Móris Litvak: A quebradeira das operadoras e...

Móris Litvak

Primeiro foi a Nascimento.  Ou pelo menos o primeiro caso neste ano com grande repercussão. Agora, há poucos dias, ficamos sabendo que uma operadora está se “reestruturando” fechando filiais, outras encerram as atividades, uma outra fecha e os donos se mudam para a Espanha e agora uma muito tradicional, a Designer Tours também resolveu parar.  Várias outras menores não chegam a ser notícia.

Será que é somente a crise econômica que estamos passando a responsável por este processo?  O governo, com seus déficits segue em frente, emitindo títulos da dívida a juros cada vez maiores, “pedalando” seus gastos ou simplesmente fazendo hora extra na casa da moeda. E as empresas (incluindo as do turismo)?  Chega uma hora que o endividamento breca novos empréstimos ou provoca o corte do crédito junto aos fornecedores.  Aí...  É isso o que vem acontecendo.

Eu já disse em artigos anteriores que não acreditava no modelo de operadora a longo prazo.  A crise só veio acelerar o processo.  O modelo em que eu também ponho minhas dúvidas é o das consolidadoras.  Quem é o grande cliente das operadoras e consolidadoras?  É o agente de viagens, já condenado à morte muitas vezes e que teima em ressuscitar. 

Lembram-se do vídeo cassete? Quando surgiu, todos garantiram:  é o fim do cinema.  Tente ir ao cinema sem comprar ingresso com antecedência.  Só se for na seção da meia noite. E olhe lá.  Eu nem sequer  tive aparelho de vídeo cassete. Aí veio o DVD e mais recentemente o Blue Ray...   Eu tenho um DVD player, só uso para ouvir música.  Tenho uma TV, onde posso acessar a Netflix, o YouTube, “n” canais a cabo, etc, etc, mas gosto mesmo é de ver filme no cinema.  A julgar pela lotação dos cinemas, não sou o único...

Você sabe de algum caso de rede de lojas (físicas) que tenha fechado todas as lojas e se concentrado totalmente nas vendas online?  A loja virtual das grandes cadeias do varejo é um complemento das suas operações físicas.  Não sei de plano algum de nenhuma grande rede de fechar todas as lojas para vender somente pela internet, nem no Brasil nem em outro país. Aliás, sei do contrário.  A Amazon, a Aplle, o Hotel Urbano, etc, passaram a abrir lojas físicas.  Quando não é esse o caso, utilizam-se largamente das mídias tradicionais para anunciar (como a Decolar, e agora também a Booking). 

Dito isto, é fácil concluir que para o grande público abandonar costumes antigos não é nada fácil.  Porque eles têm seus atrativos e conveniências. E não adianta dizer que a geração X, Y ou Z vai mudar tudo, porque essa turma frequenta as lojas, os cinemas, etc.  Todo mundo sabe. E o que tem isso a ver com as agências de viagem?  

Acho que vão sobreviver do mesmo jeito.  Assim como as livrarias perderam clientes para a Amazon, deu para ver que existe mercado para as lojas físicas.  Ao mesmo tempo em que surgiu a Amazon, surgiu no Brasil uma grande rede de livrarias, a Cultura, e mais um sem-número de outras independentes. E creio que tudo é uma questão de adaptação aos tempos. Quem já viu a propaganda da Booking na televisão, pôde observar que a família que chega ao hotel está num grau de ansiedade quase explosivo, pois, tendo feito sua reserva sozinho, o pai não tem certeza do que vai encontrar. Suponho que se essa reserva fictícia da propaganda tivesse sido feita numa agência, com a ajuda de um profissional capacitado, a chegada ao tal hotel seria totalmente diferente, com a certeza do que ali lhes aguardaria.

As agências estão perdendo mercado?  Sim, também disso não há dúvida.  Mas vai continuar existindo o seu espaço e os seus clientes, que descobrem quanto tempo se perde (convenhamos que não é fácil) quando se vai comprar um simples bilhete aéreo, fazer uma reserva de carro, de hotel, etc, ou várias, dependendo da viagem.  

Tem ainda muita crise e muita inovação pela frente, até que os mercados e as empresas de um modo geral saibam em que pântano estão pisando.  Vamos aguardar para ver os próximos capítulos.

* Formado em engenharia pela USP, Móris Litvak trabalhou na indústria de computadores quando esta surgiu no Brasil e, mais tarde, em assistência técnica. Fundou a WebBusiness em 1996, que iniciou fazendo sites, tendo concentrado-se em sites para hotéis e logo focado em reservas online. Em 2013, a WebBusiness foi vendida a um grupo europeu e atualmente ele comada a easyHotel, voltada ao fornecimento de tecnologia para pequenos meios de hospedagem.

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