Rui Manuel de Oliveira: "Fizemos muito bem nossa lição de casa"


Rui Manuel de Oliveira é vice-presidente sênior da Sol Meliá Brasil
(fotos: Peter Kutuchian)
 
Conheço Rui Manuel de Oliveira desde julho de 1997, quando passei a ser colaborador da Sol Meliá. Desde então sua simpatia, cordialidade, profissionalismo e dedicação se mostraram presentes em sua personalidade. Sempre sorridente, e ao mesmo tempo enérgico, não sei de uma pessoa que tenha falado mal deste hoteleiro de mão cheia, que se não está trabalhando diverte-se gravando músicas em formato MP3. "Tenho mais de 500 GB de arquivo. Gosto de jazz, música eletrônica e de um blues com mistura de soul, como a banda Enigma. Um dos meus artistas preferidos é o Seal", revela.
 
E quando está em São Paulo gosta muito de ir no restaurante Pobre Juan. "Tem um ambiente muito charmoso e é despretensioso. É tranquilo e oferece uma excelente carne. Como aprecio muito os frutos do mar, sempre que posso vou ao Don Curro e ao Al Mare."
 
E se não morasse em São Paulo? "Com certeza seria em Miami. A cidade é ampla, cheia de avenidas largas, bons restaurantes, bairros com residências, edifícios apenas no centro. Por isso lá podemos ver o céu sempre", compartilha.
 
Por Peter Kutuchian
 
O português Rui Manuel de Oliveira veio para o Brasil com a família ainda bebê, mas com seis anos regressou ao país de origem. Quando completou 17 anos decidiu voltar aqui para estudar. Entrou na Usp no curso de Administração. "Meu desejo era me tornar  executivo de uma grande empresa multinacional. Precisando trabalhar, e para não atrapalhar os estudos, e ainda pelo fato de falar alguns idiomas, decidi procurar emprego em hotéis", recorda.
 
Seguindo seu destino para se tornar um dos mais experientes executivos do país, foi contratado como recepcionista do turno da tarde no primeiro meio de hospedagem que visitou, o Hotel Ca'd'Oro. "No início dos anos 70 o cinco estrelas era um dos mais conceituados da cidade, além de ser a escola de muitos profissionais", conta.
 
 
Oliveira tomou gosto pelo segmento, foi promovido para chefe de
Recepção e subgerente e ficou no Ca'd'Oro por oito anos, quando recebeu uma proposta do extinto Caesar Park da rua Augusta, na época de propriedade da Construtora Guarantã e em fase final de implantação. "Antes da abertura o senhor John Aoki, um dos maiores empresários do Japão e que buscava negócios no Brasil, se associou à Guarantã nos dois hotéis - operava também o Caesar Park Ipanema e tinha planos para abrir uma unidade em Brasília", explica.
 
Segundo Rui Manuel, o processo de abertura do Caesar Park paulistano foi uma experiência muito importante para seu processo de aprendizado, pois o hotel, mesmo depois de pronto, ficou mais de um mês em operação apenas para convidados. "Recebemos nesse período a alta esfera da sociedade, políticos importantes e artistas. O objetivo foi treinar o staff, fazer o "lobby" e causar a maior expectativa possível no mercado", diz.
 
Dois anos depois, foi fazer uma nova implantação, no Nikkey Palace, também em São Paulo, como gerente geral. O desafio foi grande, já que naquela época atuar naquele cargo com apenas 28 anos era algo incomum.
 
Em seguida Oliveira recebeu uma proposta que mudaria sua vida: mais uma implantação, agora em um empreendimento cujos investidores tinham dúvidas sobre seu desenvolvimento e se esse seria ou não um cinco estrelas.
 
Alguns dias depois de assumir a gerência geral, ele foi enviado aos Estados Unidos para uma viagem de conhecimento das novas tendências do mercado. Na terra do Tio Sam, um estabelecimento chamou sua atenção. Era uma pequena cidade do meio-oeste, mas com um hotel de grande porte e que atendia um banco como centro de treinamento. "O centro de convenções era muito grande e havia certas inovações, como o layout do apartamento, que tinha mesa de trabalho e dois telefones, algo ainda incomum no Brasil. Fora isso o auditório tinha um sistema de som inigualável, com microfones e alto-falantes embutidos", explana.
 
O executivo voltou decidido a mostrar aos investidores qual era o conceito correto e inovador para o mercado brasileiro. "Mudamos alguns itens do projeto, como o subsolo, incluindo nele salas de apoio, e abrimos o Transamérica São Paulo, um hotel voltado para o segmento de convenções e treinamentos. Logo o público corporativo aceitou a proposta e o sucesso foi alcançado rapidamente", diz.
 
Como um bom hoteleiro, Rui Manuel não sossegou, partiu para um novo desafio e foi para o ex-Crowne Plaza São Paulo. "O que me atraiu foi o fato de poder trabalhar em uma empresa internacional, o InterContinental Hotels Group, detentora da marca Crowne Plaza. Tinha muito interesse em conhecer os procedimentos internos e poder ganhar mais experiência."
 
Feito isso, voltou para o Caesar Park São Paulo como gerente geral e vice-presidente de Operações para dois hotéis. O objetivo da rede era crescer e logo uma terceira unidade seria agregada ao portfólio da companhia, propriedade naquele momento da família Aoki. Foi por meio de um contrato de administração que surgiu o Caesar Park Fortaleza. De lá para frente, foram inauguradas outras unidades em destinos como Cancun, Buenos Aires, Panamá e Nova York.
 
 
A empresa cresceu e chegou a nove hotéis. Houve então a compra da rede Westin, na época com 200 empreendimentos. "Eu e John Chen, principal executivo do grupo naquele período, ficamos responsáveis em fazer o take over de toda a companhia. Imagine como nos sentimos quando começamos a ter reuniões com os CEOs da Westin e 'tivemos que assumir', por exemplo, o The Plaza em Nova York. Aquilo foi um presente para nós", recorda.
 
Alguns anos depois a Starwood comprou a rede, exceto os hotéis Caesar Park no Brasil e Argentina. E antes desta ser comprada pelo grupo mexicano Posadas, Oliveira assumiu a direção geral da Sol Meliá no Brasil.
 
Nossa entrevista é apenas sobre a rede espanhola, quais as conquistas e os planos de expansão. Boa Leitura.
 
Hôtelier News: Como começou a sua gestão na Sol Meliá?
Rui Manuel de Oliveira: A minha gestão teve início em 1996, quando fui convidado por Evagrio Sanchez (na época diretor da rede para o Brasil) para assumir o desenvolvimento no país. Já existiam hotéis administrados. O primeiro foi em Maceió. Em São Paulo a maioria era da marca Sol, que alguns anos depois foi descontinuada. Tínhamos um hotel muito bom, o WTC. Ele chegou a ser Gran Meliá por mais de dez anos.
 
HN: A rede decidiu entrar no Brasil com hotéis business. Essa foi a única estratégia encontrada?
Oliveira: Não posso dizer que era a única, mas as oportunidades e a procura para esse segmento foram surgindo e não podíamos recusar. A empresa tinha uma marca que poderia ser adaptada aos condo-hotéis, a Meliá Confort. A oportunidade foi começar para valer com os empreendimentos com perfil de negócios e adaptados à realidade brasileira na época, os flats.
 
HN: Geralmente os grandes grupos entram no país com investimento próprio no primeiro empreendimento. Por que isso não aconteceu?
Oliveira: É óbvio que a primeira ideia sempre foi para o segmento de lazer porque a imagem do Brasil para os espanhóis é de praia e de um país com potencial enorme de turismo. Mas sabemos que existem muitas dificuldades para o desenvolvimento deste setor aqui. Não é fácil começar.
 
 
 
HN: A Sol Meliá teve grande crescimento no número de hotéis em meados desta década. O índice chegou a 28. Quantos estão sendo administrados atualmente?
Oliveira: É verdade, tivemos quase 30 empreendimentos, contando os hotéis que já estavam sendo administrados anteriormente sob a marca Sol. Depois tivemos uma expansão expressiva, com a marca Confort, que também foi continuada. Nesse meio tempo entramos com a marca Tryp e tivemos que readequar todas as unidades que estavam em operação. Alguns proprietários decidiram seguir por um outro caminho, assim como nós. É importante ressaltar que sempre fizemos muito bem nossa lição de casa. Vou dar um exemplo: veja o caso dos hotéis do Itaim (bairro da capital paulista), onde temos quatro unidades. Na época do lançamento fizemos um estudo que revelou enorme potencial de desenvolvimento naquele bairro. Tanto é verdade que hoje os nossos melhores resultados provém dos quatro condo-hotéis que ainda estão lá. Em 2008 o índice de ocupação médio foi de mais de 75%. Respondendo a sua pergunta, hoje administramos 14 unidades e 90% estão indo muito bem.
 
HN: Por que 90%? Então existe alguma unidade que está deixando a desejar?
Oliveira: Sim. Há e estamos avaliando a possibilidade em não renovarmos o contrato, o que é muito natural. Quem está do lado de fora sempre coloca a culpa na administradora, mas isto não é verdade. Os empreendimentos também têm problemas e às vezes fica muito difícil desenvolver um bom trabalho. O produto é uma série de serviços em conjunto, como hospedagem, alimentos & bebidas, área de eventos, que precisa estar muito bem ajustada e com sincronia de interesses. Quando um desses serviços não vai bem, ou não atende às expectativas, fica complicado. Precisamos pensar sempre no hóspede primeiro e não nos objetivos próprios.
 
HN: Qual a estratégia atual de expansão?
Oliveira: Nossa expansão está ligada primeiramente ao retorno que podemos oferecer aos investidores. Analisamos esse aspecto e, se o estudo de mercado for favorável, aprovamos o projeto. Não queremos, em hipótese alguma, quantidade e sim qualidade. Estamos trabalhando forte nos produtos que administramos e criamos uma nova UH dentro deles, a Premium Room, desenvolvida para um público exigente, de jovens executivos. Estamos indo muito bem e os novos apartamentos são os mais procurados atualmente, mesmo tendo tarifa 30% mais alta.
 
HN: Qual é o grande diferencial das unidades da Sol Meliá no Brasil?
Oliveira: Nosso diferencial sempre foi o nível de atendimento e isso continua sendo nossa prioridade. A fórmula é simples: colaborador motivado e capacitado gera atendimento acima da expectativa do cliente, que acaba voltando e garantindo retorno ao investidor. Por isso fazemos questão de manter um programa de treinamento o tempo todo. A motivação é acompanhada pela pesquisa de clima realizada duas vezes por ano em todas as unidades. Desta forma ficamos sabendo como estão se sentindo nossos 1,2 mil colaboradores. Também temos contrato com uma empresa de e-learning, que oferece aos profissionais 45 cursos subdisiados pela Sol Meliá. Outro assunto muito importante é a questão do meio ambiente e da responsabilidade social. Fazemos questão de manter parceria com a WWF Brasil, além de auxiliar entidades voltadas a questões sociais. É o mínimo que podemos fazer.
 
HN: O que mudou para melhor na hotelaria desde que o senhor começou?
Oliveira: O setor está mais democratizado, mais acessível. Antigamente os bons hotéis eram os cinco estrelas e o que vinha abaixo estava muito longe em termos de qualidade de um hotel top. Hoje existe a categoria mid scale, que oferece conforto seja no tamanhos dos apartamentos ou nas amenidades. A profissionalização também se expandiu, atingindo patamares nunca antes imaginados. Se voltarmos dez anos, quantos cursos profissionalizantes existiam?
 
HN: E o que foi alterado para pior?
Oliveira: Esta pergunta está relacionada à resposta anterior. Apesar de termos muitos cursos e mesmo que exista cada vez mais exigência de maior qualidade, a formação ainda está aquém das necessidades. A qualidade do ensino e, consequentemente da formação, piorou, ou seja, pensa-se na quantidade e não na qualidade. Ainda falta mão-de-obra.
 
  
 
HN: Como o senhor analisa o futuro do turismo mundial? Quais serão os grandes destinos e mercados?
Oliveira: O turismo caminha sempre lado a lado com a cultura. Onde há riqueza cultural existe potencial para o turismo. Cada vez mais as pessoas querem vivenciar novas experiências baseadas nesses aspectos e também da gastronomia. A procura por destinos é cíclica e acredito que a América do Sul será mais valorizada.
 
HN: Na sua opinião, quais regiões no Brasil possuem potencial de crescimento turístico e não estão sendo exploradas?
Oliveira: Este é um país amplo e com uma diversidade cultural sem igual no mundo. Temos milhares de quilômetros de praias, selva amazônica, além de outros atrativos naturais. O que falta é incentivo para o desenvolvimento. É preciso criar infraestrutura, linhas de crédito, programas de capacitação e incentivos para megaprojetos.
 
HN: Destinos como Aracaju e João Pessoa não decolam. Qual o senhor considera ser a principal causa disso?
Oliveira: Faltam principalmente voos para esses locais. João Pessoa é uma cidade fantástica e poucos sabem que ela á a segunda do mundo com maior área verde urbana. Existem praias muito bonitas, o povo é hospitaleiro. O que falta é a vontade de movimentar o turismo.
 
HN: Qual a sua opinião sobre o litoral entre Rio de Janeiro e São Paulo?
Oliveira: Sem dúvida essa é uma região que poderia também ser melhor trabalhada. Faltam grandes hotéis e maior divulgação e facilidade de acesso. Me diga onde existe um destino com praias lindas e com a abundância de mata atlântica? Sem contar a proximidade com as capitais paulista e fluminense. Se um programa de turismo fosse criado, imagine a quantidade de viajantes internacionais que visitariam a região. Por isso investimos na operação do Meliá Angra. Acreditamos muito no potencial desse litoral.
 
HN: O que não pode faltar no colaborador?
Oliveira: O colaborador precisa ter sempre boa vontade, iniciativa e disposição para lidar com pessoas. Estar sempre atualizado no que diz respeito à sua formação e agregar muita cultura no seu dia-a-dia também são pontos importantes.
 
HN: E no hoteleiro?
Oliveira: O hoteleiro precisa se conscientizar que o retorno do seu investimento é de médio e longo prazo, por isso é necessário garantir que o meio de hospedagem esteja sempre em excelentes condições, priorizando sua higiene. Tem que dar valor ao entorno onde o estabelecimento está inserido, auxiliando no que for possível para a melhoria do destino, e participar nas questões de meio ambiente e sociais. Outra questão imprescendível é a capacitação dos colaboradores no seu fluxo normal de trabalho.
 
HN: Para finalizar, qual a sua preferência quando tira férias: praia ou campo?
Oliveira: Prefiro a praia, com certeza. Me sinto muito bem e sempre viajo nos momentos de folga para destinos litorâneos. No Brasil me identifico com Fortaleza, onde a hospitalidade fala alto. O acolhimento é pleno, o que é uma característica forte do povo nordestino. Além disso, a quantidade de praias com belezas diferentes é um atrativo a parte. Fora do Brasil gosto muito de Cancún. A tonalidade turquesa do mar é sem igual e há uma variedade muito grande de bons restaurantes, além do perfil histórico e da infraestrutura de entretenimento do destino. Podemos passear, comer bem, fazer compras, ir ao cinema, teatro e visitar os sítios arqueológicos. Um lugar completo.
 

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