Durante muito tempo, as áreas externas de hotéis foram tratadas quase como uma extensão funcional da piscina: espreguiçadeiras alinhadas, algumas mesas, ombrelones e paisagismo cumpriam o programa esperado. Mas a hospitalidade contemporânea começa a enxergar esses ambientes de outra maneira.
Terraços, varandas, decks e áreas de piscina podem ser verdadeiros espaços de permanência, capazes de estimular diferentes comportamentos ao longo do dia — descansar, conversar, trabalhar, comer, contemplar ou simplesmente não fazer nada.
Na Villa Ayeria, em Creta, essa mudança de perspectiva aparece de forma particularmente interessante. Localizada em Panormo, próximo a Rethymno, no Litoral Norte da ilha grega, a residência foi concebida em diálogo com um cenário marcado pelo Mediterrâneo, pelas colinas áridas e pela arquitetura local. Luz, água e vida ao ar livre deixam de funcionar apenas como pano de fundo e passam a estruturar a experiência do projeto.
Embora seja uma residência privada, Ayeria oferece uma referência relevante para a hotelaria: mostra como arquitetura e mobiliário externo podem trabalhar juntos para aumentar o desejo de permanecer em determinado lugar.
E talvez essa seja uma das questões mais interessantes para hotéis e resorts atualmente.
O luxo de permanecer

A villa acomoda até 12 hóspedes em seis dormitórios e conta com grandes terraços, áreas de descanso, piscina infantil e uma piscina de borda infinita de 100 metros quadrados (m²), além de área wellness com piscina interna aquecida, sauna e academia.
Mas os números dizem pouco sobre aquilo que realmente diferencia o projeto. O ponto central está na maneira como os ambientes foram organizados.
Varandas, terraços e áreas cobertas criam uma sucessão de espaços entre interior e exterior. Grandes aberturas de vidro mantêm piscina, mar e paisagem visualmente presentes nos ambientes internos, enquanto os balanços da arquitetura produzem sombra nas horas mais quentes do dia.
Não existe uma ruptura clara entre estar “dentro” ou “fora”. Existe uma sequência de experiências. É justamente aqui que aparece uma tendência importante para a hotelaria: o espaço externo passa a fazer parte da jornada do hóspede.
Ele pode começar o dia tomando café na varanda, passar algumas horas junto à piscina, buscar um ambiente protegido do sol para conversar, migrar para uma área lounge ao entardecer e terminar a noite ao redor de uma mesa. O mesmo espaço precisa acomodar diferentes ritmos.
Mobiliário externo como ferramenta de arquitetura

O projeto de interiores e mobiliário foi desenvolvido pelo Kaloterakis Group, empresa cretense fundada em 1976 e especializada em mobiliário, equipamentos para hotelaria e soluções personalizadas. Dentro dessa composição, o mobiliário externo da Vondom estabelecer funções, escalas e formas de ocupação.
A arquitetura utiliza branco, madeira e tonalidades próximas à areia para criar uma base visual bastante silenciosa. Sobre ela, diferentes famílias de mobiliário introduzem pequenas variações de forma, textura e cor, construindo situações distintas de uso: repousar junto à água, conversar sob a área coberta ou reunir um grupo ao redor da mesa.
Essa integração é particularmente interessante para projetos hoteleiros. Porque especificar mobiliário externo não deveria significar apenas escolher produtos resistentes ao sol, à umidade ou ao uso intensivo. Significa também perguntar: que comportamento queremos estimular neste espaço?
Gatsby: ordenar o descanso sem competir com a paisagem

Ao redor da piscina, as espreguiçadeiras Gatsby, desenhadas por Ramón Esteve, acompanham a horizontalidade da arquitetura e da lâmina d’água.
Sua geometria simples e os tons neutros permitem que o mobiliário praticamente desapareça dentro da composição, preservando a continuidade visual entre deck, piscina e horizonte. A coleção tem referências na elegância do Art Déco e nos anos 1920, mas aqui aparece de maneira bastante contida.
Nas fotografias do projeto, há algo particularmente interessante nessa escolha: a repetição das espreguiçadeiras cria ritmo sem provocar ruído. Para a hotelaria, essa é uma decisão bastante relevante.
Áreas de piscina frequentemente acumulam tantos elementos — mobiliário, guarda-sóis, mesas, equipamentos, sinalização, toalhas, pessoas — que rapidamente se tornam visualmente congestionadas. Ayeria segue outra lógica. O mobiliário acompanha a arquitetura para que a paisagem continue sendo protagonista.
Milos: quando o terraço assume o conforto da sala

Se Gatsby organiza o repouso ao redor da piscina, a coleção Milos, de Jean-Marie Massaud, trabalha outro comportamento: a convivência.
Poltronas e sofás modulares de volumes arredondados criam pequenas salas de estar ao ar livre. As formas foram inspiradas em rochas modeladas pelo vento e pelo mar, estabelecendo uma relação conceitual interessante com a paisagem mineral de Creta. A coleção recebeu o Red Dot Design Award em 2024.
Mas o aspecto mais importante talvez esteja na configuração espacial. Sofás curvos, poltronas individuais e mesas baixas formam diferentes núcleos de permanência, organizados para favorecer conversas sem bloquear circulação ou vistas. O resultado se aproxima muito mais de uma sala de estar do que de um tradicional “mobiliário de piscina”. E isso representa uma transformação importante para resorts e hotéis de lazer.
O conforto associado aos interiores está migrando para fora. Estofados mais generosos, volumes acolhedores, almofadas, iluminação, tapetes outdoor e mesas auxiliares vêm construindo o que poderíamos chamar de living rooms a céu aberto. São ambientes que convidam o hóspede a permanecer.
Pequenos territórios de privacidade

Nos quartos do pavimento superior, a escala muda novamente. As poltronas Africa, de Eugeni Quitllet, aparecem nas varandas criando pequenos lugares de pausa voltados para a paisagem. Sua presença mais leve permite transformar poucos metros quadrados em um território individual de contemplação.
Em hotelaria, uma varanda bem posicionada, uma poltrona confortável e uma vista podem criar um dos momentos mais memoráveis de uma estadia. O projeto mostra que trabalhar diferentes escalas de sociabilidade — coletiva, pequenos grupos, casal e indivíduo — é tão importante quanto definir o programa arquitetônico.
Love: a cor cria identidade
Se grande parte da villa trabalha com tons neutros, a área de refeições recebe um movimento cromático mais evidente.
As cadeiras Love, também de Eugeni Quitllet, aparecem principalmente no tom Clay, um avermelhado terroso que se conecta visualmente às colinas de Creta, aos detalhes da fachada e às almofadas presentes nos lounges.
Nas extremidades da mesa, poltronas Sabinas, de Javier Mariscal, em Ecru, equilibram a composição.
A cor, portanto, não surge apenas como decoração. Ela funciona como um fio que relaciona mobiliário, arquitetura e território.
Há ainda uma dimensão operacional interessante: as cadeiras Love são produzidas em polipropileno reforçado com fibra de vidro, são empilháveis e podem ser utilizadas tanto em interiores quanto em exteriores. Para hotelaria, essa combinação entre identidade estética e flexibilidade operacional é essencial. Um bom produto precisa funcionar quando é movimentado, limpo, reorganizado e utilizado centenas de vezes.
Do mobiliário à experiência

O principal aprendizado de Ayeria está na maneira como eles foram combinados. Gatsby organiza a contemplação junto à água. Milos estimula encontros. Love transforma a refeição em um ponto visual da área externa. Sabinas introduz equilíbrio à composição. Africa cria pequenos momentos de privacidade nas varandas.
Cada coleção responde a um comportamento. Esse raciocínio aproxima especificação de mobiliário e design de experiência. Antes de decidir qual cadeira ou sofá utilizar, talvez seja mais interessante definir quais cenas deverão acontecer naquele espaço.
Onde alguém poderá conversar durante duas horas? Onde estará confortável para ler sozinho? Onde um grupo de oito pessoas conseguirá se reunir? Onde será possível observar o pôr do sol? Onde haverá sombra às três da tarde?
A partir dessas perguntas, mobiliário, arquitetura, paisagem, proteção solar e iluminação começam a funcionar como um sistema.
Nova leitura do luxo na hospitalidade

A Villa Ayeria também reforça outra transformação perceptível na hospitalidade contemporânea. Luxo pode significar espaço, silêncio visual, luz natural, paisagem, conforto e liberdade para escolher como viver cada momento.
Essa é exatamente a leitura proposta pelo projeto: uma experiência baseada menos no excesso e mais na abertura para o exterior, na proximidade do mar e nas diferentes possibilidades de ocupação dos ambientes.
É uma ideia especialmente pertinente para hotéis e resorts. Quando mobiliário externo é tratado como parte da arquitetura o terraço deixa de ser passagem. A piscina deixa de ser apenas equipamento. A varanda deixa de ser metragem adicional.
Esses espaços passam a produzir aquilo que talvez seja um dos ativos mais valiosos da hospitalidade: tempo de permanência com qualidade. E, no fim, talvez seja essa uma das formas mais contemporâneas de luxo: criar lugares nos quais as pessoas simplesmente tenham vontade de ficar.
(*) Crédito das fotos: N. Frango Manolakis / Vondom













