A ICF (Intenção de Consumo das Famílias ) aumentou 1,3% em maio, descontados os efeitos sazonais, o que reflete a melhora do mercado de trabalho nos últimos três anos: o número de trabalhadores que busca emprego há mais de dois anos caiu ao menor patamar para um 1º trimestre em nove anos.
Dados divulgados na sexta-feira (17) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) indicaram que a chamada “taxa de desemprego de longa duração” ficou em 22,2% no primeiro trimestre deste ano, com 1,9 milhão de pessoas desocupadas há dois anos ou mais.
Em geral, o profissional que fica mais tempo sem trabalhar tem baixa qualificação, seja pela falta de experiências ou de formação acadêmica. É uma camada mais vulnerável, que dificilmente consegue aplicar e ser escolhido para vagas melhores e de remuneração mais alta.
Esse recuo é uma mostra de força do mercado de trabalho brasileiro desde o impacto da pandemia de Covid-19. Por outro lado, a desaceleração econômica prevista para este ano e, agora, a perspectiva de juros mais altos do que o esperado devem reduzir essa onda positiva. Diante disso, a recomendação dos analistas é que o segmento procure investir em estudo e qualificação para enfrentar um cenário de mudanças que deve se estabelecer nos próximos anos.
Situação atual da taxa de desemprego
A taxa de desemprego de longa duração é aquela que representa o percentual de pessoas que estão desocupadas há dois anos ou mais no país. Desde o terceiro trimestre de 2021, o indicador vem em plena queda. Foram cinco trimestre seguidos de declínio, com uma pequena interrupção no primeiro trimestre de 2023, e mais três recuos nos períodos seguintes.
Conforme o economista-chefe da CNC, Felipe Tavares, o consumo vem sendo influenciado positivamente também pelo mercado de trabalho, que já avançou 1,6% no primeiro trimestre do ano, acima do crescimento de 1,2%, observado no emprego formal no mesmo período de 2023 (dados do Caged).
Com isso, o subindicador que mede a satisfação com o emprego atual avançou pelo segundo mês seguido (alta de 1,2%), mesma tendência vista no subindicador perspectiva profissional (crescimento de 1,1%). “Estamos em um cenário de emprego retroalimentando emprego. Isso significa que o emprego que é gerado impulsiona o consumo das famílias, que por sua vez se transforma em receita das empresas e gera mais emprego”, comenta Jaime Vasconcellos, assessor econômico da FecomercioSP para o G1.
Com mercado de trabalho aquecido e acesso ao crédito mais fácil, as famílias avaliaram positivamente o nível de consumo atual, que foi o segundo subindicador que mais subiu em maio (alta de 1,5%). Esse cenário mais otimista, dizem especialistas, é observado mesmo nos períodos de sazonalidade (que considera eventos que acontecem regularmente em uma determinada época).
É o caso das festas de fim de ano, por exemplo. Nesse período, é normal acontecer uma melhora do mercado de trabalho, já que uma série de empresas fazem contratos temporários com novos trabalhadores para atender à demanda da época. Esse evento também reflete no indicador do começo do ano, período em que há um aumento do desemprego em meio ao fim desses contratos temporários.
Qualidade de emprego x consumo
No geral, a melhora do mercado de trabalho também tem se refletido nos indicadores de renda. Dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de março, por exemplo, indicam que o rendimento real habitual teve uma alta de 1,5% em relação ao trimestre anterior e passou a R$ 3.123. No ano, o crescimento foi de 4%.
Para os trabalhadores que estavam há muito tempo procurando emprego, no entanto, os especialistas destacam que a média tende a ser menor. “A qualidade das vagas geradas para esse pessoal que estava em um desemprego mais longo tende a ser de menor qualidade, com uma renda menor”, diz Daniel Duque, pesquisador da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas para o G1.
Nesse sentido, especialistas destacam a importância da qualificação profissional, principalmente pela leitura de que o trabalhador sem experiências e estudos fica fragilizado quando o mercado de trabalho começa a arrefecer.
Elementos para a desaceleração do mercado pela frente
Apesar do quadro ainda positivo para o emprego no Brasil, a sinalização dos economistas há algum tempo é que haja uma desaceleração na geração de vagas ao longo dos próximos anos, acompanhando os sinais de recuo da economia e juros mais altos.
“Alguns dos limitadores do mercado de trabalho são as condicionantes de comércio e consumo, que são inflação e juros. Se tivermos uma inflação maior e se os juros não caírem tanto quanto esperamos, isso afeta o consumo das famílias. E isso tudo reduz a capacidade de crescimento da economia e se reflete no emprego”, afirma Vasconcellos.
O economista também destaca que parte desses indicativos já começa a ser visível nos próprios números do PIB (Produto Interno Bruto). Os últimos dados de atividade, divulgados pelo IBGE no início de março e referentes ao último trimestre de 2023, indicam que houve uma queda de 3% dos investimentos feitos no país.
Além disso, outro ponto de atenção fica com o cenário internacional. Isso porque além das indicações de inflação e juros elevados em economias desenvolvidas, os especialistas também já consideram, em suas projeções, a sinalização de uma desaceleração econômica mundial.
(*) Crédito da foto: Reprodução/Wikimedia Commons











