A agenda climática corporativa vem evoluindo. Durante algum tempo, muitas empresas concentraram seus esforços em iniciativas de compensação de carbono, apoiando projetos externos para compensar suas emissões. Embora relevantes, essas iniciativas vêm sendo complementadas por estratégias mais integradas ao próprio negócio.
É nesse contexto que o insetting ganha espaço.
Segundo a International Platform for Insetting (IPI), o insetting consiste em implementar ações que geram reduções de emissões e remoções de carbono dentro ou em conexão com a cadeia de valor das empresas. Na prática, isso ocorre principalmente nas cadeias agrícolas, por meio de soluções baseadas na natureza, como agroflorestas, reflorestamento e agricultura regenerativa.¹
Diferentemente do offsetting (compensação de carbono), que atua fora da sua cadeia de valor ², o insetting direciona esforços para os próprios sistemas dos quais a empresa depende, conectando ação climática, fornecedores e territórios.¹
Por que o insetting é relevante para o setor hoteleiro?
Na hotelaria, embora as emissões diretas das operações sejam relevantes, uma parcela dos impactos climáticos está nas emissões indiretas, ligadas à cadeia de suprimentos ³. Entre elas, a cadeia de alimentos e bebidas se destaca. Essencial para a experiência do hóspede, presente nos restaurantes, cafés da manhã, eventos e demais serviços gastronômicos dos hotéis.
O insetting surge, portanto, como uma oportunidade estratégica: ao atuar junto a fornecedores e territórios relacionados à sua operação, hotéis podem transformar sua cadeia de valor em uma aliada da transição climática.
O case Accor
Um dos exemplos mais conhecidos de aplicação dos princípios de insetting no setor hoteleiro é o programa Plant for the Planet, da Accor.¹,
Lançado em 2009, o programa começou com uma ação simples: incentivar hóspedes a optarem pela reutilização de toalhas durante sua estadia. A economia gerada pela redução das lavagens passou a financiar projetos ambientais voltados ao plantio de árvores e restauração de ecossistemas.1,4
Com o tempo, a iniciativa evoluiu para uma estratégia mais ampla, incorporando agroflorestas, agricultura regenerativa e apoio a comunidades locais, conectando diretamente a ação climática à cadeia de valor da empresa.
Os projetos apoiados pelo programa são desenvolvidos principalmente em áreas agrícolas, buscando integrar restauração ambiental e fortalecimento dos sistemas produtivos. Dessa forma, os benefícios gerados vão além da remoção de carbono, incluindo:
- recuperação da biodiversidade;
- melhoria da qualidade do solo;
- conservação da água;
- fortalecimento de comunidades locais e produtores;
- maior resiliência dos sistemas agrícolas;
- captura e armazenamento de carbono.
Desde sua criação, o programa já contribuiu para o plantio de mais de 7 milhões de árvores e impactou milhares de pessoas, mostrando como uma iniciativa operacional pode gerar valor ambiental e social em escala.4
O que vem pela frente
A transição para uma economia de baixo carbono exige que empresas avancem além da redução das emissões associadas às suas operações diretas, e atuem sobre toda a cadeia de valor.
Nesse cenário, o insetting surge como uma abordagem capaz de conectar mitigação climática, regeneração ambiental e desenvolvimento socioeconômico 5.
Para a hotelaria, representa uma oportunidade de transformar relações já existentes com fornecedores, comunidades e hóspedes em soluções concretas de ação climática.
O desafio para o setor será evoluir de iniciativas pontuais para estratégias estruturadas, mensuráveis e resilientes dos sistemas dos quais a própria atividade depende.
Referências Bibliográficas
¹INTERNATIONAL PLATAFORM FOR INSETTING. A practical guide to insetting: 10 lessons learnt and 5 opportunities to scale from a decade of corporate insetting practice. 2022. Disponível em: https://www.insettingplatform.com/wp-content/uploads/2022/03/IPI-Insetting-Guide.pdf. Acesso em 27 de julho de 2026.
²CLIMATE IMPACT PARTNERS. Carbon Offsetting: Through our collection of projects around the world, clients can offset their carbon footprint with the highest quality solutions. Disponível em: https://www.climateimpact.com/business-solutions/expert-advice/carbon-offsetting/. Acesso em 27 de julho de 2026.
³WORLD TRAVEL & TOURISM COUNCIL. A Net Zero Roadmap for Travel & Tourism. 2024. Disponível em: https://researchhub.wttc.org/product/net-zero-roadmap-for-travel-tourism-2nd-edition. Acesso em 27 de julho de 2026.
4INTERNATIONAL PLATAFORM FOR INSETTING. Accor: Plant For the Planet. Disponível em: https://www.insettingplatform.com/case-study/accor/. Acesso em 27 de julho de 2026.
5INTERNATIONAL PLATAFORM FOR INSETTING. What is Insetting? Disponível em: https://www.insettingplatform.com/insetting-explained/. Acesso em 27 de julho de 2026.
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Mestre e Doutora em Química Ambiental e Analítica, com foco em qualidade do ar, material particulado e química da atmosfera, possui publicações em revistas científicas internacionais e mais de 7 anos de experiência em modelagem ambiental, análise de dados ambientais e avaliação de impactos.
Em consultoria, atuou em projetos de gestão de emissões de gases de efeito estufa, avaliação de ciclo de vida, planos de transição climática, estratégias de mitigação e adaptação, definição de metas climáticas e desenvolvimento de jornadas corporativas para uma economia de baixo carbono. Possui experiência em projetos para grandes empresas de diversos setores econômicos, incluindo mineração, logística, indústria, energia, alimentos e varejo.
Possui também experiência no desenvolvimento de práticas alinhadas a frameworks e normas de reporte em sustentabilidade, incluindo IFRS S1 e IFRS S2. Atualmente, atua no setor de óleo e gás, apoiando a integração de critérios ASG em processos corporativos da cadeia de suprimentos e o engajamento de fornecedores em agendas de sustentabilidade e clima.
(*) Crédito da foto: arquivo pessoal do autor





