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Modos de Existir: a inteligência das plantas inspira o design

E se, em vez de apenas observar as formas da natureza, o design tentasse compreender como ela se sustenta, distribui esforços, convive com outras espécies e responde às transformações do ambiente?

Modos de Existir, coleção 2027 da Fahrer

Essa mudança de perspectiva está na origem de Modos de Existir, nova coleção da Fahrer apresentada em São Paulo. Criada por Sergio Fahrer, Jack Fahrer e Heloisa Samaia, a linha reúne 35 novas peças e parte da bioinspiração para investigar relações entre matéria, estrutura, ergonomia e espaço.

As estratégias da natureza: sustentar, conectar, adaptar, proteger e ocupar. Verbos que descrevem processos encontrados continuamente no mundo natural passam a orientar decisões de projeto.

É justamente aí que a coleção se torna particularmente interessante para quem pensa interiores e hospitalidade. Em hotéis, restaurantes e espaços coletivos, ambientes precisam responder a diferentes pessoas, horários, funções e formas de convivência. A capacidade de reorganização passa a participar da própria experiência.

Das plantas para o mobiliário

Botânico italiano Stefano Mancuso

Uma das principais referências conceituais da coleção é o livro A Revolução das Plantas, do botânico italiano Stefano Mancuso, professor da Universidade de Florença e um dos pesquisadores ligados ao campo da neurobiologia vegetal. Seus estudos investigam comunicação, comportamento e mecanismos de adaptação das plantas.

A provocação de Mancuso começa pela própria maneira como entendemos inteligência. Enquanto os animais desenvolveram sistemas com órgãos especializados e, em muitos casos, um sistema nervoso central, as plantas adotaram ao longo da evolução uma organização muito mais distribuída.

Não existe um único centro responsável por controlar todo o sistema. Raízes exploram o solo. Folhas respondem à luz. Diferentes partes percebem alterações ambientais e participam simultaneamente da sobrevivência do organismo.

Para Mancuso, essa arquitetura descentralizada ajuda a explicar uma das características mais fascinantes das plantas: sua capacidade de adaptação. Seus trabalhos discutem justamente sistemas de sinalização e comportamentos vegetais capazes de responder a estímulos e mudanças ambientais.

Na Fahrer, essa leitura passa a orientar decisões concretas de design. Em vez de simplesmente desenhar uma mesa que lembre uma árvore, por exemplo, a pergunta passa a ser outra: o que podemos aprender observando a maneira como uma árvore organiza sua estrutura?

A natureza como sistema, não como ornamento

Mesa de Jantar Iceberg com reciclagem de garrafas

A Mesa de Jantar Iceberg aparece nessa investigação como exemplo da experimentação da coleção com materiais e processos, neste caso a partir do reaproveitamento de garrafas, ampliando a discussão para além da forma e incorporando também escolhas relacionadas à matéria e ao modo de produzir.

Em outras peças, a bioinspiração se manifesta diretamente na lógica estrutural. Em uma das mesas, por exemplo, a disposição dos apoios parte da observação da relação entre troncos e copas das árvores. Os elementos mantêm determinadas distâncias e, ao mesmo tempo, trabalham juntos para formar uma única estrutura.

Em outra peça, a referência vem do mangue. As raízes dos manguezais se cruzam, distribuem esforços e formam uma estrutura capaz de sustentar organismos em terrenos permanentemente instáveis.

A solução encontrada pela Fahrer traduz esse comportamento em uma estrutura tubular composta por diversos elementos. A lógica da peça está justamente na distribuição do esforço entre diferentes elementos, em vez de concentrá-lo em um único apoio.

A mesa não pretende parecer um mangue. Ela procura aprender como o mangue resolve um problema estrutural. Essa é uma das melhores sínteses do conceito de bioinspiração presente na coleção.

Forma como consequência

Mesa de Jantar Pilar com mármore e madeira

A lógica também ajuda a compreender um princípio recorrente no trabalho apresentado pela Fahrer: a forma não precisa necessariamente ser o primeiro gesto do designer. Ela pode surgir como consequência.

Materiais, processos produtivos, ergonomia, função e comportamento estrutural começam a participar simultaneamente do desenvolvimento da peça.

“Para nós, a forma não é um ponto de partida, mas o resultado de um processo de observação, investigação e experimentação”, explica Sergio Fahrer no material de apresentação da coleção.

Madeira maciça, lâminas naturais, mármore, vidro, espelho, tecidos e couro aparecem, portanto, não apenas como acabamentos. Peso, densidade, transparência, reflexo, textura e flexibilidade tornam-se variáveis de projeto.

É uma abordagem especialmente relevante em um momento no qual o design começa a ampliar sua atenção da aparência dos objetos para o comportamento dos sistemas que os produzem e das pessoas que os utilizam.

Móveis que aceitam diferentes configurações

Família Lagoas reúne mesas de centro de diferentes dimensões

A família Lagoas, por exemplo, reúne mesas de centro de diferentes dimensões e alturas e um puff. Cada elemento possui autonomia, mas curvas e reentrâncias permitem aproximar, encaixar e reorganizar as peças, criando diferentes paisagens dentro do ambiente.

É quase uma pequena demonstração de coexistência aplicada ao mobiliário. Nenhuma peça precisa desaparecer para que outra funcione. Cada uma mantém sua identidade e, ao se relacionar com as demais, cria novas configurações.

O mesmo princípio aparece de outra maneira no Sofá Órbita. Módulos retos e curvos e diferentes possibilidades de assentos, braços e encostos permitem construir composições lineares, angulares ou envolventes de acordo com a escala e a necessidade do ambiente.

Na hospitalidade, essa flexibilidade ganha outra dimensão. Um lobby pode receber hóspedes pela manhã, funcionar como espaço de trabalho ao longo do dia, promover encontros no final da tarde e assumir uma configuração mais social à noite. Restaurantes, lounges, áreas de espera e espaços compartilhados passam pelo mesmo processo.

Nesse contexto, mobiliário adaptável não significa apenas mover peças de lugar. Significa permitir que o espaço responda melhor às diferentes jornadas que acontecem dentro dele.

Ergonomia também nasce da experimentação

Sofá Oásis com espuma de alta resiliência entre as camadas

A pesquisa da coleção não se limita à estrutura. Nos estofados, diferentes densidades e combinações de espuma foram utilizadas para trabalhar a experiência do corpo.

Durante a apresentação, foi demonstrada uma construção entre camadas de espumas com características diferentes. O objetivo é produzir uma sensação dupla: primeiro o assento recebe o corpo e depois oferece resistência suficiente para sustentá-lo. Parece um detalhe técnico, mas traduz uma questão fundamental para a hospitalidade. Conforto não é apenas maciez.

Um sofá pode ser visualmente atraente e extremamente macio nos primeiros segundos, mas exigir esforço para que uma pessoa se levante. Outro pode oferecer sustentação demais e pouca sensação de acolhimento. Entre esses extremos existe uma equação envolvendo ergonomia, permanência, percepção e uso.

É justamente nesse território menos visível que muitas das experiências mais importantes de um ambiente são construídas.

Diferentes maneiras de estruturar o objeto

Mesa de Jantar Cratera com abertura que atravessa a base 

As 35 peças de Modos de Existir seguem diferentes respostas formais.

Na Mesa de Jantar Cratera, por exemplo, o vazio participa da estrutura. Uma abertura atravessa a base e transforma a retirada de matéria em parte do desenho, enquanto um tampo de grande proporção cria tensão entre peso e leveza.

Na Mesa Pilar, o raciocínio parte do ato de sustentar. Os pés assumem caráter quase arquitetônico e uma junção recuada produz um intervalo de sombra entre estrutura e tampo, criando visualmente a impressão de uma superfície pousada sobre os apoios.

Já na Mesa Lateral Eclipse, sobreposição e encobrimento tornam-se princípios construtivos. Vidro, espelho ou mármore modificam a relação entre transparência, reflexo e densidade conforme a combinação escolhida.

São soluções diferentes para uma mesma investigação: de quantas maneiras um objeto pode existir dentro do espaço?

Bioinspiração além da biofilia

Mesa Lateral Eclipse

Durante anos, a aproximação entre natureza e interiores foi frequentemente associada à presença de vegetação, materiais naturais, vistas para áreas verdes e princípios relacionados à biofilia.

Todos continuam relevantes. Mas a bioinspiração abre outra camada.  A natureza passa a ser também algo com o qual podemos aprender a projetar.

Podemos observar como sistemas naturais distribuem esforços. Como diferentes elementos coexistem sem necessariamente serem iguais. Como organismos se adaptam. Como estruturas trabalham em rede. Como sistemas conseguem mudar sem perder sua identidade.

Mancuso utiliza as plantas em seus livros e pesquisas para questionar nossa preferência por modelos centralizados de organização. A Fahrer transporta parte dessa provocação para a escala do mobiliário. E isso aproxima a coleção de uma discussão maior sobre o futuro dos espaços.

O que as plantas podem ensinar à hospitalidade?

Aparador Credenza Relevo

Hotéis recebem pessoas diferentes diariamente. Mudam comportamentos, gerações, formas de trabalhar, viajar, comer, descansar e socializar. Um espaço rígido pode rapidamente deixar de responder a essas transformações.

Os sistemas naturais, em muitos casos, operam justamente pela adaptação contínua ao contexto.

Para o design de hospitalidade, a questão é mais sobre desenvolver estruturas capazes de acolher diferentes modos de existir.

É uma mudança sutil, mas importante. Quando observamos a natureza apenas pela aparência, encontramos formas. Quando começamos a observar como ela funciona, encontramos estratégias. E talvez esteja justamente nessas estratégias uma das fontes mais férteis para imaginar os espaços que ainda vamos habitar.

 

(*) Crédito das fotos:
Produtos – Gui Gomes;
Capa – Camila Contato;
Stefano Mancuso – Divulgação.