Laugier: "O Brasil tem enorme potencial para o turismo de luxo"

Jean-Philippe Laugier, diretor de Vendas
& Marketing dos hotéis Fasano
(fotos: Chris Kokubo)

Simples e chique. É assim que Jean-Philippe Laugier, parisiense de 37 anos que responde pela direção de Vendas & Marketing dos hotéis Fasano, define os dois empreendimentos, um em São Paulo, outro no Rio.
 
Vivendo há menos de um ano na capital paulista, Monsieur Laugier largou tudo o que tinha na capital da França, vendeu seu apartamento e apostou na hotelaria brasileira. Escolheu, aliás, um grupo que traz o que ela tem de mais refinado. Ele afirma que quando conheceu o Fasano São Paulo, ainda em terras européias, decidiu: “é neste hotel que eu quero trabalhar”. Mandou o currículo e voilà. Não se arrepende de ter trocado a cidade-luz pela terra da garoa e confia na potencialidade do turismo de luxo brasileiro. Conheça um pouco mais do executivo na entrevista a seguir, feita com uma mescla de inglês, francês e português.
 
Por Chris Kokubo
 
Hôtelier News: Há quanto tempo você está no Brasil?
Jean-Philippe Laugier: Cheguei há dez meses, em fevereiro de 2008. Nasci em Paris e trabalhava na Leading Hotels of the World há dez anos quando conheci o Fasano São Paulo. A primeira vez que estive no Brasil foi em novembro de 2007, para a entrevista de emprego com o Rogério Fasano.
 
HN: Qual foi sua primeira experiência em hospitalidade?
Laugier: Comecei na área de reservas da Leading Hotels. Posteriormente fui promovido para o departamento de grupos. Um tempo depois saí para trabalhar num hotel quatro estrelas em Paris, o Lutetia, um Concorde Hotel. Eu era responsável pelo mercado europeu. Antes de regressar à Leading, trabalhei um tempo para a KPMG, que tinha uma representação hoteleira e procuravam alguém para responder pelo Hotel Byblos em Saint-Tropez e em Courchevel e pelo Ritz-Calrton Sharm El Sheikh (no Mar Vermelho).
 
Voltei para a Leading, dessa vez responsável pelo mercado francês e de Mônaco. Nessa época eu trabalhava para 450 hotéis e eu participava de apresentações semanalmente, de duas a três vezes por semana. E há cerca de dois ou três anos, quando vi a apresentação do Fasano São Paulo, eu disse: este é o hotel para o qual eu adoraria trabalhar.
 
Então, quando eles abriram a unidade do Rio de Janeiro, eu mandei uma mensagem e foi tudo muito rápido. Tive uma entrevista com o Rogério Fasano e outros executivos do grupo e fui contratado. Hoje sou responsável pelas vendas e marketing das duas unidades hoteleiras.
 
HN: Qual sua formação acadêmica?
Laugier: Estudei Administração Hoteleira em Nimes, no sul da França.

HN: Nesses dez meses, o que você pode dizer sobre o mercado hoteleiro brasileiro, mais especificamente o de São Paulo e do Rio, comparando ao que você estava acostumado na Europa?
Laugier: Primeiro de tudo, aqui o mercado é muito equilibrado no que diz respeito ao market share nacional e internacional. Temos aproximadamente 30% de ocupação de brasileiros, 30% de norte-americanos e 30% de europeus, tanto em São Paulo como no Rio.
 
HN: De onde vêm os hóspedes estrangeiros?
Laugier: Principalmente da Inglaterra e dos Estados Unidos.
 
 
HN: Qual é seu grande desafio sendo responsável por um
departamento de vendas aqui no Brasil?
Laugier: O grande desafio é sempre alcançar as metas, não importa onde você está. Um hotel é um hotel em qualquer lugar do mundo. O que muda são as pessoas. Os brasileiros são diferentes e eu tive que me adaptar a esta nova cultura, o que foi bastante desafiador no começo.
 
HN: Como é trabalhar com brasileiros?
Laugier: São pessoas que realmente trabalham com sentimento, têm um coração grande, são muito comprometidos. Eu contei com grande ajuda do meu CEO, Paulo Antunes. Os cariocas são diferentes dos paulistas, são mais tranquilos. Não digo que é pior ou melhor, é apenas diferente.
 
HN: Você fica sempre em São Paulo?
Laugier: Minha base é em São Paulo e eu vou a cada dez, 15 dias ao Rio de Janeiro, onde fico de dois a três dias.
 
HN: Qual é o público-alvo dos hotéis Fasano?
Laugier: São Paulo é um destino de negócios, então o foco é satisfazer esse tipo de cliente. O mercado corporativo é muito importante para nós. Estamos tentando atrair o turista a lazer, vendemos São Paulo como um destino para compras, com bons restaurantes, rica arquitetura e museus.
 
Foto do Fasano Rio disponível no site da Wallpaper Magazine
(foto: wallpaper.com)
 
No Rio é impressionante, porque é um destino de lazer, mas recebemos muitos hóspedes a negócios. Inclusive, em 2008 o Fasano Rio foi eleito como melhor hotel de negócios pela Wallpaper Magazine, que é uma referência, à frente de hotéis como o Le Meurice, em Paris, e o The Peninsula, em Tóquio, por exemplo, o que nos honra muito. É difícil porque somos o hotel mais caro do Rio de Janeiro, mas estamos na melhor localização, na praia de Ipanema. Utilizamos o renome da praia para incrementar as vendas.
 
HN: Quais são os planos de expansão da rede?
Laugier: Vamos operar em Trancoso, na Bahia, em Punta del Este, no Uruguai, e em Boa Vista, no interior paulista. Os empreendimentos devem ser inaugurados em dois anos. Faremos também uma obra de expansão desta unidade em São Paulo, com um edifício ao lado que terá 20 apartamentos. Estamos também em busca de novos destinos fora do Brasil, na América do Sul e em Nova York. O projeto novaiorquino teve de ser adiado por um tempo devido a crise mundial.
 
HN: E por que escolheram esses três novos destinos?
Laugier: Porque são ótimas localizações e ainda não oferecem um hotel de luxo de alta qualidade.
 
Home page do grupo. Clique para acessar
 
HN: Como é a relação dos hotéis Fasano com a concorrência?
Laugier: É muito boa. Aqui em São Paulo nós nos ligamos toda semana para conversar e discutir. É claro que brigamos pelos mesmos clientes, mas precisamos ser inteligentes. A relação já era boa antes da minha chegada, eu apenas a mantive assim. Além disso, conhecia os executivos todos da época em que eu trabalhava na Leading. No Rio a relação é um pouco menos próxima, mas também é saudável.
 
HN: Quanto da sua receita provém de eventos?
Laugier: Não muito, pois somos um hotel pequeno. Aqui em São Paulo temos um andar inteiro dedicado às salas de conferências, mas mesmo assim são apenas cinco. Nosso hotel foca em outro segmento.
 
HN: As pessoas vêm se hospedar no hotel por causa da boa
reputação do restaurante Fasano?
Laugier: Com certeza. O restaurante ajuda o hotel, especialmente no Brasil, já que aqui é muito bem conhecido. Trabalhamos muito para promover o hotel tanto quanto o restaurante e hoje sabemos que o meio de hospedagem já está bem estabelecido.
 
HN: O que o atraiu ao Fasano?
Laugier: O Fasano é chique e simples, é disso que eu gosto. Você pode ser chique sem carregar um monte de ouro. A maneira como os ambientes estão distribuídos, a recepção, o concierge, o bar, a mobília, a decoração, tudo é de bom gosto. Acredito que o Rogério Fasano é uma pessoa muito talentosa. Quando conheci o hotel, me apaixonei. Eu gosto de hotéis boutique, então tudo se encaixou.
 
Um dos apartamentos do Fasano São Paulo
 
HN: Quantas pessoas trabalham aqui?
Laugier: Aproximadamente 100. Temos um comitê de sustentabilidade que trabalha em diferentes projetos para encorajar ações ambientalmente corretas. Reciclamos, treinamos as pessoas para economizar água e energia, por exemplo.
 
HN: E sua equipe, conta com quantas pessoas?
Laugier: Tenho três pessoas em reservas - uma delas para grupos -, três para vendas e uma que coordena a equipe. No Rio, tenho uma pessoa para vendas, uma para grupos e três para reservas.
 
HN: Como é o seu dia-a-dia, quais são desafios diários?
Laugier: Primeiro temos que otimizar os nossos canais de distribuição, que são principalmente o GDS e a internet, ver se tudo está trabalhando bem. Precisamos também analisar com os nossos parceiros quais são as melhores oportunidades de mercado e marketing naquele dia, naquele determinado momento. Nossos principais parceiros são a Leading Hotels of the World, a Signature e a Virtuoso.
 
Devemos antecipar vontades e criar pacotes atraentes, além de viajar e visitar os clientes, que é o mais importante. É preciso ser flexível, aberto e receptivo para diariamente estar com agentes de viagens, parceiros e clientes. Na indústria de hotelaria a gente sempre trabalha muito.
 
HN: Você acha que o mercado hoteleiro brasileiro de luxo e de hotéis boutique está profissionalizado?
Laugier: Acho que, como aqui não há tantos hotéis de luxo, às vezes é difícil encontrar mão-de-obra qualificada. É claro que em Paris você encontra mais profissionais, já que lá há mais hotéis, mas no final do dia o que realmente conta é a conexão que você estabelece com aqueles que trabalham com você. Mesmo que seja uma pessoa sem experiência, se ela tem paixão e vontade de trabalhar vale a pena investir. Não é apenas o que está no papel que conta, mas o que está no ar, no coração.
 
 
 
Em quatro tempos, sentido horário: amenities, havaianas customizadas, ambiente voltado para cromoterapia e detalhe
na sala de massagem, tudo na unidade paulistana do grupo
 
HN: Como você vê a formação das universidades em hotelaria no Brasil? As pessoas que trabalham para você trazem uma boa bagagem?
Laugier: Ainda não conheço muito bem as escolas, mas acredito que, nesta indústria de hospitalidade, o mais importante é a paixão em servir, o quão longe você pode ir no serviço, no receber, o que você pode fazer para atingir a perfeição em diferentes setores. Você pode conhecer a pessoa mais inteligente, que estudou na melhor escola, mas se ela não tiver essa vocação, não vai bem-servir. É uma questão de paixão. Temos ótimos times em todos os departamentos do hotel. Os brasileiros são acolhedores, comprometidos.
 
HN: O que você acha que falta no mercado hoteleiro do Brasil?
Laugier: Acredito que o Brasil tem um enorme potencial para ser um destino de luxo e deveria ser vendido como tal. Temos uma associação que conta com diversos hotéis, chamada Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), que une forças para promover o Brasil como um destino de luxo, mas há muito a ser feito nesse sentido.
 
HN: Como foi o ano de 2008 para os hotéis Fasano?
Laugier: Melhor do que esperávamos. Tivemos recordes de ocupação em setembro, outubro e novembro. Em dezembro, os 20 primeiros dias foram muito bons, mas os últimos dez registraram pouco movimento. Fechamos em cerca de 67% de ocupação anual acumulada no Rio e R$ 1085 de tarifa média. Em São Paulo, onde nosso público é basicamente corporativo, tivemos 82,2% de ocupação e R$ 981 de DM. No Rio recebemos principalmente hóspedes paulistas.
 
HN: Que conselho você daria a um recém-formado que queira atingir uma posição como a sua?
Laugier: Eu diria que os requisitos mais importantes nessa profissão são o compromisso, a paixão em servir e a paixão por pessoas, tanto pelo time no qual você vai trabalhar quanto pelos clientes. É importante também ter criatividade, é um trabalho em que você sempre tem que criar e se adaptar. Além disso, é preciso ser muito positivo.
 
  
Piscina climatizada, o relógio que pode ser visto enquanto o hóspede se refresca e a moldura em vidro murano de uma das gravuras na UH: "os clientes adoram", garante Laugier
 
HN: O que você gosta de fazer quando não está trabalhando?
Laugier: Dormir... (risos). Não, brincadeira. Eu ainda não tive muito tempo de viajar pelo Brasil, mas aqui em São Paulo gosto de sair com amigos, ir a restaurantes. Não sou casado, não tenho família aqui. Deixei tudo que tinha na França pelo Fasano, meu apartamento, meus amigos, minha família e não me arrependo. É uma ótima oportunidade, com ótimas pessoas, uma equipe ótima e hotéis sensacionais.
 
HN: Que cidade você prefere, São Paulo ou Rio?
Laugier: Gosto das duas. Vivo em São Paulo, por isso tenho mais experiência aqui. Quando viajo ao Rio, vou para o hotel e trabalho, então ainda conheço pouco da cidade.
 
HN: E o que é melhor de se vender: Rio ou São Paulo?
Laugier: Ambos, pois são diferentes e semelhantes ao mesmo tempo. Não são fáceis de se vender, mas são duas propriedades muito boas. Claro que no Rio, por ser um hotel novo (inaugurado em agosto de 2007), as pessoas tendem a estar mais interessadas, mas o Fasano São Paulo, que completou cinco anos, está bem consolidado no Brasil e no exterior. Temos uma imagem forte. É difícil porque o mercado é competitivo e as companhias e os clientes sempre querem preços menores. Todo dia é um desafio.
 
No primeiro ano de operação, atingimos no Rio o que esperávamos de taxa de ocupação e mais do que projetávamos para diária média, cerca de 10% e 38% a mais, respectivamente, do que o nosso principal concorrente carioca.
 
HN: Que tipo de ação você trouxe da Europa para o departamento de marketing e vendas do Fasano?
Laugier: Todo mundo que assume um novo cargo traz um sabor novo para o empreendimento. Eu não diria que eu trouxe tudo aquilo que eu fazia na França, mas quando cheguei, a primeira coisa que fiz foi ver como as pessoas estavam trabalhando. Analisei, tentei ver o que eu poderia fazer para o hotel e para a equipe. Não é possível ter um bom trabalho com pessoas infelizes. Primeiro, é preciso fazer sua equipe feliz. Tive reuniões para saber quais eram as expectativas de cada um, saber o que eles queriam, organizei ações com o departamento pessoal. Cada dia é um desafio. É preciso vencê-lo e manter o sorriso e o prazer em trabalhar.
 
O verde do bairro dos Jardins
visto de um dos apartamentos
 
HN: Existe algo que você costumava fazer na Europa que não pode fazer aqui, por ser uma cultura diferente?
Laugier: Trabalhando com mercado internacional, não há tanta mudança. No entanto, na Europa as pessoas são muito mais diretas no trabalho: "faça isso, faça aquilo e pronto". Aqui é preciso ser mais gentil com sua equipe. Com os clientes, em geral, não há muita diferença.
 
HN: Você planeja ficar no Brasil por um longo período?
Laugier: Eu adoraria, é um país lindo, com pessoas ótimas e boas oportunidades de trabalho no grupo Fasano.
 
HN: Em quais cidades você já morou?
Laugier: Além de Paris, morei em Londres por um ano e no sul da França durante a faculdade.
 
 
 
HN: Entre Paris, Londres e São Paulo, qual você diria que é a melhor cidade para se viver?
Laugier: As três cidades são muito diferentes. São Paulo é gigantesca, então as distâncias são muito grandes. Eu gosto muito de morar no Brasil, as pessoas são mais receptivas, mais até do que no sul da França.
 
HN: Qual é o seu restaurante favorito em São Paulo?
Laugier: Vou ser muito franco. Eu trabalhei para a Leading Hotels e fui convidado a conhecer os melhores lugares, os palacetes franceses mais requintados. A melhor experiência gastronômica que eu tive na vida foi no restaurante Fasano com o Rogério Fasano. Chique e simples.
 
HN: E, para finalizar, qual é o seu lugar favorito na cidade?
Laugier: Acho a Oscar Freire sensacional. Gosto de parques, de caminhar. Moro perto da Teodoro (Sampaio) e gosto muito, acho a rua muito legal. Preciso conhecer mais do Brasil. Fui para Ilhabela, adorei, para a Ponta dos Ganchos, muito especial, e para Boa Vista, um lugar ótimo. Tive que me concentrar tanto no começo no meu trabalho que é agora que vou começar a ter mais tempo livre para conhecer e viajar.
 

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