Annie Morrissey: Não podemos deixar de ter um plano de ações

Annie Morrissey está na presidência do São
Paulo Convention & Visitors Bureau desde 2009
(fotos: Juliana Bellegard)
São Paulo é a maior cidade brasileira em termos de população e também quando se fala em eventos. São 90 mil por ano, segundo o SPCVB (São Paulo Convention & Visitors Bureau). Em 2010, a capital paulista recebeu 11,7 milhões de visitantes, sendo 1,6 milhão de estrangeiros. Cerca de R$ 9,6 bilhões são movimentados anualmente com o setor de turismo paulistano.
Somente os eventos geram uma receita de R$ 2,9 bilhões, fazendo circular 4 milhões de pessoas. A entidade, com seu principal foco de trabalho exatamente nesta captação, está no centro de todo o trâmite.
À frente de tudo isso nos últimos quatro anos, Annie Morrissey. Nascida na Inglaterra, adotou o Brasil e, especialmente, São Paulo, como sua casa. Formada em Letras, veio ao País a serviço da Utell International. Estabeleceu-se no centro da cidade - o escritório e sua residência ficavam ali. "Toda a minha vida, no começo do meu trabalho aqui, foi no centro. Sei que é uma região com milhões de problemas, mas tenho um carinho especial por lá. Eu acho que realmente é uma coisa que precisa investir, faz parte do turismo de São Paulo", divaga ela.
Sua segunda - e atual - temporada brasileira começou em 2001, quando decidiu voltar para o País e aceitar a proposta de emprego da Atlantica. Na época, a rede possuía somente oito hotéis.
A atuação no convention começou em 2006, quando aceitou ser vice-presidente do Conselho da entidade. Este também foi o primeiro passo para que ela fizesse parte, em 2008, de uma das chapas que concorreu à presidência do SPCVB.
"Foi a primeira eleição com duas chapas. Estava concorrendo com o Roosevelt Hamam, que atua no segmento de eventos. Eu sou hoteleira e o peso desta área é muito grande - são 152 hotéis associados, o room tax contribui para financiar o convention. A decisão foi de que precisávamos ter uma chapa com uma pessoa da hotelaria", explica. De lá para cá, foram quatro anos de gestão - a segunda eleição de Annie foi em 2011, por aclamação.
 
Annie ao lado de Toni Sando, diretor superintendente do SPCVB
(foto: arquivo HN)
 
Nesta entrevista exclusiva para o Hôtelier News, ela faz um balanço de suas ações à frente do SPCVB, retoma alguns pontos importantes e fala sobre os planos para este último ano na presidência.
Por Juliana Bellegard
O sistema de escolha dos gestores do convention já prevê a continuidade, exigindo que o presidente eleito tenha, antes, passado pela vice-presidência da entidade. Assim, garante-se que, diferentemente da política, a mudança de gestão não implique no corte de ações da administração anterior. Tendo isso em vista, Annie foi eleita. "O Orlando [de Souza] também foi uma gestão de quatro anos [nos biênios 2007-08 e 2009-10]. Ele realmente colocou tudo em ordem, fez o planejamento junto com o Toni [Sando, diretor superintendente do SPCVB], organizou as operações e as diferentes áreas", conta ela.
O constante trabalho em prol do crescimento dos eventos realizados em São Paulo é o principal mote da atuação da entidade - e não foi diferente na gestão de Annie. Durante o primeiro bimestre de 2012, a entidade já havia registrado um crescimento de 23 no número de eventos cadastrados no seu site, somando 769 entradas. Em 2011, somou-se 1.976 eventos. Em paralelo, outro trabalho importante de captação: a Icca (Associação internacional de congressos e convenções).
A cidade de São Paulo figura, hoje, no Top 20 dos destinos que mais recebem eventos que se enquadram nas exigências da associação. Para a presidente do convention, a busca pelo incremento neste setor é de suma importância.
"Em número de eventos, São Paulo cresce todos os anos. Mas não chegamos nos dez primeiros ainda porque há outras cidades fazendo o mesmo trabalho. Buenos Aires, por exemplo, vem se destacando. E eles concorrem como país, como Argentina. São Paulo concorre com Brasília, Curitiba. Por isso, temos que continuar trabalhando para identificarmos esses eventos internacionais", ambiciona.
 
"Não podemos deixar de ter um plano da ações e
continuar a traçar esse plano todos os anos"
"O mais fácil seria jogar a toalha. 'A ocupação está alta, a gente não precisa fazer nada'. Mas é preciso ficar atento para não cair na zona de conforto. Porque é aí que nasce o perigo. São Paulo tem muito para crescer - como o movimento nos finais de semana. Por outro lado, há cidades batalhando por um espaço no segmento de eventos. O Rio de Janeiro já deixou claro que quer todos os eventos de esporte", diz ela, deixando lúcido que não há espaço para o espírito de "já vencemos". Este é o outro lado de sua gestão: para que a continuidade funcione, também é preciso inovação.
Destino: São Paulo Annie mesmo aponta a criação do Projeto Destinos dentro da capital como um dos destaques. A divisão da cidade em cinco pedaços - em referência à comparação com uma pizza - visa a facilitar a negociação de eventos e hospedagem. "Isso foi muito importante para ajudar as empresas, no sentido de que, quando pensar em São Paulo, não pensar nela toda. É realmente um bicho de sete cabeças. Nossa proposta é pensar na sua região. Qual seu evento, onde cabe? Onde você vai ficar? Não adianta fazer um evento na região da avenida Rebouças e escolher o Hyatt para se hospedar", exemplifica. Inglesa, mas com total domínio da cidade de São Paulo, a presidente do SPCVB.
"É a missão do convention, não podemos deixar de ter um plano de ações e continuar a traçar esse plano todos os anos", sentencia.
Além destas localidades dentro da própria capital, a entidade trabalha com destinos parceiros nos arredores de São Paulo. Hoje, são 22: Barueri, Brotas, Campos do Jordão, Cesário Lange, Embu das Artes, Guarujá, Guarulhos, Ilhabela, Itapecerica da Serra, Itu, Itupeva, Mogi das Cruzes, Osasco, Santana do Parnaíba, Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, São Pedro, São Roque, São Sebastião, Serra Negra e Vinhedo.
Site mostra os cinco diferentes destinos
dentro de São Paulo. Clique para acessar.
"Estamos oferecendo para nosso cliente uma alternativa, outros locais onde ele pode visitar enquanto está aqui em São Paulo. Isso fortalece nosso destino, ajuda na hora de fechar um negócio. A SPTuris [São Paulo Turismo] tem aquela campanha de Fique mais um dia - então isso se encaixa com o que a gente quer. Tentamos fazer com que nosso trabalho seja complementar ao deles", explica. A estratégia, além de uma oportunidade de alavancar e manter os eventos na cidade, também abre portas para outro incentivo indireto do convention: movimentar o final de semana. Como hoteleira, Annie explica que a ocupação de São Paulo de sexta-feira a domingo vem crescendo, mas ainda há espaço para mais.
Divulgar os atrativos da região é uma maneira de incentivar a vinda de visitantes. Ressaltar o que a cidade tem de bom, também. E isso, o SPCVB faz como ninguém, tanto que adotou o "tudo de bom" como seu mote e oferecendo cupons de descontos em seu site. Lojas, parques, hotelaria e, principalmente, a combinação entretenimento e gastronomia têm, em São Paulo, a dimensão da própria cidade. São 55 cinemas, 160 teatros, 88 bibliotecas, 54 parques e áreas verdes, cinco estádios de futebol, 12,5 mil restaurantes, 240 mil lojas e 900 feiras livres semanais.
As já famigeradas mídias sociais também fazem parte do trabalho do convention - segundo Annie, são parte importante dele. "São fundamentais exatamente para engajar aquele visitante, fazê-lo vir para São Paulo. Se ele lê coisas positivas sobre a cidade, contribui para continuarmos vendendo o destino. Temos, aqui, uma equipe para trabalhar somente com esses canais de comunicação", diz. Hoje, o SPCVB soma aproximadamente 4 mil pessoas curtindo sua página no Facebook e mais de 8,5 mil seguidores no Twitter.
Finanças A movimentação de dinheiro envolvida em todo o trabalho do convention é grande. A entidade, no entanto, é uma fundação sem fins lucrativos e não recebe parte alguma desta receita por seu trabalho. O room tax, já debatido por Toni Sando em entrevista ao Hôtelier News, é uma das fontes de receita e o recém-criado evento tax, também.
"Não adianta achar que, só porque a cidade está
bem hoje, amanhã estará bem também"
"Essas taxas são muito importantes. Temos uma estrutura aqui, um escritório com mais de 30 pessoas. Gastamos para manter isso, além das visitas, grandes eventos, material de divulgação. O room tax é a principal fonte de renda e é uma taxa facultativa. Sentimos resistência por parte das empresas em contribuir. É comum ouvir: 'Por que eu vou contribuir com uma taxa de turismo, se eu não sou de turismo?'. Eles não estão vendo a big picture. Nós somos uma iniciativa privada que trabalha para vender o destino e atrair novos eventos. Não adianta achar que, só porque a cidade está bem hoje, amanhã estará bem também", ressalta.
Para que a entidade não fiquei amarrada com uma única fonte de receita, Annie explica que sua gestão busca diversificar a origem destas contribuições. O evento tax é uma alternativa. "Fazemos  parcerias, reinventamos todo o site, lançamos um mídia kit on-line", detalha ela, explicando que o convention tem 52 segmentos associados e somou, em 2011, mais de 1,5 milhão de pageviews em seu site. Com isso, a venda de espaço publicitário dentro do visitesaopaulo.com vem sendo uma oportunidade de gerar receita.
Encerramento "Outra novidade é esse mapa de eventos, que serve como um painel de monitoramento. Isso foi uma preocupação do mercado corporativo. Os empresários conseguem visualizar tudo o que acontece na cidade, dividindo por destinos. É o primeiro mapa-calendário de eventos de São Paulo, ninguém tinha feito isso ainda", garante, apontando uma das iniciativas mais recentes de sua gestão. Apesar da reclamação de constante indisponibilidade dos hotéis da capital, a presidente afirma que há espaço sim, basta saber se encaixar na dinâmica da cidade.
Por fim, ela lista as metas para este ano: persistir na capacitação - "por causa da Copa, que já está aí", aumentar o número de associados, continuar com o esforço de conscientização sobre o room e evento tax, fortalecer as parcerias com grandes hotéis corporativos no interior do Estado de São Paulo e "encerrar a gestão financeiramente muito forte".

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