Costão do Santinho vive tempo áureo e investe R$ 1,5 milhão

Rubens Régis, diretor Comercial, e Rafael Pires,
diretor Comercial Adjunto do Costão do Santinho
(fotos: Dênis Matos)
 
Num sábado recente, dia 17, o Costão do Santinho vivia um paradoxo. Agentes de viagens, jornalistas, hóspedes e passantes se acotovelavam nos mais de 200 mil m² de área construída e nos 750 mil m² de Mata Atlântica preservada do resort, localizado na praia do Santinho, Florianópolis, em Santa Catarina. De um lado, a alegria de qualquer hoteleiro: 100% de ocupação devido aos inúmeros eventos que lá se desenrolavam. De outro, funcionários alucinados para cumprir o dogma do setor: atender a todos com excelência, independente da calamidade de clientes que ali circulavam.
 
A razão de ser do caos: a inauguração de três novos ambientes de inverno, que estão dentro de uma reengenharia de processos estruturais - fórmula da predileção dos manuais de Administração -que atinge os sete dígitos, com cerca de R$ 1,5 milhão investido. Some-se a isso dois congressos, um de agricultura e outro de jornalismo. No mais, um evento promovido pelo próprio Costão, o IV Encontro Nacional de Agentes do Costão, que premiou agentes de viagem que melhor comercializaram o megaresort.
 
No ano em que completa 20 viçosas primaveras, o patriarca dos resorts de Florianópolis, nas palavras de Rubens Régis, diretor Comercial do Costão, vive um momento áureo. Além das reformas recém-inauguradas, o complexo ganhará nova recepção, fará uma revista para assoprar as velinhas das duas décadas e, se houver tempo para respirar, organizará uma megafesta com os colaboradores para cortar, no dia 10 de dezembro próximo, o vigésimo bolo. O Hôtelier News conferiu de perto toda essa movimentação.
 
Por Dênis Matos*

São muitas as ações que criaram tal frenesi no Costão do Santinho. A começar pelas cifras. É proveniente do aporte de R$ 1,5 milhão as muitas mudanças na estrutura do resort. A recepção será ampliada, todas as 14 Vilas - casas desenhadas em estilo açoriano, com apartamentos de um, dois ou três dormitórios -  ganharão nova pintura, os apartamentos da chamada Ala Internacional, que congrega o hotel, terão novos televisores LCD e ar condicionado, o fitness center já foi reformado e voltou à ativa no final do ano passado, bem como o Bar Carijós - que também teve seu debute recentemente e agora conta com música ao vivo em datas especiais.
 
O Fitness, inclusive, levou a bagatela de R$ 600 mil para sua reestruturação, garante Rubens Régis. A mudança é oriunda de uma parceria com a Life Fitness, empresa estadunidense que atende departamentos do governo de seu país, entre eles o Pentágono e academias de treinamento do FBI, da CIA e do Exército, dentre outros. No mercado esportivo é a menina dos olhos de alguns times, como NBA (basquete), NFL (futebol americano), NHL (hóquei) e MLB (beisebol).
 
Parte da reforma se consolidou no último final de semana, ocasião da inauguração de três ambientes de inverno: o Bar das Piscinas e as novas decorações no Engenho de Cana e Engenho de Farinha. A ideia é tornar o inverno uma estação pretensamente quente, ao menos nas dependências do Costão. "Os engenhos eram praticamente pontos mortos, com apenas cadeiras de jardins. Nós fizemos uma grande mudança, trocando as telhas e redecorando o espaço. O piso de tijolo artesanal foi mantido", esclarece Camila Gallo, coordenadora de Marketing do Costão.
 

Inaugurado no último sábado, Engenho de Cana é um
típico bar rústico, com poltronas, bancos e almofadas...
 
 
 

...E um enorme engenho que já foi utilizado
na produção de água-ardente
 
A administração do Costão seguiu a máxima de Maquiavel, segundo a qual os sofrimentos devem ser infligidos de uma só vez, e a reforma foi feita a toque de caixa, coisa de 40 dias. A repaginação dos engenhos teve sua gênese numa parceria com escritórios de arquitetura de Florianópolis, que assumiram o desenho dos espaços e a troca do mobiliário numa espécie de permuta - já que os nomes do escritório e do arquiteto figuram em letras garrafais à frente da obra. Há aquecedores para acalorar os corpos dos passantes. Toldos transparentes também servem de parede, minimizando a ventania que vem do Atlântico nesta estação.
 
Mas e no verão, como isso funcionará: "Nós faremos uma decoração típica à estação e, claro, deixaremos o espaço aberto, com mais ventilação", adianta Camila.
 

Camila Gallo, coordenadora de Marketing do Costão

De acordo com a executiva, o gene do projeto era estético, no intuito de instalar uma verdadeira sala de estar nos engenhos, mas sem que o charme se perdesse. Por isso, os arquitetos obedeceram à estrutura rústica do espaço, com pequenas saletas adaptadas ao adereço que dá nome ao entorno, diga-se de passagem, detalhe pouco comum à decoração de bares. Ela conta que os verdadeiros engenhos, que remetem ao idos da década de 1980, são tradição nas fazendas florianopolitanas e foram adquiridos há anos.
 
A plano é renovar sempre. "A ideia é que o hóspede venha ao Costão e, quando retorne, o que normalmente ocorre na grande parte dos casos de um em um ano, não encontre o mesmo hotel", articula a coordenadora de Marketing.
 
Assim como seu irmão de Cana, o Engenho da
Farinha foi inaugurado na última semana como
parte do projeto de inverno do Costão do Santinho

 
 
 
A estrutura rústica contrasta com as confortáveis poltronas
 
Por isso a ampliação da recepção, porta de entrada do resort - e que, por sinal, não é parte nem do hotel e nem das Vilas do entorno. A mudança é respaldada na enorme gama de clientes que circulam nos 695 apartamentos do Costão - que chegam a abrigar até 1,9 mil pessoas. Num momento em que grupos de grandes eventos se cruzam na recepção, a estrutura acaba sendo abalada. A estimativa é que a obra, encabeçada pela CostãoVille Empreendimentos Imobiliários, construtora membro do grupo Costão, fique pronta para o mês de outubro próximo.
 
Recepção ganhará novo anexo que deve ficar
pronto até o final do mês de outubro próximo
 
Outro espaço que movimentou o bolso de Fernando Marcondes de Mattos, sujeito com entonação de voz e fala semelhante às de políticos num debate no Plenário e proprietário do Costão do Santinho, foi o Bar das Piscinas - que também teve a fita cortada junto aos engenhos, no último sábado. Cercado por uma estrutura de vidro, o bar teve seu mobiliário substituído, dando fim às antigas mesas e cadeiras de plástico para a chegada da decoração atual, com o respectivo mobiliário em madeira e vasos por todos os cantos.
 
 
 
O recém-reinagurado Bar das Piscinas agora conta
com móveis de madeira e, notadamente, as belas vistas
da piscina do Costão e da Praia do Santinho

 
Mas há mercado e cliente para tantos investimentos? "Hoje nós temos a convicção de que se não tivéssemos investido nosso produto perderia. Nós vemos a ocupação no resort por outro prisma. Nós pagamos para ver", garante Rubens Régis, que acumula também o cargo de presidente da Resorts Brasil (Associação Brasileira de Resorts), entidade criada há 14 anos no intuito de avaliar a situação do segmento no mercado brasileiro.
 
Claro que nem tudo são flores e há dias melhores e dias piores. Régis conta que nessas de "apostamos tudo", hora ou outra a coisa não funciona tão bem e aí, notadamente, esboçando um sorriso melífluo, ele afirma que o resort acaba arcando com o investimento sem colher as flores. "Na somatória mais deu certo do que errado", defende.
 
A afirmação parece ter fundamento. O Costão do Santinho fechou 2010 com a ocupação média na casa dos 52%. A estimativa é que, neste ano, o número suba três pontos e que, nos próximos três anos, atinja 60%.
 
No papel de presidente da Resorts Brasil, Régis defende que o Costão fechou a média acima da vivenciada nos empreendimentos do País, que tiveram o mesmo número na margem de 48% em período idêntico. Ele conta que o mercado de eventos tem fomentado esses números na casa na qual dirige a área Comercial, bem como o público estrangeiro.
 
Rubens Régis entende que os resorts vivem uma
crise no Brasil, decorrente da baixa do dólar
 
Rubens Régis acredita que os resorts do Brasil vivem uma crise por conta da baixa ocupação, segundo ele, problema que tem em seu cerne a baixa do dólar, que faz com que o turista viaje para outro país em vez de fortalecer o mercado local.
 
Ele explica que os resorts no Nordeste sofrem ainda mais com o cenário. Isso porque a região Sul está mais próxima de países como Chile e Argentina, e que esses turistas têm preferido estados mais próximos de seus países - em vez do calor escaldante da parte Nordeste do País.
 
"O aéreo para ir ao Nordeste sai muito caro para argentinos e chilenos. Aqui em Florianópolis eles chegam em três horas, lá demoram sete - o que aumenta o custo da passagem. Com isso, o Costão tem fidelizado esses mercados", esclarece o diretor Comercial, defendendo que num resort a ocupação abaixo de 50% é sinônimo de perda.
 
Enac
Para difundir ações em novos mercados, inclusive no doméstico, os projetos do Costão têm sido incisivos. Parte da movimentação que ocorria no hotel na ocasião da reportagem era proveniente de uma dessas ações. Cerca de 200 agentes de viagens lá estavam para o IV Enac (Encontro Nacional de Agentes do Costão).
 
Quinze dos vendedores de sonhos turísticos, como se autointitulam, lá figuravam - e notadamente os que mais venderam foram premiados por comercializar o destino. São agentes que, segundo Rubens Régis, entendem o produto Costão e, por isso, trabalham num sistema de parceria. As comissões são de 12% e incluem o valor pago pelo bilhete aéreo. Além disso, recebem informações antecipadas, como a programação dos pacotes que serão comercializados até o final de 2011, já entregue aos presentes. Detalhe importante é que, caso o cliente de um agente compre um segundo pacote para o resort pelo próprio Call Center, a comissão é direcionada ao dito 'dono' do turista. A estimativa é que o exército de agentes parceiros dobre nos próximos anos.
 
Para estreitar os laços com os vendedores homenageados, o próprio Fernando Marcondes de Mattos fez questão de discursar - antecedendo a divulgação da programação para o segundo semestre. Num tom que deixaria o falecido Enéas Ferreira Carneiro com sentimento de inveja, o proprietário do Costão criticou os problemas de câmbio, que cada vez mais minguam a entrada de turistas estrangeiros no País.
 
Mattos considera que a estrutura do Brasil não condiz com o número de turistas que por aqui circulam. "Posição absolutamente deprimente", ataca, articulando que a baixa do dólar ocasiona tal cenário, uma vez que o próprio turista local prefere deixar o dinheiro ganho aqui em outros países. Argumentou também que a crise econômica vivenciada no Velho Mundo fez com que algumas nações tivessem perda no valor de sua moeda e, por isso, se tornasse mais fácil ir para aqueles países do que para um complexo turístico do Nordeste brasileiro.
 
Agentes de viagem assistem ao pronuncioamento
de abertura da 4ª edição do Enac

Autofagia

Fernando Marcondes de Mattos garantiu aos agentes que a bolha deve aumentar, principalmente no déficit do turismo, já que se viabilizou a entrada de produtos estrangeiros no Brasil, mencionando o caso dos vinhos, que podem ser adquiridos por preços irrisórios e trazidos ao País com taxas baixíssimas de tributos. Sob seu ponto de vista, esse déficit deixa de gerar 100 mil novos empregos diretos e 300 mil indiretos - representando uma espécie de "autofagia" para o setor. O queixo coletivo da plateia caiu, e houve um ou outro que entre burburinhos ao fundo quisesse perguntar algo ao pseudo palestrante.
 
Fernando Marcondes de Mattos, proprietário do
Costão do Santinho, durante pronunciamento no Enac
 
E novamente o Nordeste foi parâmetro. Para o proprietário do Costão, os estados da região perdem em sua principal atividade, o turismo, uma vez que os próprios brasileiros preferem ir ao exterior por conta das facilidades econômicas.
 
No discurso, Rubens Régis complementa tal leitura, mencionando, como presidente da Resorts Brasil, que 14 projetos de resorts estrangeiros, com pretensão de morder a fatia do bolo brasileiro, estão engavetados pois os investidores aguardam melhora do setor - enfraquecido com o alto índice do mercado doméstico que sai do País para fazer turismo além da fronteira.
 
Outras apostas, ao menos no Costão do Santinho, estão sendo feitas para reverter tal cenário. Até mesmo o jargão das compras coletivas já entrou na agenda do resort para fomentar as vendas.
Mas isso não faz com que se tenha uma ocupação sem lucro? "Os sites de compras coletivas devem oportunizar a venda de buracos, na baixíssima temporada. Até agora nós tivemos apenas um projeto neste sentido e somos cautelosos com ações deste cunho", defende Rafael Pires, diretor Comercial Adjunto.
 
Banalizando o produto
Régis complementa que vender em sites de compra coletiva, antes de mais nada, banaliza o produto. Ele alerta que os clientes, quando compram diárias a preços irrisórios, acabam não entendendo o valor do produto e, por isso, possivelmente, não vão voltar ao Costão para pagar o preço real de um apartamento.
 
Questionado se promoções deste cunho não vão contra os fundamentos do tão falado Revenue Management (Gerenciamento de Receitas), o presidente da Resorts Brasil diz que tal sistema de tarifas ainda engatinha nos resorts brasileiros. Ele defende que o problema é, antes de qualquer coisa, cultural, e que o consumidor ainda não está pronto para entender que a tarifa vai oscilar de acordo com a ocupação e a antecedência de compra. "Ainda pesa o fato de um cliente perguntar ao outro, na beira da piscina, o quanto foi que se pagou na diária. Isto tem que ser mudado gradativamente, para não atrapalhar o próprio resort", aconselha.
 
Apagando as velas
As incontáveis ações de Marketing não são as únicas possibilidades de trazer os holofotes opalescentes para o Costão do Santinho. Uma revista em comemoração às duas décadas do hotel está sendo produzida. De acordo com a coordenadora de Marketing, o material fará uma leitura que remete ao início das histórias do resort e da região na qual ele está situado - que, à época, ainda era pouco explorada por grandes empresários de turismo. A percepção empreendedora do idealizador e proprietário do Costão aparentemente estava certa, e hoje o sintoma de maré favorável é visível no entorno: haja vista que o resort é Hexacampeão do Guia 4 Rodas, da Editora Abril, no quesito Melhor Resort de Praia do Brasil.
 
"O Costão trouxe os olhos do turismo para o Sul.
O segmento de luxo, há 20 anos, era muito pequeno.
Nós trouxemos as luzes desse público"
 
No material da publicação da vigésima velinha haverá também uma leitura do turismo na região norte da ilha de Florianópolis. "O Costão trouxe os olhos do turismo para o Sul. O segmento de luxo, há 20 anos, era muito pequeno. Nós trouxemos as luzes desse público. Não há, até hoje, nenhum resort neste nível", vangloria-se Camila Gallo, defendendo que o resort se tornou um dos mais bem-sucedidos do País. 
 
Serviço
 
A equipe Hôtelier News viajou a Florianópolis a convite do resort.

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