InícioPESSOASArtigosHubber Clemente: Desafios para a valorização do afroturismo na hotelaria brasileira
Slaviero hospitalidade
Banner Bee2Pay

Hubber Clemente: Desafios para a valorização do afroturismo na hotelaria brasileira

Aproveitando o excelente tema da redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) deste ano, que foi Desafios para valorização da herança africana no Brasil, escrevo sobre os desafios sobre a valorização da inclusão e diversidade de profissionais e hóspedes negros na hotelaria brasileira, tema ainda ignorado pela maioria das associações, entidades de classe, rede hoteleiras, hotéis e meios de hospedagem do país, mesmo sendo que a maioria da população brasileira se auto declare negra, com reconhecimento que preconceito racial é um problema cada vez maior na nossa sociedade.

Nos últimos três anos, em novembro, mês da Consciência Negra no país devido ao dia 20 de novembro, que é o Dia Nacional da Consciência Negra, praticamente sou repetitivo no que digo nos meus textos sobre esta inclusão na hotelaria brasileira. E faço isso porque a causa é ignorada pela maioria do setor, com no máximo um post em redes sociais ou uma breve menção nas reuniões internas, sem ações mais efetivas para reflexões e ações necessárias para equidade racial.

E mesmo com fatos históricos como a criação da primeira lei antirracista do país, mesmo com a jornalista Glória Maria sendo a primeira pessoa a usar a lei, mesmo com cada vez mais caso de preconceito racial sendo denunciados no atendimento a hóspedes negros, a maioria dos hotéis continua se omitindo em relação a esse importante debate.

Segundo dados do portal de informações da Embratur, no campo Empregos no Turismo, 42% dos trabalhadores da hotelaria são negros. Ainda assim, mesmo com praticamente a mesma formação acadêmica ou escolaridade, são contratados ganhando 15% a menos que um profissional branco. E se alguém que estiver lendo este texto quiser tentar me explicar, justificar esta diferença, fique à vontade, pois não encontro outra a não ser preconceito.

Melhorou um pouco a presença de profissionais negros no atendimento ao cliente. No entanto, ainda são poucos nas gestões das equipes e pouquíssimos na direção geral ou a ocupar altos cargos nas redes hoteleiras. Devido a este cenário, cada vez menos profissionais negros desejam seguir carreira no setor, por ver poucas ações efetivas de diversidade e inclusão racial como em outros setores ou segmentos corporativos.

Dados da pesquisa inédita Perfil Inicial do Turista Negro Brasileiro, realizada em setembro deste ano pela parceria Me Leva Cerrado e Afroturismo HUB, mostram que, para 70% dos turistas/viajantes negros, o turismo brasileiro atual não é inclusivo para pessoas negras. Além disso, 91% dos entrevistados temem passar por situações de racismo nas suas viagens, sendo que 55% já sofreram preconceito racial nas viagens e outros 67% sofreu situações de racismo em hotéis/meios de hospedagens.

Em um país onde a maioria da população é negra, boa parte desta tem grande poder de consumo e, na mesma pesquisa, 77% dos participantes responderam que dariam preferência a empresas do turismo que têm investimentos público em ações de inclusão e diversidade racial, sendo que 62% estariam dispostos a pagar um pouco mais para valorizar estas empresas.

Destaco também o trabalho da Embratur, que tem uma coordenadoria dedicada ao afroturismo e quer cada vez mais trazer turistas negros estrangeiros para conhecer a história e cultura negra brasileira. No entanto, este é um público que cobra muito representatividade negra nas empresas que estão consumindo, fora que não toleram mínimas situações preconceituosas, prontamente denunciando nas redes socias.

Ano após ano, dados, fatos e potencial não faltam para maior parte da hotelaria brasileira investir no afroturismo, com ações efetivas para promover esta inclusão. Importante destacar que isso não pode ser restringir ao mês de novembro, mês da Consciência Negra, mas no ano todo.

Infelizmente, por mais um ano, teremos apenas ações superficiais, pois para maior parte da hotelaria brasileira a omissão ainda é a “maior” ação sobre diversidade e inclusão racial no setor. Mais um novembro “sem” consciência negra na hotelaria.

—
Hubber Clemente é fundador da startup Afroturismo HUB, focada na inclusão e diversidade racial no turismo, atuando a mais de três anos com o tema. Hoteleiro , com mais de 25 anos de carreira no setor, com atuação profissional na Accor, Blue Tree Hotels , Maksoud Plaza, Decolar e outras grandes empresas do turismo, hospitalidade. Especialista em vendas e marketing, com formações em Gestão de Viagens e Eventos Corporativos, Big Data, Design Thinking, Diversidade & Inclusão e LinkedIn Creator Acelerado.

(*) Crédito da foto: Arquivo Pessoal

Grupo R1
Realgems amenities