No Dia Internacional da Mulher, o papel feminino crescente na hotelaria

Parte das mulheres atuantes no mercado de trabalho ainda se sentem preteridas

A igualdade de gênero é um dos temas mais atuais no ambiente de trabalho. Embora muitas empresas tenham projetos para descobrir, utilizar e reconhecer, em igual medida, profissionais de diferentes sexos, o debate ainda gera muito debate – e também certa polêmica. Recente levantamento vale como exemplo: pesquisa da Workana – plataforma de trabalho freelancer com atuação em toda a América Latina – mostra que 90% das mulheres sentem que os homens são mais respeitados no mercado de trabalho. E no segmento hoteleiro, qual a impressão das profissionais do setor?

O relatório da Workana ouviu 1,5 mil mulheres de diferentes áreas de atuação. Na avaliação da maioria delas, o horizonte é de melhora no que se refere à igualdade de gênero. Mais de 69% das pessoas ouvidas, por exemplo, acreditam que as mulheres tiveram maior poder de decisão no último ano. Uma fatia bem maior, de 95%, compreende que esse foi um passo importante para que o assunto seja ainda mais discutido em 2018. 

No Dia Internacional da Mulher, o Hotelier News abre espaço para ouvir impressões e opiniões de trabalhadoras atuantes em diferentes cargos e contextos dentro da indústria de hospitalidade. Na prateleira das ações que já repercutiram no mercado, vale citar o projeto WAAG (Women at Accor Generation), da AccorHotels. Criada em 2012, a iniciativa global incentiva a cultura da diversidade em todos os níveis hierárquicos da rede francesa, especialmente nos cargos mais estratégicos. Não à toa, o comitê latino-americano de administração da empresa tem significativa presença feminina. 

Entre as companhias nacionais, a Slaviero Hotéis também é outro bom exemplo. Nos últimos cinco anos, a presença de mulheres em cargos de liderança cresceu 20%. Outra referência positiva neste sentido é o Radisson Blu, da Atlantica Hotels, empreendimento que tem predominância de mulheres em cargos diretivos. Houve ainda um resultado coincidente na unidade: nos últimos dois anos, a presença do público feminino no hotel aumentou mais de 20%. 

Entretanto, destaques femininos no mercado hoteleiro não estão apenas nas cadeiras de coordenação. Dentro da estrutura de hotéis, há uma variedade de funções que ficaram culturalmente associadas ao "sexo frágil". As tarefas de arrumação principalmente. Ana Paula Vianna dos Santos, supervisora de Governança no B&B Hotel São José dos Campos (SP), percorreu todas as funções relacionadas ao arranjo do meio de hospedagem antes de chegar à supervisão. "Acredito que seja reflexo de uma construção cultural. Desde a infância somos ensinadas a enxergar com mais atenção detalhes de arrumação", palpita. "Geralmente, os homens não tem a visão tão apurada para isso", completa. 

Ana Paula: de comuim à supervisora de Governança

Antes de migrar para a governança foi cumim, garçonete, compradora e chefe de A&B, entre outras funções exercidas conforme a necessidade do hotel. Hoje, preenche suas horas de trabalho ministrando treinamentos e passando pelos andares para revisar o trabalho de sua equipe.

Aos 39 anos, Ana Paula está no ramo desde os 19. Sua formação aconteceu na prática, nos corredores e saguões. Nesse tempo viveu experiências boas e outras mais difíceis de esquecer. "Quando ainda trabalhava como garçonete, um hóspede me pegou pelo braço no momento em que fui entregar um pedido", lembra. "Quis me arrastar para para dentro do apartamento. Na hora, de tão surpresa, não consegui gritar. Por sorte ele derrubou a chave e consegui escapar". Investidas como essa, segundo a profissional, não são mais tão recorrentes, mas ainda acontecem. "Algumas pessoas acabam confundindo a atenciosidade que tem que haver na nossa área com liberdade. Isso é um problema", pondera. 

Agora no papel de dar orientações, a supervisora cuida de alertar funcionárias mais novas sobre incidentes que possam ser parecidos. "Temos que prestar um bom atendimento, com simpatia, mas determinando nosso espaço", pontua.

Em outra função dentro de um hotel, Stephanie Vieira, recepcionista do Radisson e do Comfort Alphaville, já teve que driblar algumas insinuações de clientes. "Houve alguns convites para jantar, alguns pediram meu telefone, mas nada além disso. Nunca tive nenhum episódio mais agressivo", relata. Do balcão da recepção, a paulista de 27 anos assegura que o fator gênero não exclui ninguém das possibilidades que constantemente aparecem de promoção dentro do hotel em que trabalha. "O departamento de Recepção tem mais equilíbrio entre os sexos e todos nós concorremos em iguais condições a novas vagas. O talento e a determinação contam mais", reflete.

Stephanie VieiraStephanie está na Atlantica há sete anos

Stephanie está na Atlantica Hotels há sete anos e tem planos para alçar novos voos na empresa. "Quem sabe ir para outras áreas, ingressar na faculdade de Direito e unir isso ao mercado de hotéis", conjectura. Para manter seus objetivos intactos, a recepcionista olha para exemplos da casa. As gerentes das duas unidades em que ela trabalha são mulheres e a rede tem um histórico de executivas líderes no país.

Em outra unidade paulista da marca Radisson, Ana Carolina Soares, supervisora de recepção, reforça a igualidade de salário entre sexos no setor. "Como a maior parte da mão de obra é feminina, não vejo essa variação de salário. Em outros setores concordo que possa existir essa diferença, mas na hotelaria não vejo isso", opina.

Privilégio da mulher: gravidez

Prerrogativa feminina, a gravidez é outro assunto espinhoso na relação das mulheres com o mercado de trabalho. Para construir com bases mais sólidas sua carreira, algumas profissionais protelam a maternidade ao máximo, receosas de perderem espaço enquanto assistem seus filhos recém-nascidos. Ana Paula, do B&B, foi mãe recentemente e vive a apreensão de ter que se ausentar do trabalho por uma eventualidade com o filho.

"Quando a criança é muito nova fica com a imunidade baixa e acaba dependendo muito do cuidados dos pais. Às vezes fico preocupada, receosa em faltar muito e perdeu meu emprego", confessa. "Acredito que, quando o funcionário dá mais orgulho que decepção, há compreensão por parte do empregador", avalia. "Ter o suporte da gerência também é fundamental", acrescenta.

Sobre os eventuais problemas da gravidez, Ana Carolina destaca a polivalência feminina para mostrar que boas profissionais podem sobressair. "Acho que hoje a mulher é polivalente. Consegue fazer várias coisas ao mesmo tempo e, muitas vezes, tem ajuda de familiares, amigos, escolas. Com isso, conseguem conciliar carreira e família", pondera. "Não tenho filhos, mas com quem convivo vejo isso. Muitas delas têm auxilio e ainda conseguem conciliar os trabalhos de casa."

Stephanie, das unidades Atlantica de Alphaville, cumpre o outro perfil: ainda não tem planos para ter filhos e prioriza a carreira atualmente.

Ana Carolina, do Radisson Vila Olímpia

Ações efetivas

Alguns países pelo mundo já estão mais avançados na questão de equilíbrio entre gêneros. É o caso da Islândia, que colocou em vigor uma lei considerando ilegal a diferença salarial para profissionais que ocupam a mesma posição. A regra vale tanto para órgãos governamentais, quanto para empresas do setor privado com mais de 25 funcionários. O método de fiscalização é um certificado comprovando que há equidade salarial para seus colaboradores. Sem isso, as organizações são punidas com multas. Essa é uma das principais bandeiras de mulheres ao redor do mundo e a nação europeia foi a primeira a agir com uma medida radical nesse sentido. A intenção do governo islandês é erradicar a disparidade salarial entre homens e mulheres até 2022.

* Fotos: pixabay/Kabonpics e arqivo pesoal

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