Hermanos: há vida no turismo brasileiro se a crise argentina piorar?

Argentina - turista argentinoTurista argentino no calçadão: a cena continuará?

A eliminação precoce de Lionel Messi e cia no Mundial da Rússia foi só mais um capítulo da crise que nosso vizinho atravessa. Brincadeiras à parte, a Argentina vive neste ano uma instabilidade que relembra os piores momentos da economia local nos anos 1990. Com juros na estratosfera, inflação elevada, dólar em alta acelerada e sem reservas cambiais, o governo do presidente Mauricio Macri recorreu ao FMI (Fundo Monetário Internacional) para tentar arrumar a casa. Agora, o que isso tem a ver com o turismo brasileiro?

Bem, é muito simples. Já há muitos anos, o mercado argentino responde por cerca de 40% do fluxo de turistas internacionais do Brasil. Em 2017, segundo dados passados pelo MTur (Ministério do Turismo) à reportagem do Hotelier News, exatos 2.622.327 argentinos atravessaram a fronteira para nos visitar. Com o recrudescimento da crise econômica no país vizinho, qual será o impacto no turismo nacional? Fomos em busca dessa resposta ouvindo o trade turístico nacional.  

Argentina: conjuntura econômica

O mapa da crise financeira do país hermano teve origem na disparada da cotação do dólar, a partir de maio. De 2 de janeiro a 15 de maio, por exemplo, o peso argentino desvalorizou 31% frente à divisa americana. Em um único pregão, no dia 4 de maio, a moeda do Tio Sam disparou 8,6%.

A razão desse desequilíbrio foi a expectativa no mercado financeiro de que os Estados Unidos elevassem a taxa de juros mais rápido que o esperado – o que vem se confirmando. Esse movimento do Fed (Federal Reserve), o banco central americano, provocou uma onda de valorização do dólar no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Na Argentina, o buraco foi mais embaixo: nos últimos seis meses, enquanto a divisa americana subiu 13,9% (até 20 de julho) no país, na nação vizinha a alta verificada é de 48,3%.  

Para conter o desequilíbrio cambial, o governo Macri aumentou os juros, que chegaram a 40% ao ano – maior percentual do mundo. Outra consequência negativa foi a alta da inflação. Hoje, a taxa no mercado argentino é de 29,5% ao ano, que só perde para a Venezuela na América do Sul. Para efeito de comparação, no Brasil, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) está em 4,39% no acumulado dos últimos 12 meses. A realidade é que esses fatores combinados vêm tirando o poder de compra da população local.

Argentina: importância

De acordo com as fontes ouvidas pelo Hotelier News, ainda é muito cedo para avaliar os efeitos da crise econômica argentina no turismo brasileiro país. Ainda assim, em uma questão não reside qualquer dúvida: o mercado hermano é absolutamente estratégico para o Brasil.

"Além de dividirem fronteiras, Brasil e Argentina são parceiros estratégicos do turismo nacional. Cerca dos 98% dos argentinos que vêm ao Brasil afirmam que retornariam ao país", diz Vinicius Lummertz, ministro do Turismo.

Segundo Lummertz, a preferência dos argentinos pelas terras brasileiras se explica pelo câmbio “justo” e a oferta da rede hoteleira. A proximidade geográfica é outra razão, prova disse é que muitos hermanos entram no país por via terrestre. “Além disso, temos campanhas publicitárias da Embratur e o plano Brasil + Turismo, ações que integram o portfólio destinado à promoção do Brasil na Argentina”, comenta o ministro.

Marcos Swarowsky, responsável por Market Management para a América do Sul da Expedia, revela que a procura de argentinos pelo Brasil segue firme. "Continuamos observando crescimento muito alto de argentinos viajando para o Brasil, dobrando o número de viagens no primeiro trimestre de 2018, comparado ao mesmo período de 2017”, revela o executivo.

“Inclusive, as viagens para o Brasil não mudaram desde a desvalorização da moeda, mas ainda há espaço para crescimento. As principais cidades brasileiras visitadas pelas múltiplas plataformas do Grupo Expedia, em ordem, são: Rio de Janeiro, Búzios (RJ), Foz do Iguaçu (PR), Natal e São Paulo", acrescenta Swarowsky.

Argentina - Marcos Swarowsky - expediaSwarowsky: demanda argentina continua firme no país

Argentino e habitué da ponte-aérea São Paulo-Buenos Aires, Alejandro Moreno, CEO da Wyndham Hotels & Resorts para América Latina e Caribe, tem impressão similar. “Continuo vendo os voos lotados. A boa ocupação dos aviões é para mim um bom indicativo de que não haverá mudanças no curto prazo”, avalia.

Segundo Moreno, a população argentina tem hábitos de consumo similares a da brasileira. “Na Argentina, faz-se muita compra parcelada. Por conta disso, ele se aperta nas prestações, mas mantém suas viagens. Pode ser que deixe de ir para os EUA e Europa, mas acredito que continuará visitando o Brasil”, avalia.

“Além disso, embora menor, a alta do dólar também ocorreu no Brasil. Então, se o turista brasileiro consegue consumir com real em solo argentino, meus compatriotas não conseguem usar o peso para gastos correntes por aqui. Dessa forma, o dólar que ele compra para viajar está valorizado aqui também, o que lhe dá bom poder de compra", acrescenta.

Habemus argentinos: Maceió

Jair Galvão, secretário municipal de Turismo de Maceió, declara que a capital alagoana, mesmo com o cenário de crise na Argentina, continua recebendo muitos argentinos. No primeiro quadrimestre de 2018, o número de turistas hermanos que visitaram a cidade subiu 100% frente a igual período do ano passado.

A cidade, que recebe um voo charter da companhia aérea Andes, vindo de Córdoba, promove também ações de capacitação com agentes e operadores no país. "Cerca de 85% das entradas estrangeiras em Maceió são da Argentina, em sua maioria de Buenos Aires e Córdoba. Portanto, a reaproximação com esse mercado emissor, iniciada há quatro anos atrás, é muito importante para o fomento do turismo maceioense", diz.

Galvão conta que alta temporada de argentinos na cidade vai de janeiro e abril. Para 2019, Maceió pretende continuar seu investimento no mercado hermano, mas estuda alternativas para se proteger de uma eventual queda no fluxo turístico oriunda do país.

"Ainda não aconteceu conosco, mas no caso de uma reviravolta no mercado argentino na emissão de turistas, utilizamos uma alteração no fluxo de Maceió. Dessa forma, agimos em metas complementares, atraindo viajantes do Chile, Uruguai e Paraguai, no exterior, e em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, em âmbito nacional", finaliza.

turista argentinoGalvão: precaução e olho vivo em outros mercados

(*) Crédito da Capa: David Fernández/EFE

(**) Crédito da Foto: Douglas Shineidr/Jornal do Brasil

(**) Crédito da Foto: Vinicius Medeiros/Hotelier News

(****) Crédito da Foto: Divulgação/Secretaria Municipal de Turismo de Maceió 

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