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Nérleo Souza, da ABIH Nacional: “Não considero ético nem saudável insistir em permanecer no cargo”

Por Peter Kutuchian 3 de novembro de 2015


Nérleo Caus deve deixar a presidência da ABIH Nacional neste ano
(fotos: divulgação)

As eleições da ABIH Nacional (Associação Brasileira da Indústria de Hotéis) se aproximam e vão definir quem irá comandar a entidade, que em 2016 completa 80 anos de atividades. Uma única chapa foi criada, e que tem à frente o baiano Dilson Jatahy da Fonseca, amparado pelo paulista Bruno Omori, que deixou de concorrer em prol do colega, proprietário dos Hotéis Catussaba, em Salvador.

Em agosto, o ex-presidente da entidade nacional, Enrico Fermi deixou o posto por motivos pessoais, retornando para suas atividades hoteleiras em seu Estado natal, o Rio Grande do Norte. Em seu lugar, assumiu, interinamente, o capixaba Nérleo Caus de Souza.

Recentemente, o mercado cogitou que Nérleo devesse permanecer no cargo, ou seja concorrer às eleições, mas ele disse que não lançaria a sua candidatura. O Hôtelier News foi ouvir o hoteleiro, que também é empresário na área de incorporações e na revenda de derivados do petróleo, para saber a razão pela qual não quer disputar a vaga e, também, como foi a sua experiência à frente a ABIH Nacional.

Formado em Economia pela UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) e em Direito pela UVV (Universidade de Vila Velha), Souza realizou também diversos  cursos em algumas áreas de Desenvolvimento Humano e Ciências, e Juiz Classista Representante Patronal na 17ª Região, convocado inúmeras vezes para responder em Segundo Grau. 

Nérleo já foi diretor da ADEMI-ES (Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobili[ário do Espírito Santo, conselheiro do Contur de Vila Velha, e é o atual diretor Financeiro/Comunicação do Sindipostos-ES (Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Espírito Santo), entidade onde também foi diretor Social. Já, na ABIH-ES, Souza foi diretor adjunto e presidente, e na ABIH Nacional foi diretor Jurídico, diretor Administrativo, vice-presidente, e o atual presidente.

Além disso, Nérleo possui inúmeros artigos publicados sobre o tema do turismo e da hotelaria, além de ter sido palestrante em vários eventos.

Hôtelier News: Quais são os objetivos da ABIH ?
Nérleo Caus: 
A ABIH Nacional tem como principais objetivos congregar e fomentar os interesses da hotelaria junto aos órgãos públicos e as entidades privadas, apoiar o turismo sustentavel, interagir com os coparticipantes de toda a cadeia desenvolvedora do turismo e atuar no campo técnico, disponibilizando capilaridade funcional, subsídios e treinamentos que visem a qualificação do destino Brasil em seu conjunto.

HN: Como avalia a a atuação da ABIH neste século?
Caus: Fazendo uma viagem no tempo, a hotelaria amarga dificuldades desde a chegada de Pedro Álvares Cabral, no anoitecer de 22 de abril de 1500, quando a cultura luso trouxe em sua bagagem a cultura de "quarto de hóspedes" nas arquiteturas residenciais. Aliado a isso, recebemos as "Companhias de Jesus"', braço de poder que instalava "quartos gratuitos" aos passantes e viajantes em seus templos e igrejas.

Nos anos de 1960 e 1970, houve o predomínio de famílias gerindo as hospedagens no modelo romântico e espartano. Nas décadas de 1980 e 1990, chegaram as multinacionais da hospedagem com os conceitos de tecnicidades, processos, marcas e bandeiras na esteira do boom apart-hoteleiro. Essas empresas instalaram-se neste período do século passado e avançam progressivamente até os dias de hoje.

Diante desse cenário, afirmo que a ABIH, ao longo de seus 79 anos, sempre se colocou adiante de seu tempo em sua ações e formulações, que redundaram em longevidade e reconhecimentos públicos. Vale ressaltar que se trata de uma legião de notáveis atores altruístas, cuja bandeira foi sempre pautada em promover o desenvolvimento do segmento turistico-hoteleiro.

Ressalta-se que, mesmo não dispondo da compulsoriedade financeira dos sindicatos e federações, com a alternância obrigatória regimental das nossas diretorias, ver uma associação voluntária chegar aos 79 anos merece aplausos e reflexão. É um exemplo nacional a ser seguido, em especial num país no qual privilegia-se o corporativismo sindical em detrimento do associativismo cooperativo e voluntário.

HN: Como a ABIH leva ao Governo a necessidade de mudança das questões como as leis trabalhistas que impossibilitam a contratação de funcionários turnantes e a isenção de impostos federais, estaduais e de insumos?
Caus: 
A nossa CLT, consolidada na era Vargas, visava atender o clamor laboral em face ao crescimento industrial e comercial, com regras mínimas protetivas ao obreiro. Entretanto, a organização sindical laboral avançou e se perdeu, ao longo dos anos, a capacidade de estabelecer o que movimenta o sistema em torno do mundo que é a "produtividade". O vínculo empregatício tornou-se caro e ineficiente nas empresas, solapando o turismo hoteleiro de maneira frontal, vez que se trata do único setor cuja prosperidade depende exclusivamente do gênero humano.

Creio que devido à nossa importância econômica e social, deveríamos ter uma desoneração fiscal e tributária em toda cadeia do setor de forma pensada, criando assim reais possibilidades de preços mais compatíveis e gerando a pretendida inserção de mais de 100 milhões de brasileiros que não fazem turismo.

Vejo claramente que nosso grande bônus e diferencial no mundo é o nosso enorme e potencial mercado interno.


Em seu pleito, Nérleo entregou ao Senado um pedido de regularização das chamadas locações de curta duração

HN: Como são tratadas as questões em nível nacional e estadual entre as ABIH's?
Caus: São conduzidas de acordo com as demandas, que nem sempre estão na mesma cronologia entre os Estados. As questões nacionais, por serem muitas, colocamos e elegemos na executiva as prioridades a serem tratadas.

Observamos que em algumas regiões no Brasil sobressaem-se no plano de concientização associativista/sindical.

HN: Qual foi o crescimento no número de associados nos últimos cinco anos? E qual é o número total dos associados?
Caus: A atual gestão da qual faço parte desde o início e que hoje estou presidente focou na ampliação e na interiorização da ABIH. Visamos criar o maior número possível de associados aos nossos quadros. Em 2010, tínhamos pouco mais de 1.200 filiados e hoje contamos com mais de quatro mil. Em minha curta gestão de quatro meses à frente da entidade, estabeleci foco em poucos e grandes temas de alto impacto na hotelaria nacional, como: AirBnb, condo-hotéis e Ecad. Lembrando que o primeiro já ofereci uma minuta de Projeto de Lei em caráter inédito no Senado. Para os demais, também estamos em finalização de algo também concreto.

HN:  Por quais motivos não deseja concorrer como presidente para o próximo biênio ?
Caus: Não! Iniciei como diretor adjunto na ABIH-ES, fui presidente ABIH-ES e a seguir, diretor Administrativo e Jurídico da ABIH Nacional, vice-presidente, e agora presidente da ABIH Nacional. Tudo isso no período de cinco anos.

Creio ter dado e estar dando a minha melhor contribuição para o setor e acredito já ter ascendido a tudo na hierarquia funcional. Não considero ético nem saudável insistir em permanecer. Aliás, recomendo cautela com aqueles que muito se aferram aos cargos e insanamente buscam perenidade. Estes obscurecem a democracia, emperram os processos renovatórios e apagam as esperanças de colegas no sistema associativista/sindical.

Ao ascender e renunciar a qualquer cargo ou função, deixo o futuro presidente Dilson Jatahy Fonseca em uma posição confortável para sua composição executiva e disponho apoiar para uma profícua gestão 2016/2018.

Pretendo tratar de alguns projetos pessoais que me envolvam aqui no meu querido Estado do Espírito Santo, ao qual quero me dedicar nos próximos tempos.

HN: Como você avalia a grande quantidade de entidades representativas da hotelaria no País?
Caus: Enxergo de uma forma muito saudável. O movimento plural gera expectativas em toda a cadeia e, de certa forma, cria sinergias e atrai para o sistema o brasileiro, pouco ambientado ao cooperativismo por questões culturais e sociológicas, que aqui nao dissertaremos pela extensão e profundidade.

HN: Concorda que deveria haver apenas uma entidade que englobasse todas os segmentos?
Caus: Não necessariamente. Poderíamos incorrer no equívoco da reserva de representação, o que e péssimo. Precisamos, sim, deixar nossas capas de vaidades em nossos guarda roupas e, sem pensar em assumir cargos ou funções, acertarmos uma agenda única para a hotelaria, de forma clara e com conteúdos, valendo-nos de nossa criatividade empresarial, sem preocupações com o vinho ou com o jantar da ocasião.

HN: Concorda que com um único representante seria mais fácil criar um diálogo para pressionar o governo?

Caus: 'Não adianta ser importante economicamente, chorar e não saber fazer lobby' foram as palavras do ex-ministro Delfim Netto, por ocasião de debate comigo durante o Conotel 2013. A questão passa pelo conteúdo e não pela forma de ser conduzido o processo. Repito: sentar e deixar vaidades, definir objeto e planejamento, como chegar no objeto. Aí sim, quem envergar mais competência pra conduzir irá conduzir. É um processo simples.

HN: Há alguma forma da ABIH consolidar índices econômicos oriundos de seus associados?
Caus: Alguns poucos Estados aderiram à Cesta Competitiva e os números sao bem diferentes no País inteiro. Assim sendo, não é tarefa fácil obter esses números, mas na medida de nossas necessidades estamos coletando. Aliás, dados e números de nosso setor turistico no Brasil são uma raridade e quando temos são obsoletos, valendo citar o MTur.

HN: Como você prevê a atuação da hotelaria nos próximos anos?
Caus: Alicercada 92% na hotelaria independente, o setor enfrentará profundas transformações, em especial com a evolução das plataformas digitais que ainda não atingiram limites (AirBnb, Booking.com etc). As ameaças externas e institucionais, como Condo-hotés, Ecad, legislação trabalhista, legislação tributária, financiamentos saudáveis e compatíveis com o setor etc.

Será colocada à prova a capacidade do hoteleiro brasileiro em sua criatividade. A sua sobrevivência vitoriosa será no modelo clássico darwiniano, ou seja, não sobrevive o mais forte, nem o maior, mas aquele com a maior capacidade de se adaptar aos novos tempos. Ou seja, estamos inaugurando tempos de economia compartilhada e consumo colaborativo. Em determinados segmentos econômicos, surge o cooperativismo de essência no lugar do corporativismo clássico.

O brasileiro é um grande anfitrião por natureza, aliado à sua obstinada decisão hoteleira, pode ter a máxima certeza que teremos uma sólida evolução qualitativa nos próximos anos, à despeito da sepssemia moral que vivenciamos politicamente, com consequências no campo econômico e algumas ranhuras no edíficio democrático brasileiro.

Serviço
abih.com.br