Gabriela Otto: A longevidade das empresas familiares


Gabriela Otto
(foto: arquivo pessoal)

"O negócio anda no ritmo do dono". Essa frase representa muito bem a essência da gestão familiar, independente de seu tamanho. 

A hotelaria independente continua dominando o mercado brasileiro com mais de 80% da oferta. Entre esses, não é raro encontrar hotéis onde os gestores são parentes.  E aí é onde novos desafios aparecem: Como dar um feedback de melhoria para seu marido? E aquele seu irmão com hábitos caros, que não gosta do que faz, mas continua lá, firme e forte, dando ‘pitacos’ (leia-se ‘atrapalhando’), e recebendo um gordo salário (além da  participação nos lucros) no final do mês? Como demitir sua tia? 

Começou a complicar, não é?

Ao longo dos anos, tenho encontrado famílias que conseguiram construir um relacionamento saudável e produtivo, enquanto outras mergulham nas ingerências e deixam os valores familiares de lado. E isso fica claramente refletido na entrega e no resultado da empresa.

Como entusiasta dos hotéis e negócios familiares em geral, principalmente pela sua essência genuína, e pelo perfil empreendedor dos seus proprietários, acredito que algumas coisas precisam ser abertamente debatidas. 

O mais comum é pensar que competitividade e crescimento de uma empresa familiar só é possível através da administração profissional, trazendo executivos do mercado. Sem descartar essa hipótese, que com certeza se faz necessária em alguns casos, vamos imaginar o mundo ideal. 
E se a gestão familiar tivesse a eficiência igual à profissional?

Os benefícios são incontestáveis: 

- Executivos eficientes que também são donos
- Maior comprometimento e interesse no negócio
- Agilidade e poder de decisão
- Gestores que não vão ‘procurar outro emprego’
- Pensamento de longo prazo, pois é o patrimônio da família que está em jogo

Perfeito, não é? 
Então porque tantas empresas familiares não conseguem se manter competitivas e crescer? Seguem os  três grandes dilemas:

1) Fundadores não pensam na sucessão. Não é a toa que somente 30% chegam à segunda geração, e apenas 15% à terceira. E acredite, ter vários parentes interessados no futuro dos negócios pode ser tão desafiador quanto ter que  lidar com o desinteresse geral da família.
2) Acionistas que estão no comando da empresa não sabem se relacionar com seus parentes (também acionistas) que não fazem parte da gestão.
3) Cultura do ‘cabide de emprego’, onde todos os jovens da família têm garantia de trabalho, independente da sua capacidade ou vontade de trabalhar.

Estabelecer regras é fundamental. Se não consegue sozinho, peça ajuda externa. 

E o tema é tão importante para a economia mundial, que a Harvard Business School tem investido cada vez mais no segmento. Eis o que revela John Davis, um de seus professores, considerado uma dos maiores especialistas em gestão familiar do mundo:

Um grande número de empresas familiares se tornam conservadoras demais ao longo do tempo.
Elas tendem a não enxergar mudanças em suas áreas: em tecnologia, na sociedades, de mercado, tendências.
Elas olham muito mais para dentro e não o suficiente para fora. E isso deve estar em primeiro lugar.
Além disso, são lentas em suas gestões transacionais, pois é importante trabalhar não só a próxima geração da família, mas também administradores externos. E o momento é ‘quando elas estiverem prontas para assumir’, e não quando você (dono) quiser abrir mão do controle.
Essa demora , às vezes, prejudica o bom desempenho do futuro gestor.

Ele finaliza dizendo que esses fatores são fundamentais e, se não forem trabalhados corretamente, podem matar uma empresa.
Portanto, para finalizar, seguem três conselhos do professor para você manter a longevidade da sua empresa:

1) Tenha sempre a perspectiva externa
2) Não fique para trás nas mudanças
3) Seja ágil nas transições

Se quiser se aprofundar no assunto, seguem algumas dicas:
- Site do John Davis - johndavis.com (em inglês) - vídeos bem interessantes.
- Instituto da Empresa Familiar (representante nacional da IFF) - www.empresafamiliar.org.br (em português e inglês) 
- FBN (Family Business Network) - www.fbn-br.org.br (associação sem fins lucrativos)
- Curso INSPER ‘Gestão de Empresas Familiares’

Conserve  seus valores familiares, e bons negócios!

** Gabriela Otto é formada em Comunicação Social pela PUC/RS, Pós em Marketing pela ESPM e MBA Executivo pela FAAP/SP, além de inúmeros cursos de qualificação profissional, incluindo uma certificação internacional para Leadership Development Trainer. Com 20 anos de trajetória em Marketing, Formação de Pessoas, Vendas Estratégicas, Canais de Distribuição e Revenue Management, Gabriela tem experiências marcantes em empresas como Caesar Park, InterContinental, Sofitel Luxury Hotels e Worldhotels, sendo responsável pela divisão América Latina nas duas últimas. Atualmente é Sócia Diretora da GO Associados, empresa especializada na Capacitação de Pessoas, Marketing, Mercado de Luxo e Hotelaria & Turismo. Além disso é Palestrante, Articulista, Blogueira e Professora da ESPM e outras universidades de renome.

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