Grande parte do impacto de uma operadora de turismo acontece fora de suas próprias paredes, envolvendo hotéis, transportadoras, guias, experiências, fornecedores locais, comunidades e viajantes. É uma cadeia extensa, que influenciamos, mas não controlamos diretamente.
Essa reflexão ganhou força durante a jornada da Matueté para se tornar uma Empresa B. Começamos aprimorando processos e controles internos, mas, ao avançarmos na Política de Fornecedores, no inventário de gases de efeito estufa (GEE) e na dupla materialidade, percebemos que, se quiséssemos ampliar nosso impacto positivo, precisaríamos olhar para toda a cadeia que envolve uma viagem.
Uma viagem pode adotar boas práticas ambientais e, ainda assim, gerar pouco valor para o território em que ocorre. Precisamos considerar quanto desse valor permanece no destino, quem participa dessa economia e quem tem voz sobre a forma como o turismo se desenvolve.
Essa reflexão é especialmente importante no turismo de alto padrão. O luxo pode ser parte do problema, mas também parte da solução. É parte do problema quando a exclusividade implica consumo desproporcional de recursos, altas emissões ou concentração do valor econômico. Por outro lado, esse turismo não depende necessariamente de volume para gerar valor. Menos visitantes, com maior valor por viagem, podem significar menor pressão sobre os territórios e mais recursos para conservação, fornecedores e comunidades.
Gerar empregos e contratar fornecedores locais é importante, mas também precisamos considerar a participação e o poder de decisão das comunidades. Para as operadoras, isso significa conhecer melhor seus parceiros, entender como se relacionam com as comunidades e quanto do valor gerado permanece no território. Não controlamos diretamente essas práticas, mas podemos criar critérios, fazer as perguntas certas e priorizar parceiros alinhados a esses princípios.
Os clientes também fazem parte dessa cadeia. Não deveríamos buscar simplesmente aumentar o número de visitantes no Brasil a qualquer custo. Importa como esse viajante viaja, o que consome, quais experiências e fornecedores escolhe e quanto valor sua viagem gera nos destinos. Mais turistas não significam necessariamente um turismo melhor.
Na Matueté, um dos caminhos para avançar nessa direção é a Política de Fornecedores que estamos desenvolvendo, com critérios socioambientais, avaliação de riscos e acompanhamento. O objetivo não é simplesmente excluir quem ainda não atingiu determinada régua, mas estabelecer critérios mínimos, incentivar a evolução das práticas e buscar soluções adequadas às diferentes realidades da nossa cadeia.
Esse desafio também não pertence a uma única empresa. Operadoras, hotéis e outros atores do turismo competem comercialmente, mas compartilham muitos dos mesmos desafios. Queremos ampliar a troca de aprendizados e ferramentas, ouvindo também fornecedores e comunidades e buscando soluções de forma conjunta.
Produzir viagens melhores é apenas parte desse compromisso. Queremos contribuir para um turismo que valorize destinos, fortaleça comunidades, preserve a biodiversidade e distribua melhor o valor que gera.
Ainda temos muito a aprender, testar e construir junto com todos que fazem parte dessa cadeia se quisermos melhorar a forma como fazemos turismo no Brasil.
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Caroline Vaslin Diniz Mundim é Diretora Comercial da Matueté. Mestre em Administração pela Faculdade de Ciências Empresariais da FUMEC (2016), com área de concentração em Estratégia em Organizações e Comportamento Organizacional. Sua carreira é dedicada ao turismo premium, com expertise em posicionamento competitivo, relacionamento com viajantes de alto padrão e desenvolvimento de produtos regenerativos e responsáveis. É presença constante em fóruns da BLTA sobre selos, certificações e boas práticas de ESG no luxury travel.
(*) Crédito da foto: arquivo pessoal da autora





