Três perguntas para: Patrick Mendes

Três perguntas para - Patrick Mendes_internaMendes: parceria com Bureau Veritas gerou 150 processos operacionais

Ao todo, foi mais de uma hora de bate-papo. E, veja bem, pelo que o interlocutor relatou conversar é certamente o que ele mais faz nesses tempos de coronavírus. Um call diário com CEOS das demais regiões do globo, lives com investidores e franqueados, reuniões virtuais com autoridades, telefonemas com lideranças e demais equipes internas da empresa, entrevistas para a imprensa... Mesmo com essa agenda movimentada, Patrick Mendes, CEO da Accor para América do Sul, atendeu ao Hotelier News da mesma forma que costuma se relacionar com o trade: com educação, sendo bastante direto e, sobretudo, transparente.

Ontem (29), imediatamente após a live Governança e modelos de negócio em tensão, o Hotelier News emendou uma conversa com Mendes. Deu tempo de, literalmente, beber água, ir ao banheiro e pegar o bloco de anotações. Zero problema e, na verdade, valeu toda correria. Foi extremamente esclarecedor conversar com uma das principais lideranças da hotelaria no país, interlocutor central do setor com o governo federal. Perspectiva de reabertura das unidades no país, relação com os investidores e projeções e planos da Accor para a retomada, entre outros assuntos, estiveram na pauta da conversa.

A entrevista completa será publicada na segunda-feira (4), mas não dava para perder a oportunidade de usar alguns dos melhores momentos da conversa com Mendes para um Três perguntas para. Agora vai uma pequena pílula de informação, mas não deixe de ler até o final. "Nossa projeção é que o resultado de 2020 será de 40% a 50% inferior a 2019 na América do Sul. Por isso, estamos revisando custos e processos operacionais para que consigamos amenizar a crise para investidores e parceiros", afirma. "Em relação a 2021, nossa previsão é que, no último trimestre, voltaremos a um patamar equivalente ao dos últimos três meses de 2019", completa.

Três perguntas para: Patrick Mendes

Hotelier News: Já existe perspectiva real de reabertura de hotéis? Quais critérios a Accor usará neste processo?

Patrick Mendes: Sim, alguns hotéis já estão querendo abrir, até porque alguns deles custam mais caro fechados do que ao contrário. São raros, mas existem. Então, embora ainda desejamos postergar um pouco essa decisão, alguns proprietários e franqueados desejam reabrir as unidades já na segunda quinzena de maio. Ainda assim, só para dar um exemplo, temos 80 hotéis abertos: o Novotel Porto Atlântico (Rio de Janeiro) está com 45% de ocupação, há outras propriedades com demanda do segmento offshore, de tripulações de companhias aéreas ou estão abertas para atender aos profissionais da saúde. É aquilo: se o hotel está fechado, não há demanda, mas se reabri-lo de repente essa demanda pode voltar, e nós estamos trabalhando nisso. 

Então, em referência à segunda parte da resposta e aos critérios para a reabertura, o primeiro tem relação com as diferentes ações que estamos promovendo e que vão nos ajudar a ter uma parte dessa procura pelos clientes. Acreditamos, portanto, que marca terá muita força na retomada do mercado. Estamos finalizando a parceria e definindo os processos operacionais com o Bureau Veritas. No total, são 150 novos standards de higiene, que comunicaremos ao mercado na terça-feira (5) e que já estamos implementando em nossos hotéis. Será um ponto importante para tranquilizar o consumidor e garantir que, se ele está confinando, pode ir para sua segunda casa conosco porque será bem recebido, em uma marca que conhece.

Por fim, outro critério é o business, e aqui dependeremos do processo de desconfinamento e das decisões das autoridades. Se o governo de São Paulo, por exemplo, definir que hotéis, restaurantes e o comércio podem voltar a operar a partir do dia 10 maio, naturalmente vai ser criada uma demanda. Em relação a isso, nosso critério é 20% a 25% de ocupação no segundo mês de operação. Para ter essa previsibilidade, ferramentas de gestão e de RM (Revenue Management), além dos nossos website e programa de fidelidade, vão nos permitir saber facilmente se o hotel chegará ou não a este patamar. Se não atingir, não abrimos. Em paralelo, estamos trabalhando para reduzir nossos custos operacionais para que, a partir de 20% ou 25% de ocupação, a unidade seja rentável. Por fim, campanhas de marketing serão importantes para comunicar e provocar o consumidor a viajar novamente. Se você passa uma mensagem mais otimista, acredito que muita gente voltará a viajar, principalmente depois de saber que os hotéis estão seguros.

Três perguntas para - Patrick MendesMendes: balanço do 1º trimestre não traduz gravidade do momento

HN: Você vem liderando as negociações com a equipe econômica do governo. Pelo que conversamos com FOHB e outras entidades, são três grandes pleitos em debate: flexibilização das relações trabalhistas, acesso a crédito e alívio e parcelamento de obrigações fiscais. Faça uma avaliação das conversas até aqui.

PM: O que está quase resolvido, e praticamente aceito, é a flexibilização de impostos, como o que incide sobre a folha de pagamento, entre outros. O que está andando agora e que, numa escala de um a 10 estamos daria seis ou sete, é a questão da linha de crédito. Está avançando, mas ainda esperamos uma avaliação final. O que não evoluiu suficientemente e que precisa andar rapidamente é a prorrogação da Medida Provisória 936

Embora não devessem circular por aí, você disse que ouviu meus áudios e, de fato, o governo nos deu acesso e nos escutou como nunca antes, o que foi muito positivo. Acontece que outros setores fizeram a mesma coisa e, no final das contas, a MP 936 foi multisetorial. Foi bom para todas as indústrias, mas não atende plenamente às nossas necessidades. Nossas conversas com o governo agora giram em torno do entendimento de que todos os segmentos foram afetados, uns com impacto de 25% e outros com 95%, que é o caso da hotelaria e das companhias aéreas. Queremos sensibilizá-los de que seria importante ter uma segunda fase de ajuda do governo, dessa vez mais setorial. 

Então, o que nós pedimos agora é uma prorrogação de 120 dias da MP 936. Esse pleito ainda não avançou completamente, e é a coisa mais importante do momento, pois será uma maneira de salvar a cadeia turística e empregos. Se isso não ocorrer, o problema vai chegar lá na frente: os hotéis vão reabrir com a obrigação de dar estabilidade de emprego e, daqui a quatro meses, poderá haver uma segunda onda de desemprego. E quero deixar claro que não estou fazendo catastrofismo aqui.

HN: Analisando o balanço da Accor no primeiro trimestre, o resultado ainda não mostra o real impacto do coronavírus. Será mesmo o segundo trimestre o retrato mais fiel da situação? Em termos de performance dos indicadores, o que esperar para 2020 e 2021?

PM: Claramente o impacto maior será no segundo trimestre e comunicamos isso ao mercado. Tinha muita gente animada com os resultados da Accor, com apenas 25% de queda, sendo recuo de 11% no Brasil. Não é um retrato verdadeiro do momento. Tivemos janeiro e fevereiro muito bons, 9% acima de 2019, que já tinha sido um ano melhor do que 2018. Então, até 10 de março estava tudo indo bem e, de repente, houve uma queda abrupta. Ainda assim, o primeiro trimestre não foi ruim, até em função das circunstâncias. No entanto, prefiro restabelecer a verdade aos nossos stakeholders, dizendo a eles que abril, maio e junho vão traduzir a realidade. 

Nossa projeção é que o resultado de 2020 será de 40% a 50% inferior a 2019 na América do Sul. Por isso, estamos revisando custos e processos operacionais para que consigamos amenizar a crise para investidores e parceiros. Em nível global, será mais ou menos a mesma tendência, dependendo das características dos países e do processo de desconfinamento. Na China, por exemplo, vai recuperar mais rápido porque tanto o confinamento, quanto o desconfinamento, foram muito bem feitos. Aqui, não sabemos. Os números relacionados ao confinamento são de 50% ou 60%, dados que mudam todos os dias. Ainda não temos certeza se o surto pode voltar, o que iria colocar em confinados novamente. Perante essa incógnita, estou comunicando às nossas equipes e investidores que vamos trabalhar com esse cenário de 40% a 50% de queda. 

Em relação a 2021, nossa previsão é que, no quarto trimestre, voltaremos a um patamar equivalente ao dos últimos três meses de 2019. Agora, vale destacar que o resultado do ano passado tinha um contexto de retomada após uma crise pesada, com diárias baixas e em um processo de recuperação da tarifa, além de 55% a 60% de ocupação, em média. Há, contudo, duas variáveis importantes para o futuro: vacina e remédio. Se saírem logo, acelera esse processo de retomada do mercado. Uma incógnita é o segmento Mice, que é realmente uma parte preocupante. Acreditamos que grandes eventos devem demorar um pouco mais para retomar e que será necessário compensar isso com outro tipo de demanda.

(*) Crédito das fotos: Vinicius Medeirtos/Hotelier News

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