"Resorts Brasil deve faturar R$ 2 bi em 2009", afirma Zubaran


Alexandre Zubaran, presidente da Costa do Sauípe e
da Associação Brasileira de Resorts (Resorts Brasil)
(fotos: Peter Kutuchian e arquivo HN)
 
Com expectativa de faturar R$ 2 bilhões em 2009, alta de 4% sobre 2008, a Resorts Brasil apostou no mercado nacional como válvula de escape para fugir dos efeitos das turbulências financeiras internacionais durante a alta temporada.

"A ocupação dos associados também deve acompanhar o faturamento e crescer quatro pontos percentuais este ano, chegando a 55%", diz Alexandre Zubaran, presidente da Resorts Brasil e do complexo hoteleiro Costa do Sauípe (BA).
 
O executivo, no entanto, confirma que a crise deixou cicatrizes, em especial por conta da queda no segmento de eventos corporativos e de incentivo, que costuma garantir a receita dos empreendimentos fora da alta temporada. "O ano está totalmente fora da sazonalidade que estamos habituados. Até abril, impulsionados pelo mercado interno, mantivemos uma boa ocupação, mas tudo mudou a partir de maio", revela.
 
Alexandre Zubaran possui 20 anos de experiência no ramo de hotelaria e turismo, atuando na direção das áreas de Vendas e de Marketing de importantes empresas do setor. Com passagens por Hotéis Othon e Rio Quente Resort, o executivo é presidente da Resorts Brasil, do Fórum de Investidores Turístico do Litoral Norte da Bahia, vice-presidente do Cluster de Entretenimento da Bahia e presidente do Conselho de Governo da Fundação Instituto de Hospitalidade, além de ser membro do Conselho Nacional de Turismo (CNT).
 
Em entrevista exclusiva concedida ao Hôtelier News, o executivo fala sobre o vírus Influenza A (H1N1), briga com cruzeiros marítimos e comenta a eleição deste ano para a presidência da Resorts Brasil. Confira abaixo.

Por Vinicius Medeiros


  

Hôtelier News: O setor de resorts cresceu bastante no Brasil nesta década, expandindo-se por praticamente todas as regiões brasileiras e atraindo investidores estrangeiros. Qual sua avaliação sobre o crescimento do mercado nos últimos anos?
Alexandre Zubaran: Se levarmos em conta o número de empreendimentos, o setor praticamente dobrou de tamanho desde 2005. Até 2002, a maior parte dos resorts era de capital nacional, mas o desenvolvimento da economia, associada as boas condições do país, como fartura de terrenos, clima ameno e ausência de terrorismo, atraiu investidores internacionais. A Região Nordeste, por exemplo, virou alvo de grupos europeus, em especial espanhóis e portugueses, como Iberostar, Vila Galé e Pestana, entre outros.
Com isso, a partir de 2007 o quadro se alterou e, hoje, a presença estrangeira representa mais da metade do mercado. Também contribuiu para este movimento as condições enfrentadas pelas redes brasileiras, que arcam com uma alta tributação, em especial com mão-de-obra. É importante ressaltar ainda que, até a eclosão da crise financeira, o crédito era farto no exterior, o que não acontecia no mercado interno. A tendência é que a participação brasileira diminua ainda mais nos próximos anos.
 
 
HN: Há muitos projetos em andamento no Brasil atualmente?
AZ: Inicialmente, o biênio 2009/2010 seria marcado por diversas inaugurações, mas a crise alterou o cronograma de muitas redes. Com a espera da recuperação da economia mundial, a maior parte dos projetos foram adiados, exceto os que já estavam com obras em andamento. No entanto, ainda é cedo para avaliar quando as construções serão retomadas. Ainda assim, acho que as aberturas que veríamos em 2009/2010 acontecerão em 2011/2012. Não tenho notícias de cancelamentos.

HN: Intensificada a partir de setembro, a crise financeira abalou o mundo, sem poupar nenhum setor da economia. No Brasil, pegou os empreendimentos hoteleiros em plena alta temporada. De que maneira a Resorts Brasil enfrentou as turbulências financeiras internacionais no período?
AZ: Como era esperado, o efeito imediato da crise foi a queda de receita proveniente do mercado internacional. Praticamente todos resorts do país foram afetados, em especial da região Nordeste, que recebem muitos turistas europeus. No entanto, as perdas foram compensadas com foco no público interno. Se os viajantes internacionais sumiram, os brasileiros, temerosos com a alta do dólar, viajaram internamente.

As parcerias firmadas com a operadora CVC e a Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa) trouxeram bons resultados e ajudaram a manter as vendas em alta. Mesmo os hotéis da Região Sul, em especial de Santa Catarina, que foram prejudicados pelas enchentes no final do ano passado, atravessaram a crise sem grandes problemas. 

HN: Pode-se dizer que houve uma inversão no mix de hóspedes?
AZ: Ele se inverteu completamente. Embora haja resorts que só operem o mercado interno, a participação estrangeira, que nacionalmente representa cerca de 30% da ocupação dos empreendimentos associados, apresentou uma queda acentuada. Embora fosse a única alternativa viável, a aposta no público nacional se mostrou acertada e garantiu uma boa ocupação durante a alta temporada. Mostramos aos grupos de investidores internacionais que aqui há mercado interno. Não somos Moçambique.
 
 
HN: A Costa do Sauípe acompanhou este movimento?
AZ: Na Costa do Sauípe também houve uma queda brusca no mercado internacional. A presença estrangeira pulou de 42% no período pré-crise para 27% em janeiro. Turistas ingleses e norte-americanos praticamente sumiram. Para minha surpresa, muitos italianos continuaram a frequentar o empreendimento. No entanto, conseguimos manter uma boa taxa de ocupação durante a alta temporada.

HN: Qual o balanço de 2009 até aqui?
AZ: O balanço é positivo, mas, como não poderia ser diferente, não passamos incólumes. O ano está totalmente fora da sazonalidade que estamos habituados. Até abril, impulsionados pelo mercado interno, mantivemos uma boa ocupação, mas tudo mudou a partir de maio. Fonte de receita importante para os resorts, os eventos corporativos foram em sua maioria cancelados, em especial do setor automobilístico e bancário, que foram bastante afetados pela crise, o que impactou na receita de muitos empreendimentos. A julgar o fraco desempenho nas vendas até agora, o terceiro trimestre também tende a ser ruim.

HN: Com este cenário de crise, é possível projetar um ano favorável?
AZ: A reviravolta deverá acontecer no final do ano. Estou otimista com a alta temporada. A economia já ensaia sua recuperação e, pelo que se vê entre as empresas, os eventos corporativos vão voltar com força. Deverá faltar resort para tanta coisa. Confirmando-se este cenário, é possível crescer 4% e faturar cerca de R$ 2 bilhões em 2009. A ocupação dos associados também deve acompanhar este movimento e crescer quatro pontos percentuais, chegando a 55%.

 

HN: O que pode atrapalhar o setor?
AZ: A indústria de cruzeiros marítimos no Brasil cresceu muitos nos últimos anos. A luta com eles é desigual. Enquanto uma alta carga tributária incide sobre a atividade hoteleira, o mercado de cruzeiros não possui uma legislação específica para as operações de cabotagem (navios de bandeira estrangeira embarcam e desembarcam passageiros em portos nacionais). Tal situação também explica a expansão deste setor no país. No ano passado, eles não tiveram uma boa temporada e, por conta disso, conseguimos aumentar a ocupação em quatro pontos percentuais, pulando de 47% para 51%. Em 2009/2010, no entanto, o impacto mais forte da crise nos Estados Unidos e na União Européia, principais mercados mundiais, deve atrair muitos navios para a costa brasileira. São cerca de 720 mil cabines para competir conosco. Trata-se de um produto novo e popular entre os turistas brasileiros, sendo um forte concorrente para os resorts..

HN: Esta briga com a indústria de cruzeiros marítimos é antiga. Existem algum progresso na criação de regras?
AZ: O Governo Federal deve refletir sobre a atividade da indústria de cruzeiros marítimos no Brasil. A gestão atual está mais sensível à nossa causa. É preciso criar uma legislação específica para o setor. Enquanto geramos impostos, divisas e empregos para o país, ela faz justamente o contrário. Não se trata de uma mera rixa por clientes.
 
 
HN: O vírus Influenza A (H1N1) pode ser outro complicador?
AZ: Vejo-a mais como uma aliado do que qualquer outra coisa. Com muitos casos confirmados, Caribe e Estados Unidos ficarão esvaziados. Além disso, destinos populares entre turistas nacionais, como Chile e Argentina, foram recentemente desaconselhados pelo governo para viagens internacionais. Apostamos que os brasileiros vão viajar internamente e, como na alta temporada passada, somos ótimas opções.

HN: O mercado de resorts fatura alto e já se consolidou como uma das forças da indústria turística, mas certamente ainda há espaço para inovações. Para onde o setor ainda pode crescer?
AZ: Como em outras atividades turísticas, o mercado de resorts opera com margens de lucro apertadas, o que exige boa gestão por parte dos empreendedores. Acho que os gestores brasileiros ainda não descobriram as infinitas possibilidades que o setor oferece, como venda de produtos da área de Alimentos & Bebidas (A&B), venda de imóveis por meio da construção de condomínios na área do hotel e timesharing, entre outros. Há bons cases no país, como o Beach Park, na região metropolitana de Fortaleza, e o Rio Quente Resorts, em Caldas Novas, Goiás.

HN: Para finalizar, a eleição para a presidência da Resorts Brasil está marcada para a segunda quinzena de novembro. Cogita mais um mandato à frente da entidade?
AZ: Tentar um terceiro mandato não faz parte dos meus planos. Lutei com afinco pelos interesses do setor durante os anos em que estive à frente da Resorts Brasil. Está na hora de dar lugar a outra pessoa, renovar a entidade.
 

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