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CASACOR Rio transforma memória, cidade e bem-estar em experiência

Em 2026, a CASACOR Rio de Janeiro parece menos interessada em apresentar apenas novas maneiras de decorar a casa e mais disposta a provocar uma discussão sobre como queremos viver, conviver e nos relacionar com a cidade.

Edifício Aliança da Bahia

A edição comemorativa de 35 anos abre ao público em 15 de setembro no Edifício Aliança da Bahia, no Centro do Rio, em frente ao Palácio Gustavo Capanema. O edifício modernista, que passou por retrofit assinado por Ruy Rezende, transforma-se temporariamente em uma espécie de condomínio contemporâneo, reunindo residências, espaços de trabalho, gastronomia, arte, paisagismo, lazer e bem-estar.

Sob o tema Mente e Coração, a mostra parte da casa para falar de algo muito maior: memória, pertencimento, relações humanas e território. E talvez esteja justamente aí sua principal aproximação com a hotelaria.

Mais do que projetar ambientes visualmente atraentes, os projetos colocam em discussão como arquitetura, materiais, iluminação, natureza, mobiliário, tecnologia e serviços podem construir experiências capazes de acolher diferentes formas de viver.

O edifício como parte da experiência

Fachada Edifício Aliança da Bahia

Antes mesmo de observar cada ambiente individualmente, um dos maiores destaques da edição está no próprio endereço escolhido.

A ocupação do Edifício Aliança da Bahia parte de uma lógica de reuso e ressignificação do patrimônio existente, preservando sua arquitetura e incorporando novos programas. A implantação, assinada por Mário Santos, distribui estúdios, lofts e apartamentos compactos, de aproximadamente 40 metros quadrados (m²) a 140 m², ao lado de áreas de convivência, gastronomia, cultura, trabalho e lazer.

É uma discussão particularmente interessante para a hotelaria. Em um mercado no qual edifícios históricos, antigas residências, estruturas industriais e construções originalmente concebidas para outras funções vêm sendo convertidas em hotéis, o projeto reforça uma ideia importante: modernizar não precisa significar apagar. O patrimônio pode deixar de ser apenas cenário para tornar-se parte da narrativa da experiência.

Do quarto ao condomínio: os limites entre morar e hospedar ficam menores

Edifício modernista no Centro do Rio Janeiro

A CASACOR também evidencia uma transformação que já atravessa a hospitalidade contemporânea: os limites cada vez menos rígidos entre morar, trabalhar, descansar, socializar e viajar.

Ao organizar a mostra como um condomínio vertical, alternando espaços privados e compartilhados, o percurso reproduz algo que já observamos em hotéis, branded residences, colivings e empreendimentos mixed-use: o valor do projeto não está somente no ambiente privativo, mas na rede de experiências disponível ao redor dele. A circulação passa a funcionar como narrativa.

Essa mudança é relevante porque aponta para uma hotelaria na qual lobby, jardim, restaurante, bar, biblioteca, wellness e áreas de convivência deixam de ser ambientes independentes e começam a formar um ecossistema.

Rooftop: quando a paisagem se transforma em experiência

Studio Claudia Pimenta e Patricia Franco

No 15º andar, talvez esteja uma das conexões mais evidentes com a hospitalidade. O rooftop reúne o Bar do 19, da Capuri Arquitetura; o Astrodome Bistrô, de Diego Raposo + Arquitetos; o Jardim do Bistrô, de Denise Shalom; e o Bolhas – Bar de Champanhe, de Maurício Nóbrega Arquitetura, desenvolvido em parceria com o Fairmont Rio, hotel oficial da mostra.

Mais interessante que os espaços individualmente é a maneira como gastronomia, paisagismo, design e paisagem urbana são integrados.

No Bolhas, por exemplo, os lounges se voltam para a vista do Centro em uma proposta definida como de luxo despretensioso, combinando arte, vegetação, materiais duráveis e soluções de menor impacto.

O rooftop ainda recebe um observatório desenvolvido com o Rio Memórias, de onde é possível reconhecer elementos da paisagem carioca, do Palácio Gustavo Capanema à Baía de Guanabara.

Para a hotelaria, a mensagem é poderosa: um bom projeto pode funcionar como uma lente que ajuda o hóspede a percebê-lo melhor.

Casa Abraço Deca: o design que acompanha pequenos rituais

Casa Abraço Deca, de Cadé Marino

Outro projeto que merece atenção é a Casa Abraço Deca, de Cadé Marino. Em uma composição aberta de 160 m², cozinha, estar, quarto e banho se conectam por materiais, formas suaves, luz e vegetação.

A referência ao Rio surge sem recorrer a representações literais: aparece na luminosidade, na fluidez e em uma maneira mais descontraída de ocupar os ambientes. É particularmente interessante observar como o projeto trabalha o conceito dos rituais cotidianos.

A cozinha deixa de ser apenas funcional para assumir o papel de espaço de encontro. No dormitório, quarto e banho se aproximam; cama, banheira, iluminação, materiais e tecnologia constroem uma atmosfera próxima à de um spa. Recursos como assento aquecido, ducha integrada e acionamento sem toque mostram como a tecnologia pode atuar silenciosamente sobre conforto, higiene e personalização.

É uma lógica facilmente transportável para a hotelaria: a experiência não acontece somente nos grandes gestos arquitetônicos. Muitas vezes, ela é construída na sequência de pequenas interações que acompanham acordar, tomar banho, preparar algo, descansar ou simplesmente permanecer.

Bem-estar deixa de ser um ambiente e passa a ser uma lógica

Suíte Pausa, de Fernando Lanner Arquitetura

A presença do wellness aparece em diferentes escalas. A Suíte Pausa, de Fernando Lanner Arquitetura, incorpora um spa ao programa da suíte, enquanto o Espaço de Cura, de Natália Lemos Arquitetura, propõe um loft dedicado ao bem-estar.

Mas talvez o movimento mais relevante esteja além da criação de áreas especificamente destinadas ao wellness.

Elementos associados ao cuidado aparecem espalhados pela mostra: iluminação difusa, formas arredondadas, vegetação, materiais naturais, espaços de pausa, superfícies táteis e integração entre interior e exterior. O bem-estar, nesse contexto, deixa de ser somente um serviço adicional e passa a fazer parte da própria arquitetura.

Na hotelaria, essa mudança já é perceptível. O hóspede não espera necessariamente chegar ao spa para começar a sentir conforto. Acústica, temperatura, iluminação, ergonomia, privacidade e percepção de segurança também fazem parte dessa experiência.

Projetar para diferentes corpos e diferentes fases da vida

Um Lugar Para Todos, de Jairo de Sender e Corbellini Lopes Arquitetura

Entre os projetos que ampliam essa discussão está Um Lugar Para Todos, de Jairo de Sender e Corbellini Lopes Arquitetura. O ambiente foi concebido para um casal 60+, sendo uma das moradoras usuária de cadeira de rodas.

Mais do que falar sobre acessibilidade como cumprimento de normas, o projeto permite trazer à discussão algo essencial para hotéis: design inclusivo e longevidade.

Com o envelhecimento da população e a ampliação de públicos com diferentes necessidades físicas, cognitivas e sensoriais, projetar ambientes acessíveis tende a deixar de ser uma especialidade para tornar-se premissa.

A hospitalidade talvez seja um dos melhores territórios para essa evolução: acolher significa permitir que pessoas diferentes consigam utilizar um espaço com autonomia, conforto e dignidade.

Sensorialidade e memória ganham espaço

Cite Arquitetura, Celso Rayol

Outra camada recorrente na edição está na experiência sensorial. No Fio Condutor, da Grão Arquitetura com a Galeria Hathi, tapetes, tapeçarias, fibras naturais, sombras e diferentes atmosferas de luz transformam a circulação em uma espécie de floresta lúdica.

Já o Astrodome Bistrô trabalha a sobreposição entre passado e presente por meio de cobogós, madeira, tapetes, padrões geométricos e tecidos de diferentes épocas, utilizando a familiaridade e o déjà-vu como elementos de ambientação. São projetos diferentes, mas que tocam em uma mesma questão: espaços são percebidos muito além da visão.

Textura, temperatura, luz, som, cheiro, memória e movimento também constroem a experiência — algo especialmente relevante em hotéis, onde a lembrança de uma estadia muitas vezes nasce de detalhes difíceis de traduzir em fotografias.

O design brasileiro como memória viva

Sebastian Gomez

O modernismo brasileiro também ocupa posição importante na mostra. No 6º pavimento, A Forma Informal – Sergio Rodrigues, de Bel Lobo e Marianna Travassos, inicia as comemorações do centenário do designer. Já no 2º andar, uma exposição com curadoria de Lissa Carmona apresenta um recorte dedicado a Percival Lafer, ao lado de trabalhos inéditos de Paulo Werneck.

Essa valorização do design brasileiro merece atenção do setor hoteleiro. Em um momento no qual a diferenciação das marcas passa cada vez mais pela conexão com o destino, o mobiliário, a arte, os materiais e o repertório cultural local podem se tornar ferramentas importantes para construir identidade.

Não se trata de transformar hotéis em exposições de brasilidade, mas de entender que autenticidade também pode ser projetada.

O térreo deixa de ser passagem e vira cidade

Roberta Nicolau e Rodrigo Cardoso

Um dos movimentos mais interessantes acontece no pavimento mais próximo da rua. O térreo reúne café, gastronomia, livraria, lojas e o Avesso Speakeasy, além da Clareira, de Pedro Rabelais, um espaço verde de aproximadamente 200 m². O paisagismo do Jardim do Café utiliza o conceito de floresta de bolso, estratégia de inserção de áreas verdes em zonas urbanas densas. Tanto o térreo quanto o rooftop terão acesso gratuito.

É difícil não relacionar essa solução com a transformação dos lobbies de hotéis. Durante décadas, muitos funcionaram praticamente como territórios exclusivos de hóspedes. Hoje, alguns dos projetos mais interessantes fazem exatamente o movimento contrário: aproximam restaurantes, bares, cafés, lojas e áreas de trabalho da comunidade.

Quando isso acontece, o hotel deixa de ser uma ilha e começa a participar da vida do bairro.

Da casa para a hospitalidade

Cristina Japiassú

Ao reunir patrimônio modernista, novas formas de morar, gastronomia, paisagismo, acessibilidade, wellness, arte e design brasileiro, a CASACOR Rio 2026 oferece mais do que uma sequência de ambientes. Ela apresenta pistas sobre uma mudança maior.

Estamos saindo de uma lógica na qual projetávamos espaços a partir de funções claramente delimitadas — dormir, trabalhar, comer, circular — para uma arquitetura cada vez mais interessada em relações, comportamentos e experiências. Para a hotelaria, talvez esteja aí a principal reflexão desta edição.

O futuro do setor não depende apenas de quartos maiores, restaurantes mais bonitos ou lobbies mais cenográficos. Depende da capacidade de compreender como cada decisão — do retrofit de um edifício à textura de uma superfície, da iluminação ao paisagismo, do mobiliário à tecnologia — participa da maneira como uma pessoa se sente dentro daquele lugar.

Na CASACOR Rio, Mente e Coração aparece como tema. Na hospitalidade, pode ser entendido quase como método.

Afinal, podemos projetar para os olhos. Mas são os espaços capazes de envolver corpo, memória, emoção e pertencimento que tendem a permanecer conosco depois que vamos embora.

CASACOR Rio de Janeiro 2026
De 15 de setembro a 8 de novembro, no Edifício Aliança da Bahia, no Centro do Rio de Janeiro.

(*) Crédito das fotos: André Nazareth