Nilson Bernal: Como escolher um conselheiro profissional para profissionalizar a gestão

Bernal é autor do livro "Para uma Trajetória de Sucesso na Hotelaria"

 

No Brasil, vivemos uma realidade específica no setor hoteleiro. Cerca de 70% do mercado nacional é formado por empresas hoteleiras familiares. E não há mal algum nisso. É a forma como o empreendedorismo brasileiro surge. Primeiro com o casal e uma ideia de transformar a casa em pousada e daí em hotel e de repente se transforma num negócio consolidado.

Porém, com o decorrer dos anos e as mudanças ocorridas no modo de fazer negócios, uma empresa familiar pode se ver às voltas com a necessidade de implementar uma gestão profissional. É aí que o maior desafio surge: por onde começar essa profissionalização? Como iniciar um Conselho de Administração?

Independência é fundamental

Antes de tudo, é preciso buscar no mercado um conselheiro de mercado que não tenha vínculo algum com a família ou o negócio. Eu diria que isso representa uma decisão muito importante na história da família na empresa e nem sempre é um processo fácil. 

Envolve sobretudo a quebra de paradigmas e do pensamento de Gabriela (eu nasci assim eu serei assim)! O mundo mudou e se a empresa não evolui junto já ficou para trás. Talvez essa percepção seja o mais importante impulso para mudar o jeito tradicional de fazer hotelaria.

É muito comum o choque cultural de inserir na empresa um conselheiro profissional e uma gestão profissional. O meu conselho é? tome muito cuidado para não errar na escolha deste profissional conselheiro, porque está cheio de gente que fala bonito para dono de hotel, mas apresentar resultado que é importante inexiste no portfólio.

Atributos do conselheiro profissional

Ultrapassada essa etapa, quais aspectos uma empresa familiar que atua no segmento hoteleiro deve considerar na hora de escolher um conselheiro profissional independente?
Principalmente numa transição da família para transformar a companhia numa gestão profissional, que atributos esse profissional precisa ter?

Em suma, esse profissional (conselheiro de mercado) pode contribuir com a sua bagagem, know-how, visão de quem atua no segmento hoteleiro por longos anos e que tenha vivido diversas experiências em cargos de gestão, especialmente de estratégias sólidas em sua carreira.

Reflexões para tomar a decisão pela gestão profissional

Com isso, esse profissional poderá ajudar na gestão da empresa apoiando, direcionando e dando todo o suporte nas decisões estratégicas do negócio. 

Aqui eu lanço uma reflexão e faço perguntas aos que comandam as empresas familiares hoteleiras e as respostas só você pode dar:

  • Você realmente quer profissionalizar o seu negócio? 
  • Como está o nível de maturidade da família nesta decisão de profissionalizar a empresa? 
  • Você busca um salvador da pátria? Um mediador de conflitos entre a família? 

Se a empresa realmente quiser profissionalizar, criando um conselho, é preciso ampliar sua visão do negócio para que isso ocorra na prática. Com isso, esse profissional deve criar desafios para a família, sejam eles proprietários, acionistas, investidores, devendo ajudá-la a evoluir.

É obrigação do conselheiro profissional ajudar na gestão do negócio. É comum numa transição que a família queira sempre fazer as mesmas coisas, as resistências são gigantes e diversas barreiras devem ser quebradas, especialmente buscar ao máximo eliminar esta postura de que “aqui sempre foi assim”. Isso sem mencionar os conflitos na transição de gerações. 

Papel do gestor profissional

Diante disso tudo, qual é o principal papel do conselheiro profissional? Buscar se posicionar sempre pela empresa, pelo negócio e nunca direcionar ou concentrar em parte de um lado da família. A estratégia é da empresa e nunca de um ou outro integrante da família.

Uma dica altamente recomendável para a empresa: faça – e rápido – uma governança corporativa. Indique membros atuantes para compor o conselho e busque um profissional de mercado que ajude a construir a profissionalização do negócio. Não tem fórmula que assegure que o conselheiro profissional dará certo, mas quanto mais resultados ele já tiver obtido no setor hoteleiro, melhor. Cheque sempre essas credenciais.  

Aos proprietários de hotéis: sejam cuidadosos e muito criteriosos na escolha, tenham sempre visão crítica deste profissional e nunca confiem apenas em indicações. Não basta que esse profissional conheça apenas do seu segmento, a hotelaria, analisem também seu comportamento, suas atitudes e nível de comprometimento na prática. Isso é muito sério. 

Fiquem atentos porque o CAD é feito para atuar nas estratégias da empresa e não para lidar com questões de egos, vaidades, intrigas internas ou se envolver na operação do negócio, tirando a autonomia dos executivos à frente da empresa. Conselheiro profissional é pago para resolver e trazer soluções para a empresa. Indague-se: 

  • Quem cuida do negócio? 
  • Quem cuida da família? 

Desafios: resistência, relações de amizade e questões emocionais

Resistência inicial: o novo assusta, incomoda. Sempre foi assim (eles não conhecem o nosso negócio, a nossa cultura, o nosso “sistema”). O verdadeiro conselheiro deve conhecer na integra o universo hoteleiro, administração, gestão e mercado, estando conectado com o mundo dos negócios de forma geral.

Mudanças de pessoas: fica na empresa quem entrega e tem bom desempenho. Há casos de funcionários antigos que ficam por lealdade à família e não à empresa. Se esse for o caso, o conselheiro precisa entrar nesse feudo caso esse funcionário não seja eficiente e eficaz. 

Questões emocionais da família: o conselheiro profissional vai enfrentar resistência não só da equipe, mas da própria família, porque muitos dos funcionários antigos se tornam amigos da família, assim como os hóspedes antigos também resistem ao novo. Por isso, todos os dias temos que provar à família que a gestão profissional pode ajudar muito.  

O segredo? Ter muita paciência e resiliência, competências fundamentais para sobreviver a todas as dificuldades e desafios.  

Ao conselheiro, vai uma dica: ajude a gestão familiar a ter indicadores, seja o apoio e direcione estratégias da companhia. Transmita aos proprietários para que estes saiam da operação e confiem nos executivos que contrataram para cuidarem do seu negócio.  

De qualquer forma eu recomendo que o executivo que ocupa a cadeira de conselheiro conheça efetivamente a cultura da empresa, saiba na íntegra a essência do capital intelectual da empresa em  geral e ainda saiba entender o momento de uma transição, ou seja, a saída da família e a entrada do executivo.

Com isso, a empresa familiar hoteleira terá maiores chances de se perpetuar no setor. Afinal, é para isso que é construído todo o patrimônio, não é?

 

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Nilson Bernal é especialista em hotelaria há mais de 20 anos. Bacharel em Administração de Empresas, já atuou em diversas redes e hotéis independentes como Atlantica, Bourbon e Jurema Águas Quentes. Em 2017 lançou seu primeiro livro intitulado "Para uma Trajetória de Sucesso na Hotelaria" e é, também, coautor do Segredos do Sucesso - Histórias de Executivos da Alta Gestão.

(*) Crédito da foto: divulgação/Arquivo pessoa

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