra que o aluguel por temporada movimentou R$ 9,9 bilhões na economia da cidade do Rio de Janeiro em 2024. No estado, o impacto chegou a R$ 17,8 bilhões, considerando os diversos municípios onde o segmento atua.
De acordo com a FGV, para cada R$ 10 gastos em hospedagem, outros R$ 52 são destinados a setores como transporte, alimentação, comércio e entretenimento. Na capital fluminense, essas despesas adicionais representaram R$ 2,9 bilhões em renda extra para negócios locais, sustentando 61,6 mil empregos. Os anfitriões, por sua vez, tiveram renda complementar de R$ 1 bilhão.
Para Fiamma Zarife, diretora-geral do Airbnb na América do Sul, os dados reforçam a relevância do short-term rental no turismo carioca. “Somente com o show da Lady Gaga neste ano foram mais de 60 mil turistas no Rio. Em paralelo aos hotéis, as hospedagens complementam essa demanda onde não há rede hoteleira”, afirma.
(*) Crédito da foto: Unsplash














