Pantanal Mato-Grossense: ecoturismo no coração do Brasil


Tuiuiú, ave símbolo do Pantanal
(fotos: Chris Kokubo)

A observação de pássaros sempre foi um assunto que me instigou. Não propriamente por me atrair. Aliás, longe disso. O que me chamava a atenção era justamente o contrário. Eu não entendia como é que os estrangeiros vinham de tão longe somente para ver passarinho no Brasil. No Pantanal, consegui compreender. Não tem como não sentir vontade de acordar bem cedo, achar um bom local de observação e, munido de binóculos, passar horas em silêncio só olhando, apontando para as diferentes espécies, deixando que a audição oriente a visão.
 
 
É aqui que tudo começa. Junto ao portal da Transpantaneira,
um ninho dá boas-vindas aos que chegam
 
No Pantanal os dois tipos de turismo principais são o de pesca e o contemplativo. Tentando desvendar a hospitalidade local, a equipe do Hôtelier News viajou até o Mato Grosso, onde está um terço do ecossistema (os outros dois terços do Pantanal estão no Mato Grosso do Sul) e conheceu a hotelaria que se fez basicamente a partir das fazendas pantaneiras.

 

* Por Chris Kokubo
 
Bem no centro da América do Sul fica o Pantanal
(imagem: wwf.org.br)
 
 
 
A vista em 360° em cima da torre construída para observação no Araras Eco Lodge. A primeira foto, em direção ao sul, a segunda,
oeste, a terceira, norte, e a quarta, leste
 
Um cervo atravessa a Transpantaneira

 

O Pantanal é a maior planície alagada do mundo e apresenta duas estações bem distintas: seca - de maio a outubro - e cheia - de novembro a abril. A baixa declividade do Rio Paraguai faz com que se formem grandes baías alagadas ou extensas áreas de campos. Para se ter uma idéia, uma garrafa colocada na água em Cáceres demoraria seis meses para atravessar o Pantanal, literalmente na velocidade de uma tartaruga. Na seca, o Rio Piquiri tem 8 Km². Em períodos de chuva, sua área é 31 vezes maior.
 
Estivemos por aqui em meados de maio,
quando as águas começam a baixar

 

Com 250 mil m², o ecossistema abrange, além do Brasil, área ao norte do Paraguai e a leste da Bolívia. Quando o assunto é biodiversidade, os números são expressivos: segundo a WWF Brasil, há 263 espécies de peixes, 122 de mamíferos, 93 de répteis, 1.132 de borboletas e 656 de aves. Os jacarés e as capivaras são os animais mais fáceis de se avistar. Praticamente inofensivo - ele só ataca se se sentir ameaçado -, o jacaré tem sua população controlada pelo Ibama. São calculados cerca de 40 deles para cada pessoa.
 
Duas araras azuis. No destino não é difícil
avistá-las, no entanto a espécie está
ameaçada de extinção
 
 
 
Os passarinhos podem vistos no chão, no poleiro onde se alimentam, no tronco ou nos galhos. Eles estão por toda parte
 
Nesta copa contamos oito araras azuis
 
Quando o sol se põe, é hora de procurar
uma árvore para passar a noite

 

A principal atividade econômica da região é a pecuária. Aos poucos as fazendas de gado vêem o turismo como fonte de renda. Além disso, o Pantanal norte (no Mato Grosso) conta atualmente com 27 pousadas - a maioria delas mantém a criação de gado paralela à hotelaria.
 
Para cada pessoa há seis cabeças de gado no Pantanal
 
 
Uma das atividades recorrentes é a cavalgada, tanto por
áreas abertas quanto em outras em meio às árvores
 
 
Capivaras e jacarés convivem em harmonia separados...
 
...ou juntos
 
Para evitar a superlotação de jacarés, o Ibama controla a criação. Esses aqui vão virar bolsa e sapato, além de item de menu nos restaurantes do Brasil e do exterior
 

André von Thuronyi foi um dos primeiros hoteleiros a chegar na região. “Na verdade, eu virei hoteleiro para conseguir oferecer serviço de qualidade aos clientes da minha operadora”, afirma. Carioca formado em Engenharia, André é proprietário do Araras Eco Lodge. “Arrendamos o hotel em 1988 e em 1996 resolvi me mudar para cá, em busca de qualidade de vida. Optei pelo Mato Grosso por ser o único estado brasileiro em que a gente encontra Amazônia, Cerrado e o Pantanal. O potencial disso aqui é gigantesco”, declara.
 
 
Araras Eco Lodge, uma das pioneiras no Pantanal
 
 
Thuronyi explica a riqueza do ecossistema da região ao caminhar
com os hóspedes pelo hotel. À direita, o guaraná pantaneiro
 
A passarela do Araras Eco Lodge leva à sua torre de observação

 

Thuronyi explica que o turismo do Pantanal recebe principalmente visitantes estrangeiros: “Dos nossos hóspedes, 62% são europeus e 20%, americanos e canadenses. Por isso nossa alta temporada é nos meses de férias no hemisfério norte, de junho a agosto”.

Florêncio Sávio, o Bugrinho, gerente geral do Pantanal Mato Grosso Hotel, afirma que em junho e julho o público é majoritariamente brasileiro e em agosto e setembro, europeu.
 
 
O Pantanal Mato Grosso Hotel oferece 35 UHs. Bugrinho, hoje gerente geral, começou como assistente de Serviços Gerais
e está há quase dez anos no empreendimento
 
O jacaré, tranqüilo, em final de tarde
 
 
O passeio de barco é outra atividade que não pode faltar. O guia mostra os dentes afiados de uma piranha, comum nessas águas
 
 
O macaco já está acostumado com a presença do homem.
Vem até comer banana na mão
 
 
Calango e mais jacaré
 
À noite, surpreendemos e fomos surpreendidos pelo lobinho

 

Alta temporada representa cerca de 60% de ocupação, com diária média de R$ 330. Na baixa, a ocupação cai para cerca de 32%. “Temos sentido muito o efeito da saída da Varig do mercado e a queda do dólar. O ano passado foi desastroso, mas esperamos começar a recuperar a partir desta temporada que está para iniciar”, declara Thuronyi.
 
 
A flora do Pantanal é tão exuberante quanto sua fauna
 
 
E variada também. Em uma terra onde
predominam as águas, tem até cactos

 

O proprietário da Araras Eco Lodge é também o presidente da associação de hoteleiros locais e diz que a hotelaria da região tem evoluído muito positivamente. “Sou mais um ecologista do que um hoteleiro. Tentamos mostrar com trabalho de qualidade que agregar valor turístico pode resultar em preservação ambiental. Nosso meio de hospedagem é uma das referências, tanto em instalações quanto em serviço. Queremos que as pessoas saibam que o turismo pode trazer mais riqueza para a fazenda do que o desmatamento, as queimadas, a pecuária irresponsável”, afirma. “Meu projeto é o Pantanal”.
 
 
A moda de viola faz a trilha sonora da viagem. Todos
os hotéis oferecem apresentação de violeiros

 

Os meios de hospedagem da região contam no máximo com 25 apartamentos cada, com exceção do Sesc Pantanal (132 UHs), o Pantanal Mato Grosso Hotel (35 UHs) e o Hotel Porto Jofre (40 UHs), um dos líderes quando o assunto é turismo de pesca. São cerca de 630 UHs distribuídas em 27 hotéis e pousadas acessíveis pela Transpantaneira, rodovia de terra de 147 Km que liga Poconé a Porto Jofre.

 
 
 
A paisagem é deslumbrante
 
“Quanto mais hotéis de qualidade tivermos, mais turistas vamos atrair. O Pantanal vive muito de sazonalidade. O turismo de pesca, por exemplo, não pode ser realizado de novembro a fevereiro por causa da piracema. Queremos fortalecer o turismo pantaneiro com hóspedes brasileiros, inclusive regionais. Muitos hotéis oferecem descontos para quem é do Mato Grosso. Minha maior frustração é ainda não ter conseguido atingir o público nacional tanto quanto o estrangeiro. Quando você passa três ou quatro noites em um hotel integrado à natureza, no meio do Pantanal, a sua cabeça muda”, afirma o proprietário do Araras Eco Lodge.
  
“Aqui, tudo é baseado na tradição. Não inventamos nada. Usamos os cavalos e as canoas como principal meio de transporte dependendo da época”, explica o hoteleiro. Ele garante que o turista tem acessibilidade o ano inteiro às pousadas, já que a Transpantaneira está a 45 cm acima do nível mais alto de alagamento já registrado. Março é o mês mais alagado, mas nem por isso, menos convidativo. “É mais fácil ver os animais durante a seca, mas deixar de visitar o Pantanal porque é época de cheia é uma grande besteira. Cada estação apresenta suas belezas e peculiaridades.”
 
De um jeito ou de outro, os pássaros estarão por lá, só esperando para ser vistos. Cervos, jacarés, ariranhas, capivaras, macacos, tamanduás e, com muita sorte, onças também.
 

 
Enquanto o macaco passeia em meio às folhas, o tuiuiú
geralmente escolhe árvores secas para seus ninhos
 
A envergadura do pássaro símbolo do
Pantanal pode chegar a três metros
 
Ele sobrevoa as águas quando o sol começa a se pôr

Monogâmico, tuiuiú é geralmente visto em casal
 
Impressionante reflexo das árvores no leito do rio
 
Não resta dúvida. Pantanal: tem que conhecer

 

Será que há espaço para mais hotéis? Para Thuronyi, a oferta por enquanto dá conta da demanda, mas os próximos dois anos serão bastante promissores e a tendência é o número de turistas aumentar. “Vamos precisar de mais meios de hospedagem sim e é hora de começar a planejar. A expansão hoteleira deve sempre ter o meio ambiente como base. Vivemos do ecoturismo, é preciso respeitar e preservar a natureza”, finaliza.

 

Serviço

www.araraslodge.com.br

www.sedtur.mt.gov.br

 

* O Hôtelier News viajou ao Pantanal a convite da Secretaria de Turismo do Mato Grosso.

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