InícioHub DesignXArquiteturaFera Palace Hotel: arquitetura que constrói experiência

Fera Palace Hotel: arquitetura que constrói experiência

Durante minha estadia no Fera Palace Hotel, em Salvador, uma sensação ficou evidente desde a chegada: ali, a arquitetura não funciona apenas como cenário para a hospitalidade. Ela participa da experiência.

Está na fachada restaurada, nos pisos preservados, na circulação, na vista para a Baía de Todos os Santos, na curadoria de arte, no mobiliário e na forma como cada detalhe ajuda o hóspede a perceber que está em um hotel contemporâneo, mas profundamente conectado à história da cidade.

Mais do que hospedar, o Fera Palace convida o visitante a habitar Salvador.

A experiência começa no edifício

Primeiro hotel de luxo de Salvador e do Nordeste

Localizado na Rua Chile, no Centro Histórico, o antigo Palace Hotel foi construído em 1934 como o primeiro hotel de luxo de Salvador e do Nordeste.

Sua volumetria triangular, inspirada no Flatiron Building, transformou o edifício em um marco arquitetônico da cidade. Ao longo de sua história, passaram por ali nomes como Carmen Miranda, Grande Otelo, Pablo Neruda e Orson Welles. Além disso, o antigo cassino do hotel se conecta ao imaginário de Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado.

Por isso, o Fera Palace não parte de uma folha em branco. Ele carrega memória, camadas e símbolos. O grande desafio do projeto foi justamente reativar essa história sem transformar o hotel em museu.

Preservar também é atualizar

Depois de décadas de declínio, o edifício foi assumido pela Fera Investimentos e reaberto em 2017, após um projeto de restauração assinado pelo arquiteto dinamarquês Adam Kurdahl, do escritório SPOL Architects.

A fachada tombada pelo IPHAN, os adornos externos e as janelas de madeira maciça passaram por um processo cuidadoso de recuperação. No entanto, o projeto não se limitou à preservação estética.

Ao contrário, ele precisou adaptar um edifício dos anos 1930 às necessidades da hotelaria contemporânea: conforto, segurança, acessibilidade, climatização, operação, manutenção e novas formas de uso.

Durante a visita, foi possível observar elementos originais ainda presentes, como pisos, portas, janelas, corrimãos e soluções antigas de ventilação. Esses detalhes ajudam a contar a história do edifício enquanto continuam participando da experiência do hóspede.

Luxo que não precisa gritar

Luxo como elegância contida

Um dos pontos mais interessantes do Fera Palace está na forma como o hotel trabalha o luxo. Não há excesso. Não há ostentação gratuita. Também não há aquela sensação de espaço bonito, mas intocável.

O que aparece é uma elegância contida, construída por camadas: mobiliário, tecidos, luminárias, arte, pisos, texturas, luz natural e atmosfera. Cada elemento tem presença, mas nenhum tenta dominar o conjunto.

Essa talvez seja uma das maiores lições para a hotelaria contemporânea. Bons produtos, bons acabamentos e boas peças de design não bastam quando aparecem de forma isolada. A experiência nasce quando tudo se conecta em torno de uma intenção clara.

Art Déco com alma baiana

Art Déco com presença de artistas baianos

Nos interiores, o Art Déco aparece como linguagem de base, mas não como fantasia nostálgica.

Na recepção, o piso em mosaico preto e branco, os lustres, o balcão em madeira e o antigo armário de correspondência criam uma chegada marcante. Ao mesmo tempo, a presença de artistas baianos, como Nádia Taquary e Akira Cravo, amplia a sensação de pertencimento.

A Bahia não entra apenas como tema decorativo. Ela aparece na arte, nas fotografias, nas músicas, nos materiais, na gastronomia, no serviço e na relação direta com a Rua Chile.

Durante a entrevista, uma frase resumiu bem essa ideia: o Fera não está apenas localizado em Salvador. Ele busca ser Salvador em forma de hospitalidade.

Quartos com memória e conforto

Banheiro na suíte já era um luxo

Nos 81 apartamentos, a mesma lógica se repete. Os quartos têm composições distintas de móveis e cores. Os pisos originais de taco de madeira e mármore foram recuperados, enquanto louças, metais e luminárias dialogam com o estilo da época.

A paleta clara em tons pastéis valoriza a luminosidade da Bahia. Além disso, materiais como linho, sisal e algodão reforçam a presença local sem transformar o ambiente em uma representação literal do regional.

Outro ponto importante está nos banheiros. Nos anos 1930, ter banheiro no apartamento já era um luxo, mas esses espaços funcionavam mais como lavabos, sem chuveiro. Portanto, a adaptação para a hotelaria atual exigiu mudanças de layout, ampliação das áreas molhadas e redução do número de quartos.

Esse é um bom exemplo de como preservar não significa manter tudo intocado. Em hotelaria, o patrimônio precisa continuar vivo, confortável e funcional.

O rooftop como ativo de marca

Rooftop: o toque final que faltava para aproveitar cada vista e momento

O rooftop é um dos pontos altos da experiência no Fera Palace. Hoje, o espaço reúne piscina, bar, restaurante e uma das vistas mais marcantes para a Baía de Todos os Santos. No entanto, antes da intervenção, essa área tinha uma função muito mais técnica, ligada à manutenção do edifício. Com o projeto, o que antes era bastidor virou protagonista.

A piscina de borda infinita, o pôr do sol, os drinques, a gastronomia e a paisagem criam um momento de alta memorabilidade para o hóspede. Mais do que uma área de lazer, o rooftop se tornou um ativo de marca. Ele traduz o potencial da arquitetura de transformar uma condição existente em experiência desejada.

Gastronomia como extensão da identidade

Arento, sob o comando do chef Peu Mesquita

A gastronomia também participa dessa narrativa. Com o Arento, o hotel reforça sua relação com o mar, a memória afetiva e o encontro entre Bahia e sul da Itália. Sob o comando do chef Peu Mesquita, a proposta trabalha peixes, frutos do mar, pesca artesanal, produtos sazonais e uma leitura contemporânea da cozinha mediterrânea.

Assim, o restaurante não aparece como uma operação separada do hotel. Ele funciona como extensão da arquitetura, da história e da identidade do Fera Palace.

O mesmo acontece com o serviço de concierge, que atua como curador de Salvador. A experiência se expande para restaurantes, passeios culturais, guias especializados, galerias, experiências afro-culturais e conexões com o calendário da cidade.

Arquitetura que reposiciona a cidade

Reconhecimento do Guia Michelin 2025

O reconhecimento do Guia Michelin 2025, que colocou o Fera Palace entre os 20 melhores hotéis do Brasil, reforça a importância desse posicionamento.

Mais do que um selo, a distinção evidencia uma mudança relevante na hotelaria de luxo. O hóspede contemporâneo não busca apenas uma boa cama, um bom banho ou um serviço eficiente. Ele busca coerência.

Coerência entre lugar, projeto, operação, narrativa e sensação.

Nesse sentido, o Fera Palace mostra que um edifício histórico pode ser muito mais do que patrimônio restaurado. Ele pode atuar como plataforma de revitalização urbana, destino gastronômico, ponto de encontro cultural e experiência de hospitalidade.

Quando o passado continua em uso

Ao final da estadia, fica claro que o maior diferencial do Fera Palace não está em um único elemento. Fachada, rooftop, mobiliário, arte, vista e gastronomia, isoladamente, não constroem uma experiência completa. O diferencial está na costura entre tudo isso.

A arquitetura cria uma forma harmônica de habitar Salvador. E é nesse ponto que o hotel encontra sua força: transformar passado e presente em uma experiência contínua, sensível e contemporânea.

Porque, no fim, os hotéis mais memoráveis não são apenas aqueles que preservam histórias, mas aqueles que permitem que novas continuem acontecendo.

Clique na imagem para assistir ao vídeo do Fera Palace Hotel

(*) Crédito das fotos e vídeo: Divulgação