BLTA e o luxo tipo exportação

BLTA - Simone Scorsato_internaSimone: cliente quer experiências autênticas e o Brasil pode entregar isso

Naquele dia de calor e sol intensos, a Avenida Paulista estava apinhada de gente como sempre. O trânsito, obviamente, seguia seu padrão paulistano típico. Não fosse meu meio de transporte usual em São Paulo, uma bicicleta elétrica, certamente me atrasaria para o compromisso – algo comum para meus padrões de pontualidade. Minha entrevistada, contudo, não teve a mesma sorte. Presa no tráfego, chegou um pouco mais tarde. Nada que me trouxesse qualquer tipo de incômodo, afinal ela foi certeira na escolha do local para nosso bate-papo: uma livraria.

Sim, quer deixar jornalistas entretidos, convide-os para pautas em livrarias – fica a dica, pois não sentimos o tempo passar. Quando Simone Scorsato, diretora executiva da BLTA (Brazilian Luxury Travel Association), chegou para nossa entrevista com sua longa saia estampada e um bonito colar de cerâmica no pescoço, estava distraído em uma animada conversa com o assessor de imprensa da entidade. Educadíssima, pediu logo desculpas pelo atraso, mas dei a resposta certa, que ajudou logo a quebrar o gelo: “Sou carioca, não tem nenhum problema.”

Página virada, logo a seguir já emendamos em um bate-papo sobre o mercado de turismo de luxo no Brasil, seu potencial e perspectivas. Simone, por sinal, embarcaria no dia seguinte para um roadshow organizado pela BLTA nos Estados Unidos, mais precisamente em Nova York e Los Angeles. "Fazia tempo que não realizávamos essa ação no mercado americano. Nos últimos anos, concentramos esforços na Europa, onde já temos parcerias mais consolidadas para a promoção de eventos como esse”, explica Simone, acrescentando que 23 hotéis associados comporiam a comitiva. “Esperamos 50 buyers, entre agentes e operadores de turismo de luxo locais, em cada uma das cidades”, completa.

A nova cartada nos Estados Unidos, por sinal, faz todo sentido. Hoje, segundo o Anuário BLTA 2018, divulgado em agosto deste ano, 16,6% dos hóspedes dos hotéis associados são americanos, perdendo apenas para brasileiros e europeus (veja mais números no infográfico abaixo). Questionada sobre a Ásia, em especial turistas chineses, que são os que mais gastam no mundo, Simone explicou qual a estratégia de promoção da entidade. “Nosso objetivo atual é consolidar nossos mercados principais e expandir um pouco além do que já eles já têm. Na Europa, por exemplo, queremos ir além do Reino Unido e da França e abrir portas no mercado alemão”, comenta.

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“Sobre a Ásia, hoje representa menos de 5% dos hóspedes dos hotéis associados. É, sem dúvida, um mercado interessante, mas, para melhor promover nossos associados por lá necessitamos de parcerias locais, e isso vale também para qualquer praça”, comenta Simone, destacando que apoio de companhias aéreas também é importante no trabalho de prospecção e promoção realizado pela BLTA. “Além disso, tem que haver interesse por parte dos nossos associados”, completa.

BLTA: momento atual

Para Simone, o momento econômico atual conspira a favor. Com o dólar a R$ 4, o Brasil está um destino relativamente barato. Além disso, ela vê maior interesse de feiras internacionais do segmento por hotéis brasileiros. “Temos excelentes produtos no país. Apesar dos gargalos de infraestrutura, há muito potencial por aqui, até em função da mudança do perfil do consumidor de luxo”, avalia. “Hoje, o turista que consome esse tipo de produto quer novidades e viver experiências diferentes, autênticas. Outro ponto muito valorizado é o zelo pela sustentabilidade. Então, o mercado brasileiro, que consegue reunir esses fatores, pode se beneficiar”, completa.

Para isso, contudo, Simone reconhece que o mercado de turismo nacional precisa melhorar o trabalho de promoção. “Não pode mais se limitar a participações em feiras. Além disso, é importante trabalhar a segmentação dentro da segmentação”, afirma a diretora executiva da BLTA, que explica o comentário aparentemente redundante. “Em um primeiro momento, pensa-se no luxo como algo sofisticado e suntuoso, mas o comportamento do consumidor mudou muito, ele valoriza outras coisas”, observa. 

“O hóspede busca, sobretudo, autenticidade nas experiências de viagens. Dessa forma, não dá para colocar todos os produtos no mesmo balaio. Precisamos, dentro do setor, segmentar melhor para atingir o público corretamente. Isso porque as demandas do cliente que busca hotéis de natureza são diferentes daqueles que estão atrás de experiências gastronômicas marcantes”, justifica.

Novas adesões

Hoje com 37 hotéis no portfólio, espalhados por 28 destinos nacionais, a BLTA tem também quatro operadoras associadas. As adições mais recentes foram os dois Fasano abertos em Belo Horizonte e Salvador, além do Fairmont Rio de Janeiro Copacabana. Todos eles guardam características em comum, como já trabalharem o mercado internacional, desenvolverem ações de sustentabilidade e participar de feiras internacionais.

“Mais da metade da oferta é de hotéis boutique. Além disso, 40% dos empreendimentos associados têm de até 24 apartamentos. No ano passado, faturaram R$ 871 milhões, com diária média de R$ 1.528,07 e RevPar de R$ 803,99”, informa Simone. “Nosso trabalho é de promoção internacional dos associados, mas a comercialização é consequência imediata disso para eles. Não pretendemos inchar nosso portfólio nos próximos anos, além de sermos criteriosos na seleção”, finaliza.

Bem, exclusividade é tudo no luxo, certo?

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(*) Crédito das fotos: Vinicius Medeiros/Hotelier News

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