Ana Rita Cohen: O Tao na Gastronomia; uma reflexão


Ana Rita Cohen

A palavra chinesa Tao (pronuncia-se Dao), tem sido usada como título de inúmeros livros para os mais variados assuntos: o Tao da Física, Tao da Saúde, Tao do Sexo, Tao da Arte, Tao do Wall Street, Tao da Política; e, por que não o Tao da Gastronomia? O ideograma chinês, que define a palavra “Tao”, é composto de dois símbolos que significam: “caminhar” e “cabeça/mente”; significa basicamente ser guiado - pela mente superior, enquanto mantendo os pés firmes no chão. Resumindo: “conhecer o caminho equilibrado, do meio, alinhado à Fonte”.

Pode parecer audacioso querer desenhar um paralelo entre experiências místicas e as gastronômicas, em razão da natureza aparentemente diversa entre as duas ciências, porém, de uma forma sutil, compartilham alguns princípios de hospitalidade no sentido ancestral, e até mesmo sagrado. O gastrônomo, efetua experimentos envolvendo um complexo trabalho artesanal e mental, individual e de equipe, estudo e tecnologia sofisticada. Seus sentidos, quando alinhados, o inspira conforme a ritmo da cozinha. O místico, obtém seu conhecimento por meio de estudos e sua profunda conexão com o Eu; da introspecção e intuição – um trabalho essencialmente individual, e que não exige a intervenção de qualquer equipamento.              

Os experimentos gastronômicos são passíveis à repetição e ao ritmo durante o processo de produção na cozinha; e seus resultados dependem de suas relações interpessoais. Importante observar que, a dimensão dessas relações (internas e externas), abarca um imenso grau de bom senso, responsabilidade, consciência, discernimento, ética. Paralelamente, a experiência mística ocorre a partir do discernimento e percepção espiritual; aos que vislumbram, em frações de segundos, um “momento de iluminação” ou, através do insight. A complexidade, eficiência e alinhamento ocorre em ambos os caminhos, ambos os pontos de vista, porém, o que diferencia (ou mesmo se assemelha) uma da outra é o estado de consciência, a partir da origem da informação, e em todos os níveis de conhecimento. 

A gastronomia, como ciência, estabeleceu uma referência e, ao mesmo tempo, se tornou palco às diversas ações socioculturais, socioeconômicas e políticas; uma fonte de informações globalizada, muito rica e complexa, e que segue tendências geradas pela indústria do alimento e seguidas pela mídia.  

Da fisiologia do gosto, numa abordagem ocidental sobre gastronomia, Brillat-Savarin observa: “Gastronomia é conhecimento de tudo aquilo que se refere ao homem enquanto come. É ela que move cultivadores, vinhateiros, pescadores e a numerosa família dos chefs, qualquer que seja o título ou a qualificação sob a qual mascaram sua ocupação no preparo dos alimentos. A gastronomia pertence à história natural, pela classificação que faz das substâncias alimentícias; `a física, pelas diversas análises e decomposições a que as submete; à cozinha, pela arte de preparar os alimentos torna-los agradáveis ao paladar; ao comércio, pela procura do meio de comprar ao melhor preço possível aquilo que se consome e de vender com o maior lucro possível aquilo que é posto à venda; à economia politica, pelos recursos que oferece ao fisco e pelos métodos de intercâmbio que estabelece entre as nações.” (Fisiologia del Gusto,1925, de Brillat- Savarin).   

Da filosofia e essência humana, uma abordagem oriental sobre os Três Tesouros: “O corpo (Essência) é o templo da Vida. Energia (Chi) é a fonte da Vida, e a Alma/Espírito (Shen), governa a Vida. Se um deles perde o equilíbrio, todos os três tesouros acabam se danificando. Quando o Espírito toma o comando, o Corpo naturalmente segue, e assim todos os três tesouros se beneficiam, equilibrando um ao outro. Quando o Corpo lidera o caminho, o Espírito acompanha, porém desta forma, todos os três tesouros se prejudicam. A Essência da vida, refere-se às mais refinadas substâncias dos quais constituem o corpo humano; o material básico da vida corporal. Traduzido por “vitalidade”, essência é a forma de potencial de energia; como se fosse o fluído de uma bateria, do qual o corpo usa de acordo com a necessidade. Quanto mais puro o alimento, maior a emanação de energia. Quando a alma lidera o caminho, o coração e mente se alinham; reconhecem que o alicerce que sustenta a vida humana está basicamente enraizado no alimento puro, íntegro”- (Wen-tzu Classic, primeiro século AC).

Uma reflexão

Numa era, onde os problemas de saúde se manifestam com intensidade e rapidez, seja através das doenças crônicas e degenerativas, como as doenças cardiovasculares, diabetes, câncer, cada momento do crescimento da população planetária conta. Percebemos que, ao longo dos últimos tempos – durante o desenvolvimento do último centenário – algo importante fora deixado para trás. Perdemos a capacidade de discernimento, sobre quem somos enquanto essência e energia vital; como células que compõem o todo. No entanto, imaginem se pudéssemos recuperá-la, trazendo-a para o tempo do agora, vislumbrando o alinhamento dos três tesouros, como observados pela filosofia Chinesa? Seria considerado um evento de nova era? Uma nova descoberta? Quem sabe um manifesto de resiliência, um exercício de resgate à nossa forma original! Utopia? 

Nutrir-se da boa comida é ato espiritual, ancestral. É também “um ato agrícola”, como nos lembra Wendell Berry: “nossas escolhas não nos limitam a consumidores passivos dos alimentos, pois somos co-criadores e responsáveis pelos sistemas que nos alimentam”. E, continua Michael Pollan: “Uma lição que se pode tirar da incrível diversidade das dietas tradicionais que alimentam os povos mundo a fora, é que as pessoas podem se nutrir com uma variedade espantosa de alimentos, desde que se lembrem de consumir comida de verdade, honrando sua origem, o solo”

Acredito no poder dos alimentos e no poder de suas propriedades vitais. Reverencio o poder da compaixão como ferramenta capaz de transformar atitudes, as nossas escolhas. Aspiro testemunhar tendências como estas, que suprirão o grande vazio causado pela ganância e ignorância do homem, em relação ao seu verdadeiro sentido de bem-estar. O homem, que ainda nega seus princípios morais e espirituais; talvez receba mais uma chance de alinhá-los ao seu estilo de vida, possibilitando unir os pontinhos do grande quebra-cabeça. Da saúde da alma e da mente, ao corpo individual e coletivo, em respeito ao grande Universo. O Tao, nada mais é do que um presente divino para todos.

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Ana Rita Cohen é especialista em gastronomia e educação corporativa, da gestão à humanização do relacionamento com clientes interno e externo, bem como a reestruturação e desenvolvimento de equipes, estruturação de linhas de produção, minimização do desperdício, sustentabilidade (Reduzir, Reutilizar e Reciclar), formação de parcerias, seleção de fornecedores qualificados, elaboração de cardápios, além de gestão de compras e estocagem, padronização, comunicação interpessoal e interdepartamental, elevação de receitas e redução de custos, auditoria e aperfeiçoamento de padrões de qualidade. Atende às demandas de forma pragmática, buscando a harmonização do ambiente. Com iniciativa própria e assertividade, a profissional conta com cautela e comunicação adequada para gerenciar crises e engajar pessoas nos projetos da empresa, boa ouvinte e receptiva às suas ideias e ações, pautando-se por um comportamento diplomático, sereno e amável. Bacharel em Arte e Educação, Mestra de Reiki; Fitoterapia/Dietética Chinesa (MTC), cursos de aperfeiçoamento (nacional e internacional) em Nutrição, Economia Sustentável, Saúde Pública Coletiva, Culinária Saudável e Medicinal. Gestão em gastronomia 
Idealizadora da certificação Cozinha Saudável-Responsável.

Contato
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* Crédito das fotos: divulgação/arquivo pessoal

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