O pior hóspede do mundo

Pior hóspede - Fairmont EmpressO Fairmont Empress fica em Victoria, na província de British Columbia

Imaginem a cena dantesca: o hóspede retorna ao apartamento após um passeio e se depara com 40 gaivotas esbaldando-se em um banquete regado a pepperoni apimentado. Em meio a esse cenário surrealista, a invasão dos pássaros era o menor dos problemas. Excrementos aqui e ali, do chão à janela, do banheiro à cama, conferiam um “drama” extra à situação. Pois bem, acredite se quiser, isso tudo existiu e rendeu o banimento desse hóspede de um hotel canadense para sempre. Fake News? Nada disso, saiu até no New York Times...

Nick Burchill é um canadense de Dartmouth, na província de Nova Escócia, quase na divisa com os Estados Unidos. Em 2002, ele viajou para Victoria, em British Columbia, para uma conferência, hospedando-se no elegante The Fairmont Empress. Vendedor de sonares submarinos, Burchill decidiu aproveitar a ocasião para visitar amigos da Marinha canadense, que, assim como ele, estavam na reserva. Na bagagem, além de roupas e documentos, quilos e mais quilos de uma iguaria da sua cidade natal: pepperoni da fabricante de embutidos Chris Brothers. “Trouxe o suficiente para um navio inteiro, e extra apimentada, tá?”, destaca Burchill, em entrevista por e-mail comigo.

Como o encontro com os amigos era apenas à noite, e ele acabara de fazer chech-in, Burchill resolveu sair para uma caminhada pela cidade. Como não havia geladeira no quarto, teve a “brilhante” ideia de deixar a janela aberta para permitir que o gelado ar do outono canadense preservasse seus quilos de pepperoni, que estavam sobre uma mesa.

Ao retornar para o hotel, Burchill viveu o caos citado na abertura da matéria. “Não ouvi nada do lado de fora do quarto. Quando abri a porta foi uma loucura. As gaivotas já estavam comendo todo meu pepperoni por cerca de cinco horas. Você pode imaginar como estava o apartamento, não?”, disse Burchill. 

Pior hóspede do mundo?

Quando a administração do hotel percebeu o problema já era tarde demais. Pedaços de pepperoni, excremento e muitas penas estavam por toda parte. “Olha, até eu chegar elas deviam estar bem relaxadas. Acho que isso piorou a situação. Foi como uma explosão”, lembra Burchill. “Você consegue imaginar o que o pepperoni do Chris Brothers pode fazer com o sistema digestivo de uma gaivota”, completou.

Em vez de chamar a governança, Burchill quis resolver o problema sozinho. Abriu as janelas e tentou expulsar, uma a uma, as gaivotas. Outra péssima decisão. Vale destacar que tudo isso aconteceu durante o tradicional chá da tarde do The Fairmont Empress, uma dos mais concorridos da cidade.

“A imagem da governanta assim que ela entrou no quarto continua fresca na minha memória. Efetivamente, não sabia o que dizer para ela. Então, resolvi apenas falar ‘desculpe’ e saí para jantar”, relembra. Em um programa de rádio recente, quando questionado se não teria sido uma boa ideia chamar ajuda, Burchill disse que “achava que conseguiria resolver sozinho”. Bem, obviamente ele estava completamente errado.

Além de multa em cima da diária, a direção do The Fairmont Empress escreveu uma carta para a empresa de Burchill. O recado era claro: o funcionário jamais poderia colocar os pés novamente no hotel. “Resolvi respeitar o pedido do hotel por 17 anos, mas chegou a hora de ‘limpar’ minha barra”, disse-me Burchill em nossa entrevista.

Pior hóspede - Nick Burchill Burchill em seu inusitado pedido de perdão ao staff do hotel

Final feliz

E foi exatamente o que ele fez. Em março, durante visita a Victoria, Burchill foi até o The Fairmont Empress pedir perdão. Identificou-se na recepção e conversou com o staff, enfatizando o quanto havia amadurecido desde então. Na cabeça dele, talvez as cicatrizes do caos de excrementos e penas de gaivotas por toda parte haviam cicatrizado 17 anos depois. Por que não?

Para completar, Burchill escreveu uma carta para o gerente geral do hotel, reiterando seu pedido de desculpas. Em paralelo, ele produziu um longo texto em seu perfil de uma rede social (leia na íntegra aqui), publicando uma foto (acima) do seu encontro com a equipe do The Fairmont Empress. Antes tarde do que nunca, né? 

Dois dias depois, o perdão veio de maneira oficial, por meio de um telefonema de Indu Brar, gerente geral do The Fairmont Empress. “Preciso admitir que toda essa situação divertiu toda equipe do hotel durante a semana inteira”, disse Brar, em entrevista ao New York Times.

Perdão dado, e agora? Perguntei a Burchill se ele tinha planos de voltar a se hospedar no hotel. “É claro. É um hotel muito agradável e os funcionários são maravilhosos. Darei o meu melhor para não ser banido novamente. Espero que a vida selvagem colabore comigo da próxima vez”, finaliza.

OBS: seu post no Facebook viralizou rapidamente nos Estados Unidos e Canadá. Até hoje (25), o texto tinha mais de 8,2 mil compartilhamentos, 9,2 mil curtidas e quase 200 comentários. Foi isso que provocou o interesse do New York Times.

OBS 2: você hoteleiro, conte sua história bizarra/engraçada para nós. Garantimos que manteremos o hotel, bem como os participantes da situação, em completo anonimato.

(*) Crédito da capa: Capri23auto/Pixabay

(*) Crédito da foto do hotel: Divulgação/Fairmont Empress

(*) Crédito das fotos: Nick Burchill/Perfil do Facebook

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