Franck Pruvost e os ciclos de mudança na Accor

Franck Pruvost está, desde setembro, de volta ao comando da família ibis Franck Pruvost está, desde setembro, de volta ao comando da família ibis (fotos: Juliana Bellegard)

Período de mudanças chega a ser um eufemismo quando se fala do momento pelo qual a marca ibis passou no ano de 2012. Se, por um lado, a Accor, detentora da bandeira, investiu cerca de R$ 4 milhões para sua reformulação somente na América Latina, por outro lado sua "cara", literalmente, é nova. Quer dizer, nova em termos. Franck Pruvost, que assumiu em setembro último a diretoria da ibis para a região, não é um novato nem em termos da marca, nem de Brasil. Em diferentes períodos, a história destes três elementos - ibis, Brasil e Pruvost - confunde-se e, agora, eles fecham um ciclo iniciado há mais de uma década. O ano era 1990 e a presença da Accor no Brasil em nada assemelhava-se ao cenário atual. O executivo, então residente em Portugal e já com conhecimento em duas áreas importantes para sua missão seguinte - os pormenores da bandeira econômica e o idioma português - recebe a proposta de cruzar o Atlântico e levar a filosofia ibis às terras tupiniquins. Em entrevista exclusiva ao Hôtelier News, Pruvost retoma a trajetória da ibis e a sua própria, fala sobre a volta ao Brasil e as perspectivas de crescimento desta marca que vem firmando suas raízes - e, por que não, seus travesseiros? - em solo brasileiro. Por Juliana Bellegard 1984 Toda história que se preze tem turning points, momentos decisivos nos quais o protagonista toma uma decisão ou tal situação faz com que a narrativa mude seu curso. Aqui não é diferente. O jovem hoteleiro Franck Pruvost, à época de seus estudos, queria seguir carreira de chef de cozinha e foi para os Estados Unidos trabalhar no Le Meridién em Boston como cozinheiro. De volta à França, por conta do serviço militar obrigatório, ele manteve sua convicção e, mesmo de farda, achou uma maneira de fazer o que queria: gerenciava o restaurante militar. A orwelliana data de 1984 marcou a entrada de Pruvost para a Accor e para a marca ibis. Ele começou no cargo de assistente de gerência de uma das unidades ibis em La Rochelle, na França, e passou por outras unidades da bandeira em sua terra natal. A experiência com empreendimentos de menor porte, como eram estes ibis, teve seus benefícios, segundo ele. "A vantagem é que você faz tudo sozinho: gerência, recepção, plantão da noite, restaurante. Uma experiência única", explica.

"Há poucos países onde [a ibis] não deu certo" "Há poucos países onde [a ibis] não deu certo"

Depois disso, ele começa uma trajetória comum a muitos executivos da rede: as mudanças. "Eu e minha esposa queríamos viajar, queríamos fazer outras coisas e gostávamos dos países do sul. Então surgiu a oportunidade de ir para Portugal", relembra. Pruvost assumiu o desafio de abrir a segunda unidade ibis em terras portuguesas, em Setúbal. Era o início da comunidade europeia, e o casal francês ainda precisava de visto de trabalho para permanecer ali, sem contar a barreira da língua. "Saímos sem falar português e com espírito de aventura. Não tínhamos filhos, então foi bem legal", diz. Além do ibis, ele ainda gerenciou duas unidades de bandeira Novotel no país - na cidade do Porto e na capital, Lisboa. "A diferença entre as duas marcas é que a Novotel tem um terceiro métier. ibis tem hospedagem e A&B, e lá havia ainda a questão dos eventos", coloca. 1999 Na virada, mesmo que simbólica, do milênio, foi o começo de um novo ciclo para o mercado brasileiro, a marca ibis e, consequentemente, Franck Pruvost. Com a derrocada dos apart-hotéis em curso e a desvalorização do real frente ao dólar, a Accor decide implantar no Brasil sua marca econômica bem-sucedida no mercado francês. O executivo, que tinha acabado de encerrar uma grande reforma no hotel de Lisboa, foi o nome cotado para o desafio. "Eu já tinha tido contato com alguns brasileiros que trabalhavam na Accor, em especial o Francisco Sobrinho, que hoje trabalha comigo", comenta. Ao contar a novidade para a esposa, uma reação negativa. "Ela falou: 'você está louco, não dá para viver nesse País, eles vão roubar as crianças, vão nos matar na rua. Nem pensar'", relembra, bem-humorado. Com panos quentes na situação - "não é bem assim" - conseguiu convencê-la a vir ao Brasil e "armou" o terreno com o amigo brasileiro para que a visita causasse uma boa impressão. Enquanto ele, uma vez aqui, visitava obras e trabalhava junto com Roland de Bonadona, COO da rede para a América Latina, e Firmin Antonio, então presidente da Accor no Brasil, sua esposa passeava com a mulher de Francisco Sobrinho "nos bons lugares de São Paulo".

Ao lado de Roland de Bonadona e Steven Daines Ao lado de Roland de Bonadona e Steven Daines (foto: arquivo HN) 

Sobre a capital, ele revela um duplipensar: "É muito assustador quando você chega pela primeira vez. Eu me lembro do primeiro dia que peguei um táxi para sair do Aeroporto de Guarulhos e chegar ao centro e vi essa parte que não é a mais bonita de São Paulo, com prédios abandonados. Pensei 'não vai dar'. Mas deu certo". Num fast foward da história, ele, uma vez de volta à França, optaria por retornar à capital paulista, desta vez com o aval da esposa. O projeto, no início da marca, era quase um 50 anos em cinco de Juscelino Kubitschek - fazer 50 hotéis ibis em cinco anos. "Era o que estava previsto inicialmente, mas na realidade eu não fui tão rápido, demorei dez anos para fazer 47 unidades", reflete, completando que houve, no período, o desenvolvimento de empreendimentos com a marca Formule 1, hoje convertidas para ibis budget, que não estavam previstos no plano inicial. Modesto, ele avalia que "fizemos mais coisas certas do que erradas". Fato é que a bandeira firmou-se no Brasil e passou a ser um dos focos da atuação da Accor no País. Pruvost passou dez anos no País e, em 2009, o novo cargo de diretor geral para Etap e F1 levou-o para seu país natal. "Na Accor, você faz carreira. Recebi outras propostas antes, e esta posição na França deu certo. Fiquei lá três anos e meio, foi uma experiência interessante", garante. Em seu lugar, Steven Daines assumiu a diretoria para as marcas ibis e Formule 1 na América Latina. A ibis A experiência com a marca na França foi um dos fatores que trouxe Pruvost para o Brasil, onde ele viu a ibis nascer e se desenvolver. A comparação entre os dois mercados, no entanto, não é simples. A "idade" dos hotéis franceses - os primeiros já completam 40 anos de operações -, a densidade da rede em seu país de origem e a forma de gerenciamento, que lá é muito mais por meio de franquias, são fatores que diferenciam os destinos. "Falando do ponto de vista do cliente, é uma das marcas da Accor de maior performance. Há poucos países onde não deu certo", coloca. Recentemente, uma consultoria portuguesa apontou a ibis como a principal bandeira hoteleira no país, endossando o argumento do executivo.   Em termos de Brasil, ele explica que houve uma série de circunstâncias felizes que, juntamente com a proposta da ibis, permitiram que a marca se estabelecesse aqui. "O Brasil é um país muito grande e com um mercado interno imenso. Chegamos num momento em que a hotelaria estava menos estruturada e, por outro lado, os hotéis independentes ainda não estavam tão preocupados com a qualidade. Havia, ainda, a classe média começando a crescer", pontua. Havia alguns percalços econômicos, como a taxa de juros alta e a inflação que, mesmo controlada, continuava desfavorável à hotelaria. "Numa rede econômica, o início é sempre mais difícil, você tem que ter escala para poder começar a ganhar dinheiro. Perdíamos dinheiro no início", comenta, ressaltando que a Accor, à época, colocou cerca de US$ 50 milhões nos sete primeiros ibis brasileiros. "Isso foi fantástico, mostrou ao investidor que existia este modelo de negócios e ajudou a trazer mais interessados em hotéis", relembra. A experiência também foi válida como laboratório para a formação das primeiras equipes, dos primeiros gerentes. 2012 É bem possível que as profecias sobre o fim do mundo não se concretizem, mas pode-se dizer que este ano foi o fim do mundo como conhecemos - pelo menos no que diz respeito aos hotéis ibis. Apostando no sucesso que a bandeira teve em todo o mundo, a Accor formalizou, no último mês de janeiro, o que já era sabido desde o final de 2011: a reformulação da ibis, com a criação da ibis styles e ibis bugdet em detrimento das marcas All Seasons, Etap Hotel e Formule 1. Com isso, todos os hotéis brasileiros tiveram que passar, ao longo de 2012, por algum tipo de mudança, fosse conversão de bandeira, fosse adequação de logomarca. O mesmo processo aconteceu na América Latina e em todo o mundo.

José Luis Loureiro, diretor-presidente da Galwan Construtora e Incorporadora, Franck Pruvost, diretor de Operações da família ibis e Carlos Bugarim, asset manager da Up Asset Consultoria, literalmente abraçam a marca ibis Na ocasião da inauguração do ibis Vitória Praia de Camburi, segurando os travesseiros que simbolizam a marca, ao lado dos investidores (foto: divulgação)

Atualmente, o portfólio latino da Accor soma 107 unidades ibis na América Latina, em países como Brasil (85 hotéis), México (10), Chile (4), Argentina (3), Colômbia (2), Paraguai (1), Uruguai (1) e Peru (1). Estes números, no entanto, estão sempre propensos a mudanças - para mais, claro. A intenção da rede é dobrar a quantidade de meios de hospedagem com a bandeira econômica até 2016. Por aqui, o pipeline da companhia francesa inclui os primeiros ibis styles em São Paulo (SP), Balneário Camboriú (SC) e Palmas (TO). Pruvost também inicia 2013 após um fim de ano de mudanças. A segunda vinda para o Brasil foi mais do que planejada: foi desejada. "Ao retornar para França, tinha deixado claro que não queria ficar. Então isso estava meio combinado. O que não estava combinado era voltar para cá. Mas tinha contato com o Bonadona, e a Accor estava se reorganizando. O Steven [Daines] queria ir para lá, então acertamos a troca", conta. Em setembro último, em meio às conversões dos Formule 1 e à troca de identidade dos ibis, ele retomou as rédeas da agora chamada família ibis. "Acho que a marca casa bem com a mentalidade brasileira: descontraída, onde as pessoas podem se relacionar mais facilmente, não há uma grande distância entre o colaborador e o cliente, e entre os gerentes", opina. A nova fase da ibis pretende manter as características já conhecidas pelos hóspedes. "As marcas da família vão aproveitar da notoriedade que já temos no mercado, e elas serão complementares entre si. Vamos aproveitar o que já é bom para ser ainda melhor", finaliza ele. Contato franck.pruvost@accor.com

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