Roland de Bonadona: "O Brasil precisa aproveitar seu potencial"


Roland de Bonadona, diretor geral da
Accor Hospitality para a América do Sul
(fotos: Peter Kutuchian)
 
O francês, ou melhor, o brasileiro Roland de Bonadona, formado em Administração de empresas pela Universidade Paris IX Dauphine, adotou o Brasil como pátria oficial. Em meados dos anos 80, ele recebeu um convite da Accor para desenvolver a marca Sofitel na Europa, e em 1989 chegou em São Paulo, para assumir a implantação da marca na rede de hotéis Quatro Rodas e depois de 14 anos, assumiu a direção geral da Accor Hospitality América Latina.
 
"Iniciei a minha carreira na área de Alimentos & Bebidas em 1973. Em seguida trabalhei com representação de restaurantes da região de Marselha, na França, que serviam refeições para companhias aéreas, escolas e empresas da região. Depois de algum tempo recebi o convite para integrar no time de colaboradores da Accor, e implantar a marcar Sofitel no Brasil muito me animou, pois era um país que sempre desejei conhecer por seus atrativos naturais, culturais e com destaque ao povo que é encantador", diz.
 
Bonadona relembra sobre as problemáticas que seguiram a época dos anos 90 para os negócios. "Desembarquei no Brasil no dia 15 de março de 1990, no dia da posse de Fernando Collor, numa época  de mudança na política brasileira. Nesse período enfrentamos o confisco do Plano Collor que retraiu muito mercado, e ao contrário da Europa onde existe a participação do povo pelos seus direitos; no Brasil as pessoas se adaptam a situação, mas sem perder a alegria."
 
"O Brasil é um país muito jovem em todos os sentidos. E o que mais me espantou é que as pessoas com tantos problemas mantinham o seu encanto. No primeiro ano resolvi conhecer todas as maravilhas naturais do país como praias, cachoeiras, culturas, e descobri a disparidade da riqueza com muita pobreza. Muitos países da Europa já passaram a adolescência e já tiveram suas revoluções, aqui ainda estamos em fase de mudança, em compensação temos um forte potencial de crescimento econômico, existe tecnologia de ponta e uma população interativa, alguns dos destaques para mostrar o potencial brasileiro ao mundo", declara.   
 
Para conhecer um pouco mais sobre este empreendedor e seus cases de sucesso na Accor, além do seu encanto pelo povo
brasileiro, acompanhe a entrevista exclusiva. Bonne lecture!
 
Por Juliana Albino e Peter Kutuchian

Hotelier News: Como você analisa o Brasil no cenário político, econômico e cultural?
Roland de Bonadona: O país ainda está em processo de mudança em relação a muitos países. As pessoas são maravilhosas e um paradoxo inevitável é que o povo se conforma com cenário político, de insegurança, miséria, uma disparidade que no caso da Europa já teria sido reivindicada através de movimentos sociais e questionamento frente ao poder público.
 
Outro ponto é que a gestão pública não funciona. Estou aqui há 20 anos e percebo que o que está nas mãos da iniciativa privada é moderno e de alto poder competitivo, já o que está no poder  público, se percebe o descaso.
 
  

HN: Quais mudanças são necessárias para alteração deste cenário?
Bonadona: O que diz respeito à responsabilidade do governo como saúde, educação, segurança, infraestrutura ainda é muito atrasado. Em uma pesquisa realizada por uma ong internacional em termos de sustentabilidade, o Brasil começa a adotar mudanças quanto a hospitalidade e facilidade de negócios e está bem posicionado, já no ponto de vista político ocupa a 65ª posição, o que demonstra que é preciso rever conceitos para ganhar credibilidade frente ao mercado internacional, até porque o potencial tecnológico encontrado em muitas regiões do país faz toda a diferença.
 
HN: Na tua opinião o turismo é uma prioridade no Brasil?
Bonadona: O turismo ainda não é prioritário. Nesses anos acompanhei diversas mudanças no cenário turístico do país que teve início com Walfrido Mares Guia, que realmente trouxe mudanças ao nosso setor.
 
Atualmente na gestão de Luiz Barretto, com o governo Lula, que prometeu abertura maior ao setor, conseguimos enxergar uma leve mudança. Precisamos ter um turismo mais integrado entre as entidades, hotelaria (grandes redes e pequenos hotéis), agentes de viagens, operadores, organizadores de eventos, que em conjunto podem fazer com que a hotelaria no Brasil ganhe forças no âmbito macro.
 
HN: O que pode ser feito para fomentar o turismo no país?
Bonadona: Focar as ações no mercado turístico interno e dar importância ao turismo de negócios. No próximo ano seremos sede de grandes simpósios e congressos internacionais, o que possibilitará ao país crescer de forma vertiginosa. São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte são os eixos dos grandes eventos e devem aproveitar essa boa fase.
 
No turismo interno os programas sugeridos pelo governo como Viaja Mais Melhor Idade, são iniciativas bem sucedidas que podem ser aproveitadas para trabalhar até 15 destinos ainda desconhecidos, dos 65 destinos indutores do ministério do Turismo.
 
 
 
HN: Focado em ações para atrair turistas, diferencie o europeu do norte-americano?
Bonadona: O americano está à procura de destino de sol e praia, locais com acesso a compras, e conforto. Já o Europeu foca em conhecer a vida do povo, cultura, economia e política do local que visita. Cuba, por exemplo, é o paraíso dos europeus por acoplar em um único destino a história e belezas naturais.
 
O Brasil poderia trabalhar muito mais esse eixo junto ao mercado europeu, porque tem muito mais tradição, mas aqui não valorizamos o passado. Há pouco tempo atrás visitei Olinda e encontrei igrejas fechadas por falta de manutenção. Precisamos rever a maneira como apresentamos o Brasil na Europa, porque estamos muito longe dos países emissores e precisamos chamar atenção com algo que seja marcante para esse povo. 

HN: Os europeus se interessam muito pela Amazônia?
Bonadona: Sim. Mas, a região ainda não oferece uma infra-estrutura necessária para atender um público tão diferenciado. Muitos hotéis da Amazônia não mantém a forma rústica do lugar e implantam ar-condicionado, ambientes de hotéis de luxo, quando na verdade o público europeu deseja a simplicidade e a experiência do local.
 
A exemplo da Namíbia (África) foram criados bangalôs, onde você encontra dez quartos com ambientação de madeira, além de artifícios adaptados junto a natureza, é esse tipo de turismo que devemos propor na Amazônia.
 
 
 
HN: Como podemos aproveitar os dois grandes momentos que são a Copa do Mundo e Olimpíadas?
Bonadona: Se o turismo estiver integrado, podemos trabalhar a imagem do país antes do evento, apresentando através da mídia os problemas em todas as esferas, e também as soluções criadas para vencê-los.
 
Vamos seguir os exemplos da França, Alemanha e Espanha que mostraram o seu potencial e criaram alternativas para manter a hotelaria com graus elevados de ocupação, fluxo de turistas constantes no antes, durante e depois dos grandes eventos.
 
HN: Vocês se arrependem por não ter ficado com o Sofitel Pelourinho (atual Pestana Convento do Carmo)?
Bonadona: Sentimos muito, pois boa parte do projeto foi nós que executamos. Atualmente a Bahia não seria um foco para ação da marca Solfitel, pois estaríamos localizados em uma das áreas que têm pouca segurança no Estado e que não garantiria uma boa experiência aos nossos hóspedes. Em contrapartida temos visto as ações do governo baiano para melhorar essa imagem, mas os projetos para o Estado serão a longo prazo.
 
A Bahia, como outras regiões históricas do país poderiam seguir o exemplo dos Paradores, na Espanha. Trata-se de uma instituição que reúne alguns hotéis construídos em antigos conventos, palácios e castelos, onde os colaboradores são servidores públicos, e que oferecem aos clientes a opção de conhecer de perto o destino e sua riquezas culturais.
 
HN: Já tem uma data para chegada da marca Pullman no Brasil?
Bonadona: O nosso foco é ter ações de aprimoramento e consistência das marcas Sofitel, Novotel, Mercure, e os econômicos Formule 1 e Ibis. A vinda a Pullman deve acontecer no próximo ano, talvez sendo implantanda no Grand Mercure, em São Paulo, ainda sem data prevista.
 
 

HN: É mais fácil implantar um hotel dessa categoria em outros países?
Bonadona: Em todos países em que implantamos os nossos hotéis tivemos pelo menos 20% da participação dos investidores. Acredito que é muito mais fácil trabalhar com os investimentos em outros países da América Latina, pois aqui os investidores ainda são muito retraídos em razão da falta de incentivos, mas mesmo assim, temos excelentes parceiros no Brasil.
 
Inauguramos recentemente um hotel da marca Pullman em Rosário, na Argentina, e os próximos mercados serão Paraguai, Chile. Já no Brasil estamos estudando uma linha de Formule 1 um pouco menor, sem nada concreto até o momento.     
 
HN: Qual a diferença da marca Novotel para Pullman?  
Bonadona: A marca Pullman está acima da Novotel, por isso oferece mais atrativos no design e nos seus espaços, tem o foco em eventos e deve ter no minímo 200 apartamentos, um serviço diferenciado e um atendimento focado no público de negócios. O Novotel, a exemplo de Buenos Aires (Argentina) tem um glamour especial, com foco também em evento e negócios, mas que pode hospedar famílias.

HN:
Recentemente vocês lançaram uma forte campanha para os agentes de viagens. Houve mudança quanto a estratégia do faturamento?
Bonadona: Houve uma iniciativa compartilhada junto as  associações hoteleiras para o fim do faturamento e a Accor foi uma das participantes. No início pretendíamos adotar o uso de cartões em uma forma moderna e prática, mas que não funcionou muito bem. Numa certa etapa do processo deparamos com muitas agências dizendo que não iriam trabalhar conosco, pois não faturávamos.
 
Quero deixar claro que faturamos sim. Temos uma ligação muito forte com os agentes de viagens e apreciamos muito a atividade. Tanto as grandes agências como as centralizadoras como Trend e operadoras como CVC e agentes menores são os nossos principais incentivadores, onde podemos trabalhar de forma integrada com opções de reserva, preço e facilidade na segurança do pagamento comissionado.
 
 
 
HN: A Accor visa ações sustentáveis em seus empreendimentos?
Bonadona: Temos uma série de ações voltadas a sustentabilidade. Fazemos parte de uma ong que incentiva o plantio de árvores. Em nossos hotéis fazemos o reuso de água, reciclagem de resíduos e o uso consciente de toalhas nos apartamentos.
 
Os hotéis fazem ações de solidaridade junto às suas comunidades locais, principalmente no Dia Internacional da Solidariedade, 9 de dezembro. Em termos de educação, temos parceria com a Unibes, uma entidade que profissionaliza jovens carentes, do qual a Fundação Accor colabora com ações voluntárias de nossos colaboradores. 
 
HN: Existem novos projetos para Academia Accor?
Bonadona: Desde 1992, o programa já capacitou 1 mil colaboradores em posição de liderança. Investimos na formação do nosso pessoal visando o desenvolvimento das equipes. No próximo ano pretendemos promover uma integração maior dos nossos colaboradores e desenvolver novas técnicas para aprimoramento do serviço. 

HN: Você pretende voltar para França?
Bonadona: Sou brasileiro. Eu visito o meu país e fico alguns meses, mas o meu lar oficial é o Brasil. Passei a amar este país com sua bela natureza, as pessoas, e mesmo com os problemas quero estar aqui para acompanhar as grandes mudanças que estão por vir. 
 
HN: O que a tua família significa?
Bonadona: A família é nosso alicerce. Sou muito feliz com a minha esposa Karla (brasileira) e para completar toda a felicidade meus quatro filhos espalhados em diversas regiões do mundo ajudam a completar e renovar minha alegria de vida.    
 
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