Acordo Mercosul-UE pode potencializar turismo corporativo no Brasil

acordo mercosul ueAnúncio foi realizado durante reunião do G20 no Japão, em junho

O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia ainda deve demandar anos de negociações políticas durante o processo de aprovação. Ainda assim, não é cedo para especular que tipo de benefícios o acordo, anunciado no fim de junho, pode trazer ao turismo brasileiro. Segundo especialistas, as viagens corporativas tendem a crescer na esteira do provável aumento dos negócios entre a Europa e os países do bloco sul-americano.

Após 20 anos de negociações, os dois blocos econômicos parecem na direção certa para fechar um acordo comercial mútuo. Segundo comunicado do governo brasileiro, o aumento dos investimentos previstos para o Brasil em 15 anos é de US$ 113 bilhões. E as exportações para a UE podem crescer quase US$ 100 bilhões até 2035. Em declaração, Lucas Ferraz, secretário de Comércio Exterior do Ministério da Economia, disse que sua expectativa é de que a parte comercial do acordo seja aprovada até o fim de 2020. 

Principal economia do bloco sul-americano, o Brasil detém boa parte do comércio entre o Mercosul e a União Europeia. No ano passado, esse fluxo gerou US$ 76 bilhões em negócios, com superávit de US$ 7 bilhões, dos quais US$ 42 bilhões de vendas externas nacionais para o Velho Continente. Pelo que prevê o acordo, tarifas aduaneiras de 92% dos bens exportados pelo Mercosul para a UE e de 91% na mão inversa serão removidas gradualmente. Já as tarifas de importação e exportação deverão ser zeradas no prazo máximo de dez anos. De acordo com manifestações iniciais do governo brasileiro em relação às cláusulas do acordo, o agronegócio terá suas tarifas eliminadas. Já as exportadoras do setor de alimentos (processados e congelados) terão direito a acesso preferencial ao mercado consumidor europeu.

Para Mariana Aldrigui, presidente do Conselho de Turismo da FecomercioSP, apesar do documento não tratar do setor de turismo especificamente, é seguro esperar um impacto positivo. “Com a abertura do mercado europeu para produtos sul-americanos e vice-versa, há uma consequente potencialização do turismo de negócios. E, com o bleisure em alta, isso pode muito bem ser usado como vitrine para o turismo de lazer”, afirma.

“Viagens corporativas representam 70% das viagens no Brasil. Esse mercado é totalmente influenciado pela economia e acredita-se que, quanto mais viagens são feitas, mais negócios são gerados. O acordo também pode abrir espaço para beneficiar o pequeno e médio empreendedor, o que é importante ao turismo”, acrescenta Eduardo Murad, diretor executivo da Alagev (Associação Latino Americana de Gestores de Viagens e Eventos Corporativas).

Já Marcos Guedes, professor de Relações Internacionais na UFPE (Universidade Federal do Pernambuco), acredita que o benefício para o turismo virá ao longo prazo. E dependerá, principalmente, de como o texto do acordo será montado. “Há muito tempo o Mercosul tem o interesse de abrir mais o comércio com a UE. Mas saber se isso será algo bom ou ruim para o Brasil depende do texto final do acordo, que ainda não foi divulgado nem firmado. Se faz necessário prestar atenção aos detalhes para não gerar problemas no longo prazo”, alerta.

Acordo Mercosul-UE: Ministério do Turismo

Embora os entendimentos estejam ainda longe de um acerto definitivo, o turismo deve se preparar desde já para aproveitar ao máximo a abertura comercial resultado do acordo. Na avaliação de Mariana, o MTur (Ministério do Turismo) teria grandes possibilidades a explorar, mas aposta mais na iniciativa privada para fomentar o Brasil no exterior.

“No nosso momento atual, espero que empresas privadas tomem a frente e se organizem para trabalhar de uma maneira direcionada ao público europeu neste primeiro momento, para que não dependamos de medidas institucionais confusas e mal feitas. O lançamento da nova marca Brasil por parte da Embratur, por exemplo, representa um retrocesso da gestão pública do turismo brasileiro, escrita em inglês e com a expressão errada”, afirma.

Procurado, o MTur afirmou, em nota, que a expectativa da pasta é que o novo pacto de cooperação econômica contribua para promover a captação de mais investimentos para o setor de turismo no país. Em consequência, é esperado também o aumento do número de turistas europeus em destinos nacionais.

Dados do Anuário Estatístico apontam que, em 2018, o número de turistas europeus que visitaram o Brasil atingiu a marca de mais de 1,46 milhão. O volume é maior do que o registrado no ano anterior, quando mais de 1,45 milhão vieram conhecer destinos do país. O continente também representou, no ano passado, o segundo com maior porcentagem do receptivo internacional do Brasil (22,1%), atrás somente da América do Sul (61,2%) e na frente da América do Norte (10,4%).

(*) Crédito da capa: Isac Nóbrega/PR

(*) Crédito da foto: Alan Santos/PR

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