Conversamos com Damien Perrot, que pensa o design dos hotéis da AccorHotels

Quem se hospeda ou visita unidades da AccorHotels pelo mundo, de certa forma, acaba sempre esbarrando com Damien Perrot. Aqui e ali o executivo se faz presente, seja na definição do mobiliário, na escolha da paleta de cores das paredes ou na arquitetura do lobby dos hotéis. Há 20 anos na empresa, Perrot é o atual vice-presidente sênior de Design e Solução de Produtos. Sob sua responsabilidade, e de sua equipe, está a definição dos conceitos e diretrizes de design usados em cada empreendimento da companhia pelo mundo.

Graduado pela Vatel Hospitality School, na Suíça, Perrot ingressou no grupo francês por uma área diferente: Tecnologia da Informação. De 2000 a 2012, ele ocupou diferentes posições no departamento Hotels Equipment Services. Em 2013, o executivo se juntou às equipes da família ibis, participando da guinada no design dos empreendimentos da marca. No cargo atual há quatro ano, ele vive uma busca de disrupção, singularidade, diferenciação e ousadia.

Accor Hotels - Demien PerrotPerrot: atento às tendências globais

“Design não é uma tarefa difícil, é sobretudo, algo ambicioso e visível. Para a AccorHotels, nossa ambição é ser criador de tendências, não seguidor”, afirma Perrot. “Essa ambição torna nosso dia a dia mais desafiador e estimulante. Um dos principais desafios para todos os segmentos é a evolução da sociedade. As pessoas vivem de maneira diferente hoje e, amanhã, isso será ainda mais distinto. Precisamos antecipar tendências e integrar esses conceitos aos nossos hotéis”, completa.

Damien Perrot: visão e tendências

Nesta entrevista por e-mail, o executivo revelou à reportagem do Hotelier News o que te motiva, como pauta seu trabalho e quais as principais tendências de arquitetura e design de interiores no mundo da hospitalidade. Confira!

Hotelier News: No competitivo mercado atual, a experiência do hóspede é o que diferencia o hotel A do B. Onde o design se encaixa nisso?

Damien Perrot: O design oferece soluções inovadoras para facilitar o uso de ferramentas e objetos, respondendo ainda às tendências artísticas e à estética moderna. Se você considerar, por exemplo, a indústria automobilística, 90% da composição de um carro são estritamente idênticas. São os 10% restantes que criam a diferença que resulta em sucesso. Então, é aí que entra o design. Para distinguir nossos hotéis, temos que trabalhar e imaginar que esses 10% farão toda diferença para nossos hóspedes, levando sucesso para nossos hotéis e marcas. Como designer, temos que pensar na coexistência pacífica de diferentes tipos de hóspedes no mesmo endereço, que não necessariamente terão a mesma expectativa.

HN: No mercado de hospitalidade, o que define boa arquitetura? O que deve ser privilegiado, por exemplo?

DP: Boa arquitetura é como uma receita de um grande chef. Não pode ser apenas o "objeto", o estilo, o visual, o efeito Wow. Se você tem isso – e trata-se de um ótimo componente –, mas sem uso, a funcionalidade é apenas arte. Portanto, boa arquitetura é um cruzamento entre técnica, estética, experiência e sociedade. É a resposta para uma necessidade real. Seu objetivo é tornar o uso mais fácil e intuitivo... e, mais ainda, transformar o uso em uma experiência, uma emoção. Em outras palavras, é tornar nossas vidas mais fáceis e bonitas! Uma boa arquitetura é aquela que ajuda e antecipa a evolução da nossa sociedade.

Damien Perrot - designPerrot atua há 20 anos na AccorHotels 

HN: Dada a importância da experiência do hóspede, quais as principais tendências atuais em design de interiores para hotéis? O que mudou desde o início de sua carreira?

DP: Observamos tendências, que – estou convencido disso – devem estar no centro de toda nossa reflexão sobre a área, bem como desafiar nossos hábitos enquanto hoteleiros e designers. Para citar alguns exemplos: novos modelos de trabalho, mobilidade, bem-estar, desenvolvimento sustentável, busca de novas experiências. Inevitavelmente, essas tendências provocam um impacto considerável na maneira como vamos projetar nossos espaços e repensar nossos hotéis. Por exemplo, a expressão "sentir-se em casa" ou, em outras palavras, a tendência para fazer com que o cliente se sinta em casa, está se tornando particularmente importante. Isso não significa que os espaços têm que se parecer com nossas casas. Na verdade, os ambientes devem estar de acordo com nosso estilo de vida e estar adaptados aos nossos rituais cotidianos. E o que mudou desde que cheguei a AccorHotels? Bem, principalmente mais flexibilidade e importância do design. No passado, a padronização era tendência: os hóspedes se sentiam seguros em encontrar o mesmo interior, seja em Pequim ou Toronto. Hoje, tudo mudou: os clientes querem viver experiências únicas. Portanto, a indústria da hospitalidade teve que reinventar suas áreas comuns, quartos e restaurantes para responder a isso. Nosso portfólio cresceu consideravelmente nos últimos cinco anos, especialmente no segmento de luxo. Em consequência, o papel do design tornou-se cada vez mais estratégico, considerando que temos que criar uma identidade de design clara para cada marca.

HN: O que é mais difícil de planejar e executar: projetos econômicos, midscale ou de hotéis de luxo? Por quê? E quais são as principais diferenças entre eles?

DP: Design não é uma tarefa difícil, é, sobretudo, algo ambicioso e visível. Para a AccorHotels, nossa ambição é ser criador de tendências, não seguidor. Essa ambição torna nosso dia a dia mais desafiador e estimulante. Um dos principais desafios para todos os segmentos é a evolução da sociedade. As pessoas vivem de maneira diferente hoje e, amanhã, isso será ainda mais distinto. Precisamos antecipar tendências e integrar esses conceitos aos nossos hotéis. Isso é um imenso desafio, especialmente para as marcas econômicas e midscale, por causa do maior volume de aberturas. Para marcas de luxo, o desafio é ainda maior em função da atemporalidade do design e dos códigos estruturantes da indústria hoteleira, o que não facilita mudanças. Para as marcas econômicas e midscale, o hóspede espera quase todos os serviços encontrados no segmento de luxo, com mais surpresa, conforto e emoção. Então, o desafio é como podemos apostar mais nos hotéis econômicos, como conseguiremos diferenciar ainda mais os midscale e, enfim, como definir os novos padrões de luxo. O desafio não é apenas no design, mas, como você pode ver, também no modelo de negócios.

Demien Perrot - Novotel & Ibis Budget Exemplo: quarto do Novotel & Ibis Budget em Sorocaba (SP)

HN: Fale sobre os ajustes necessários nos projetos para se adaptar a cada mercado onde a AccorHotels opera. No Brasil, como foi?

DP: Hoje, isso está completamente integrado às nossas diretrizes e organização. O que fizemos foi apenas criar diretrizes fortes que captassem o essencial da identidade das marcas e, então, permitir que nossas equipes regionais localizassem e adaptassem cada uma dessas diretrizes aos seus hotéis. Você não pode imaginar o quão criativo você pode ser quando dá às suas equipes e funcionários as chaves necessárias... No Brasil, a criatividade está no DNA do país. Há muitos exemplos, como Oscar Niemeyer e Lucio Costa ontem, ou Arthur Casas e os Irmãos Campana hoje. Se você misturar isso com o forte know how de hospitalidade da equipe da região, você acaba de transformar as dificuldades em grandes aventuras e descobertas.

(*) Crédito das fotos: Divulgação/AccorHotels

(*) Crédito da foto do quarto: Daniel Pinheiro/AccorHotels

Comentários