Hotelaria em Niterói (RJ): há espaço para outras grandes redes?


Museu de Arte Contemporânea (Mac), na Boa Viagem: ponto turístico projetado por Oscar Niemeyer mais visitado da cidade

(fotos: divulgação e Rhaiane Sodré)
 

A hotelaria do município de Niterói, no Rio de Janeiro, passa por um momento de ascensão. Com a chegada de grandes redes na cidade e o aumento dos negócios na região metropolitana, com destaque para o setores naval e petroquímico, a expectativa de crescimento do destino, que fica a 13 km da capital fluminense, é positiva.

 

Segundo Liberato Pinto, diretor da Neltur, empresa de turismo de Niterói, o momento é de investir no desenvolvimento turístico do local com organização e gerenciamento de ações de responsabilidade pública, valorizando as tradições culturais e as belezas naturais.

Por Rhaiane Sodré


Visual do Parque da Cidade, local
onde é possível realizar vôo livre


“Baseados em consultas aos gerentes e reservas nos hotéis, estimamos que a média anual da taxa de ocupação chegou próximo ao patamar de 80% no primeiro semestre de 2008. Em 2002, apuramos em torno de 75 mil turistas (pernoite), saltando para 140 mil em 2007”, aponta o executivo, destacando que os estaleiros com muitas encomendas de plataformas offshore e até mesmo de navios de médio e grande porte são responsáveis por este aquecimento. “A Petrobrás, na fase inicial dos preparativos do Comperj, que será instalado em Itaboraí e São Gonçalo, com impactos importantes na economia de Niterói, Rio e demais municípios do entorno, também está ocupando nossos espaços de hospedagem”, completa.
 
Conhecida como Cidade Sorriso, Niterói dispõe de 1,6 mil leitos, considerando hotéis, flats e pousadas. Redes renomadas entraram no mercado do destino recentemente ao assumirem empreendimentos já existentes.
 
Fortaleza de Santa Cruz, outro ponto turístico do destino

 

“A presença das bandeiras internacionais melhora o grau e a qualidade de atendimento, tanto hoteleiro quanto gastronômico, ao oferecer o peso de experiência internacional. O Tio Sam Resort, agora Quality Hotel Niterói, da rede Atlantica (em Camboinhas), e o Mercure Apartments Niterói Orizzonte, da rede Accor (no Gragoatá), estão sendo reestruturados para melhor servir seus hóspedes e têm visão de futuro, pois a região metropolitana será alvo de grandes transformações nos próximos dez anos. Somos fortes concorrentes à sede da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016, principalmente agora que se anuncia uma concessão privada para o Aeroporto Tom Jobim”, detalha o diretor.

Teatro Municipal de Niterói

Para Alfredo Lopes, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Rio de Janeiro (ABIH-RJ), Niterói está recebendo cada vez mais organização e investimentos para o setor turístico.

“Projetos como o Niterói Bacana, uma ação de ordem urbana, já foram colocados em prática. A proximidade do estaleiro e a implantação de pontos turísticos assinados por Oscar Niemeyer, como o Museu de Arte Contemporânea e o Teatro Popular, assim como a restauração do centro da cidade, contribuem para o crescimento da procura tanto pelo lazer quanto pelo corporativo”, acredita.
 

Alfredo Lopes, presidente da ABIH-RJ

 

O executivo ainda afirma que ocorre um atraso na implantação de novos meios de hospedagem no destino, já que a demanda, principalmente a de empresas privadas, está sendo maior que a oferta.

  

Grandes redes 

“A Atlantica já queria atuar no estado do Rio de Janeiro. Fizemos estudos e pesquisas da cidade e detectamos que o potencial é forte. Nossa missão é conseguir o retorno do investimento imediatamente”, revela Sérgio Eduardo Candido, gerente geral do Quality Niterói.

 
Área da piscina do Quality Niterói. O empreendimento
fica próximo à bela praia de Camboinhas

Em agosto deste ano, um mês após o grupo passar a administrar o empreendimento, a ocupação já registrava bons resultados. “Fechamos com 52%, mas nossa meta anual é de 60%. No mesmo período do ano passado, o hotel teve 22%. A diária também aumentou, já que em 2007 era de R$ 179 e agora o valor chega a R$ 208”, destaca o profissional.
 
Sérgio Eduardo Candido, gerente
geral do Quality Niterói
 
A idéia é trabalhar com valores de acordo com o novo serviço oferecido, que preza um atendimento de qualidade. “Não queremos uma ocupação de 80% com diárias menores. Acreditamos que existe mercado para cada segmento, desde que ele seja bem definido”, explica Candido.



Restaurante Petrus do hotel, muito freqüentado por passantes


Outro projeto da rede na cidade é contribuir para aumentar o turismo de lazer. O corporativo tem a representação de 70% na ocupação do empreendimento, onde há seis salas para convenções, sendo uma com capacidade para até 600 pessoas. “Temos estudado a possibilidade de buscar parcerias com entidades locais para elevar a procura durante os finais de semana. Trabalhar com o mercado da terceira idade é uma possibilidade”, revela o gerente, que acredita na força de Niterói para ainda receber outras grandes redes hoteleiras.

 

“O que falta é investimento para tornar a cidade um destino turístico, já que há muitas belezas naturais e detalhes da história do Brasil. A sinalização precisa ser melhorada, assim como a divulgação e valorização do destino. A conscientização deve iniciar com os órgãos municipais, estaduais e federais para que seja descoberta uma verdadeira identidade para a cidade, como aconteceu com São Paulo por meio do bom trabalho realizado, principalmente pelo convention bureau local”, acredita.
 
Praia de Camboinhas, próxima ao Quality Niterói

 

Desde dezembro de 2007, a rede Accor assumiu um hotel no bairro do Gragoatá: Mercure Apartments Niterói Orizzonte, no qual o corporativo é responsável por 75% da ocupação.

Mercure Apartments Niterói Orizzonte, da rede Accor

“A localização é um ponto positivo, além da bela vista e segurança. Em julho e agosto atingimos aproximadamente 80% de ocupação com o resultado de receita de R$ 342.159 e R$ 428.964, respectivamente. A maioria dos hóspedes é formada por executivos de empresas petrolíferas ou prestadoras de serviços”, revela Marta Veronica Basaure, gerente geral do empreendimento, que possui 139 UHs e salão de convenção com capacidade para até 300 pessoas.
 
Vista de uma das UHs do hotel. Ao fundo, a ponte Rio-Niterói
  
“Nosso foco é possuir diferentes categorias de hospedagem para atender o cliente de acordo com suas exigências. Outro segmento para o qual temos bastante procura é o de eventos sociais. Acredito que o destino é próximo do Rio, só que menos violento, o que gera mais tranqüilidade”, conta a profissional.
 

Marta Veronica Basaure, gerente geral do hotel

 

Para Liberato, da Neltur, o cenário atual da cidade fez com que a hotelaria local repensasse seus serviços, observando a necessidade de inovação e melhor qualificação da mão-de-obra para ser mais competitiva. “Lançamos neste mês um programa de capacitação em turismo que irá atender a demanda em expansão de novos postos de trabalho. Também estamos trabalhando em conjunto com o Sebrae-RJ, a Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ) e a RioTur na construção da RedeTuris, que cumprirá o papel de uma Instância de Governança para o eixo Rio-Niterói, prevista no Plano Regional de Turismo, preconizado pelo Ministério do Turismo. Esta rede abrigará as entidades públicas do setor, a iniciativa privada, o sistema S (Sebrae, Senac, Sesc), associações comerciais, sindicatos, pólos comerciais e o terceiro setor. Suas funções estão sendo determinadas, sem prejuízo de ações pró-ativas para o turismo do Rio-Niterói, já desempenhadas com extrema competência pelo Rio Convention & Visitors Bureau na área de divulgação e promoção no exterior e pelo SindRio quanto à qualificação de colaboradores”, detalha.
 
Movimento do setor
“Assim que assumimos, em 2005, lançamos o Plano Niterói Turismo, com metas para até 2008, reunindo melhorias e intervenções em atrativos naturais e culturais, em torno de um plano de ação gerencial, tendo como peças importantes a consolidação de cinco centros de informação turística (Cits), a implantação de 200 placas de sinalização, a contratação de 30 estagiários para os Cits, a criação da linha de ônibus de turismo e a revitalização do Parque da Cidade, entre outras”, esclarece o executivo.

Solar do Amanhecer


Percebendo o crescimento do setor, o Solar do Amanhecer, que há oito anos realiza o trabalho de hospedagem associado ao de contribuição social (já que todo o lucro obtido no empreendimento é revertido para a instituição Lar da Criança), está recebendo inúmeros investimentos para conseguir se manter com boa ocupação no mercado.

 

“O salão de convenções ganhou novo piso, equipamentos modernos e foi ampliado. A atividade representa 80% dos nossos hóspedes, 70% deles da indústria offshore. A chegada das grandes redes não nos afetou, mas em contrapartida intensificamos o trabalho comercial realizado. Nossa ocupação tem sido, há três meses, de quase 100%”, conta Fátima Conque, gerente administrativa, acrescentando que outras melhorias serão realizadas no hotel, incluindo UHs, restaurante e área da piscina. “O treinamento dos colaboradores está sendo intensificado para agregar ainda mais valor aos serviços oferecidos”, completa.
 

Fatima Conque, gerente administrativa, Fernanda Lira, gerente comercial, e José Eduardo Tostes, gerente geral.
Todos do Solar do Amanhecer

 

Fernanda Lira, gerente comercial do hotel, aposta na diversificação de empresas para a comercialização. “Devemos tentar atender a todos não dependendo apenas de um interessado. A procura é grande e a cidade não tem hotel que consiga comportar todos os participantes de um grande evento”, explica.
 
Vista da piscina do hotel. À esquerda, ao
fundo, o catamarã de Charitas

 

A construção por meio da parceria público-privada de um centro de convenções com capacidade para 6 mil congressistas, tendo ao seu lado um hotel de apoio de 400 quartos, é um projeto que será implantado para buscar resultado econômico e mercadológico. “O local mais indicado é o centro da cidade, mais conhecido como a Concha Acústica, bem próximo à estação das Barcas, ao campus da Universidade Federal Fluminense (UFF) e ao futuro Centro Petrobrás de Cinema, a ser inaugurado em 2009. Este espaço será muito competitivo, pois ficará em local privilegiado e estratégico, contando com acessibilidade plena por mar e por terra, podendo até ser viabilizado um heliporto”, revela Liberato, destacando ainda o grande desenvolvimento do pólo de moda de Niterói, que gera movimento significativo com o eixo Rio-São Paulo.

 

O turismo de lazer não é o mercado que gera alta ocupação, apesar da cidade possuir inúmeros atrativos. Como a carência de opções de hospedagem é grande, a escolha de um lugar estratégico aliado aos investimentos adequados torna possível ser empreendedor na área. É o caso de Nelson Maia e Roberta Lamprecht, proprietários há quatro anos da pousada Itacoatiara Cama e Café, na região oceânica de Niterói, desde o ano passado  citada no Guia Quatro Rodas.
 

O casal Nelson Maia e Roberta Lamprecht, proprietários
da pousada Itacoatiara Cama e Café

 

“Sempre acreditei no destino e percebo que os visitantes que conhecem, gostam e acabam voltando pela tranqüilidade e beleza. Investir em Itacoatiara foi uma aposta certeira, mas é um desafio por ser um bairro residencial, caro e pequeno. Acredito que falta infra-estrutura melhor para o setor, como por exemplo, a sinalização”, conta Maia.
 
 

À esquerda, área de relaxamento oferecida pela com serviço terceirizado. À direita, bicicletas disponíveis para passeio

 
Com apenas cinco suítes e serviço personalizado, o empreendimento tem nos brasileiros 60% de seus hóspedes, sendo 20% do Rio de Janeiro e o restante dividido entre Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo. “O mercado estrangeiro tem a representação de 40%. O perfil é de pessoas que gostam de estar em contato com a natureza, mas não querem perder o vínculo com a tecnologia (a pousada oferece internet wireless gratuita) e com o estilo de uma cidade grande”, detalha o proprietário.
 
 

Pôr-do-sol da praia de Itacoatiara e a
ponta da pedra do Costão durante o dia

 

“Temos recebido muitos turistas que se hospedam na rede hoteleira do Rio para conhecer nossas maravilhas, incluindo o Mac, o Parque da Cidade, a Fortaleza de Santa Cruz e monumentos históricos restaurados. Nossas praias oceânicas, principalmente no verão e primavera, são muito disputadas pelos cariocas e fluminenses de outros municípios próximos. No fim do ano, Niterói fica muito aquecida por causa das compras de natal e especialmente pelo réveillon que realizamos nas praias de Icaraí e Piratininga, levando mais de 300 mil pessoas para os festejos”, fala o presidente da Neltur.

 

A divulgação de Niterói é feita por meio de parceria com a cidade do Rio de Janeiro utilizando os centros de informação turística da RioTur (Copacabana e Aeroporto Tom Jobim), da TurisRio (sede - centro do Rio) e do Píer Mauá.

 

“A permanência de empresários e técnicos na cidade por mais de três dias, fruto dos negócios, provoca um efeito multiplicador muito saudável na medida que ao conhecerem nossos atrativos nos intervalos de trabalho, passamos a contar com novos divulgadores de Niterói. Em alguns casos, o tempo de estada é muito mais longo, gerando contratos de maior duração com a rede hoteleira”, acrescenta Liberato.


Para apoiar os turistas e visitantes, assim como os moradores, nos fins de semana e feriados nacionais, a Neltur administra uma linha de ônibus de turismo, com o trajeto ao longo da orla da Baía de Guanabara, contemplando o Mac, a Fortaleza de Santa Cruz e o Teatro Popular, passando pelas belas praias de Icaraí, São Francisco, Charitas (catamarã para o Rio) e Jurujuba.
 
Praia de Icaraí, na Zona Sul da cidade

 

Agências de viagens
A demanda que Niterói proporciona às agências de viagens não é muito considerável, mas a tendência é que o quadro se reverta caso novos hotéis sejam implantados. Tendo em vista que a grande maioria dos turistas se hospeda na cidade a trabalho, as negociações são feitas diretamente com as empresas emissoras.
 
“A cada dia é notório o crescimento na procura principalmente pela indústria offshore. Os executivos preferem hotéis que fiquem próximos a opções gastronômicas e de lazer, o que é difícil de achar na cidade. A procura é grande para o que é oferecido”, aponta Raquel Fernandes, agente receptiva corporativa da Paulo Mello.

 

Já Robson Oliveira, que trabalha na mesma agência na parte do lazer, diz que o fluxo receptivo de turistas na cidade não é satisfatório e nem positivo. “Poderia ser feito um trabalho de divulgação maior, já que existem muitos pontos turísticos interessantes”.

 

Na Marsans, localizada na capital fluminense, o quadro é o mesmo. A procura por passeio na Fortaleza de Santa Cruz é o único raramente solicitado.
 
Planejamentos para o futuro
“Novos objetivos e metas serão formatados pela Neltur a partir de 2009, fruto da eleição de novo prefeito, a exemplo dos outros municípios. Uma política para a prática do ecoturismo e turismo de aventura em Niterói e que envolva o turismo náutico na Baía de Guanabara, em conjunto com a RioTur, é o estudo que ora nos dedicamos, visando um novo ciclo de realizações, com sustentabilidade”, diz Liberato.
 
Por sua vez, os meios de hospedagem locais se preocupam com a capacitação necessária dos colaboradores para atender uma maior demanda e clientes mais exigentes.

Serviço

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