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Lucas Casiraghi Viesti: a hotelaria em Cuba

Passando sete meses morando e trabalhando em Cuba, atuando como diretor de entretenimento em uma renomada rede espanhola de resorts, tive a oportunidade de observar de perto as engrenagens que movem a hotelaria cubana, desde a administração dos hotéis até a influência do governo no setor. Essa vivência me permitiu compreender não apenas os desafios operacionais, mas também o impacto direto das políticas governamentais e do controle militar sobre o turismo na ilha.

O papel do governo e das Forças Armadas na hotelaria cubana

Cuba é um país onde o turismo não é apenas uma atividade econômica; é um setor estrategicamente controlado pelo governo e, em grande parte, administrado pelas Forças Armadas Revolucionárias (FAR). Diferente de outros destinos caribenhos onde redes internacionais de hotéis operam com autonomia, em Cuba, qualquer empreendimento turístico precisa se alinhar às diretrizes estatais e operar sob sua supervisão direta.

O controle das FAR sobre a hotelaria

Grande parte da infraestrutura hoteleira cubana está sob o domínio do Grupo de Administração Empresarial S.A. (GAESA), um conglomerado controlado pelas FAR. Isso significa que, mesmo quando redes internacionais como Meliá, Iberostar e Blue Diamond Hotels operam na ilha, elas o fazem em parceria com o Estado cubano, sem controle total sobre suas operações. Os hotéis, na prática, pertencem ao governo, que mantém autoridade sobre contratações, remunerações e até sobre os serviços prestados.

O funcionamento das parcerias com empresas estrangeiras

As cadeias hoteleiras estrangeiras atuam sob contratos de gestão, mas não possuem os hotéis em si. O governo cubano é responsável pela estrutura e pela equipe local, enquanto as marcas internacionais garantem o padrão de serviço e marketing global.

Isso gera desafios significativos, pois os gestores estrangeiros enfrentam limitações na tomada de decisões operacionais. A contratação de funcionários, por exemplo, não é feita diretamente pela empresa gestora, mas sim pelo governo, que paga salários extremamente baixos aos trabalhadores enquanto recebe valores muito superiores das redes hoteleiras.

A experiência do turista e as restrições internas

Para os turistas, a experiência pode parecer semelhante à de outros destinos do Caribe, mas há diferenças marcantes. O fornecimento de insumos é irregular, e a burocracia estatal impacta diretamente a qualidade dos serviços. Além disso, a internet nos hotéis é restrita e altamente controlada, o que limita a comunicação dos hóspedes com o exterior. A sensação de um ambiente rigidamente monitorado é perceptível para quem passa mais tempo na ilha.

Comparação com outros destinos turísticos

Enquanto destinos como República Dominicana, México e Jamaica possuem um setor hoteleiro dinâmico, competitivo e com forte presença do setor privado, Cuba permanece atrelada a um modelo centralizado. A falta de autonomia dos hotéis e a interferência governamental limitam o crescimento do setor e a inovação nos serviços, tornando a ilha dependente do apelo político e histórico para atrair visitantes.

Reflexões e sugestões de quem viveu a hotelaria cubana de perto

É impossível querer mudar um país inteiro que deixou muito bem enraizado um sistema de governo tão complexo, porém é inevitável refletir sobre como um país tão rico em pessoas e natureza poderia fazer diferente para acompanhar um mercado tão forte como o turismo. Não é simples observar profissionais tão dedicados sendo limitados por fatores que extrapolam suas competências — desde questões básicas como o acesso à água até temas estruturais como remuneração, transporte e motivação humana.

Com base nessa experiência, gostaria de compartilhar as minhas reflexões de possibilidades que se implementadas, poderiam transformar o cenário do turismo e da hotelaria em Cuba — sem fazer juízo político, apenas como quem acredita no potencial do povo cubano e no impacto que mudanças bem estruturadas poderiam causar:

  • Descentralização do poder
    O Estado cubano concentra todo o poder produtivo e financeiro, mas não tem capacidade de gerar riqueza de forma eficiente. O resultado é um mercado estagnado, empresas sem lucro e profissionais desmotivados. A descentralização e a abertura para a iniciativa privada seriam um primeiro passo essencial, permitindo que empresas tenham liberdade para crescer, contratar e contribuir com a economia do país.
  • Liberdade de expressão como ferramenta de desenvolvimento
    Em um ambiente onde as pessoas não podem falar abertamente, é difícil obter inovação, motivação e evolução. Quando falta liberdade para questionar, sugerir ou propor mudanças, o progresso fica estagnado. Uma maior liberdade de expressão poderia gerar um efeito positivo em cadeia, inclusive no ambiente de trabalho, impactando diretamente a qualidade do serviço turístico.
  • Menos controle, mais eficiência
    A política super reguladora dificulta a distribuição de insumos, especialmente em tempos de escassez de combustível. Muitas vezes, a água é desviada das casas para abastecer hotéis — criando um desequilíbrio que, mesmo em nome do turismo, gera insatisfação interna e coloca os trabalhadores em conflito com a população local. A flexibilização das diretrizes logísticas poderia otimizar essa distribuição de forma mais justa e eficiente.
  • Incentivo ao investimento estrangeiro com mais autonomia empresarial
    Cuba atrai olhares do mundo inteiro, mas afasta grandes investidores pela rigidez com que regula os negócios. Permitir que empresas estrangeiras tenham mais autonomia e participação nas decisões poderia elevar a qualidade dos serviços, trazer mais capital e ajudar a desenvolver o turismo com padrões internacionais.
  • Redução da burocracia e abertura para o empreendedorismo
    O turismo não se constrói apenas com grandes resorts. São os pequenos negócios — guias, restaurantes locais, artistas, artesãos — que tornam a experiência autêntica. Mas, em Cuba, abrir um pequeno negócio é quase impossível. A simplificação de processos e a redução de impostos para negócios locais impulsionaria não apenas o turismo, mas a economia como um todo.
  • Melhor infraestrutura de transporte e logística
    A escassez de combustível paralisa o país em diversos aspectos, inclusive na hotelaria. A modernização da malha de transportes, com incentivo a fontes alternativas de energia, traria mais autonomia ao sistema logístico e facilitaria a operação de hotéis, restaurantes e agências de turismo.
  • Valorização da mão de obra local no turismo
    Os trabalhadores cubanos da hotelaria são altamente capacitados, mas recebem salários extremamente baixos, pois o Estado fica com grande parte do valor pago pelas redes estrangeiras. Valorizar essa mão de obra com remuneração justa e premiações por desempenho não só motivaria os profissionais, mas elevaria a qualidade do atendimento prestado aos visitantes.
  • Diversificação do turismo além do modelo all-inclusive
    Cuba é muito mais do que resorts. O país tem uma riqueza cultural, histórica e natural imensa. Com mais liberdade empresarial, seria possível explorar experiências como o turismo rural, ecológico, gastronômico e artístico, gerando renda direta para a população e reduzindo a dependência do modelo tradicional estatal.

Essas são reflexões que brotam de quem viu de perto o impacto da centralização excessiva em um setor que, por natureza, precisa de movimento, criatividade e liberdade para florescer. O povo cubano tem talento, alegria e potencial. O que falta é o espaço para que isso tudo se manifeste.

Conclusão

Ao longo desses sete meses vivendo e atuando diretamente na hotelaria cubana, tive não apenas a oportunidade de conhecer os bastidores de um dos setores mais estratégicos do país, como também de sentir na pele os desafios e as potências ocultas dessa ilha tão singular. Cuba, com sua gente acolhedora, cultura vibrante e natureza exuberante, tem tudo para ser uma referência mundial em turismo, não apenas pelos seus atrativos naturais, mas pela experiência humana que é capaz de proporcionar.

No entanto, a realidade mostra que há um caminho a ser percorrido. Um turismo verdadeiramente sustentável e competitivo exige mais do que belas paisagens — demanda liberdade para inovar, autonomia para empreender e condições dignas para quem faz a roda girar diariamente. As reflexões aqui apresentadas não visam julgar um modelo político, mas sim lançar luz sobre possibilidades concretas de melhoria. Pequenas aberturas estratégicas, como incentivo ao empreendedorismo local, valorização dos profissionais e maior eficiência na logística e infraestrutura, poderiam desencadear transformações de grande impacto social e econômico.

Acredito que o futuro do turismo cubano depende, acima de tudo, de permitir que o talento do seu povo floresça sem amarras. Dar espaço para que ideias se transformem em projetos, e projetos em prosperidade. A ilha tem tudo para ser, além de um destino encantador, um exemplo de reinvenção e crescimento — basta permitir que essa mudança comece de dentro para fora.

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Lucas Casiraghi Viesti, 29 anos é formado em Educação Física pelo Centro Universitário de Barra Mansa (RJ), possui MBA em Liderança Estratégica pela Universidade Anhembi Morumbi e tem 14 anos de experiência no mercado de Entretenimento. Sua trajetória também conta com 11 anos de atuação na hotelaria sendo nove na internacional, tendo visitado 41 países. Atualmente ocupa o cargo de gerente de Entretenimento do GAV Porto Alto Resort em Muro Alto (PE).

Instagram: @clucasviesti

(*) Crédito da foto: Arquivo Pessoal

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