O envelhecimento da população está transformando diferentes setores da economia, e o turismo acompanha esse movimento. Com maior expectativa de vida, melhores condições financeiras e disposição para viajar, pessoas com mais de 60 anos passaram a representar um público cada vez mais relevante para a indústria de viagens. Assim, surge uma questão para o mercado de aluguel por temporada: um segmento historicamente associado a consumidores mais jovens está preparado para atender às necessidades e preferências dos viajantes 60+?
No Brasil, os sinais dessa mudança já são evidentes. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que, em 2023, pela primeira vez, a população idosa superou a faixa etária de 15 a 24 anos, refletindo uma mudança estrutural na composição demográfica do país. Paralelamente, plataformas como o Airbnb registram aumento da participação de pessoas com mais de 60 anos, tanto entre hóspedes quanto entre anfitriões. A tendência indica que esse público deve ganhar relevância não apenas na oferta de acomodações, mas também na demanda por estadas de curta e média duração.
Esse cenário cria oportunidades e desafios para operadores, administradoras e proprietários de imóveis destinados ao aluguel por temporada. Mais do que preços competitivos, os viajantes 60+ costumam priorizar acessibilidade, segurança, conforto, localização, praticidade e flexibilidade para permanências mais longas. Diante desse cenário, a questão é entender se o envelhecimento da população já impacta o mercado de short-term rental ou se ainda representa uma oportunidade pouco explorada por um setor que concentra boa parte de sua comunicação em consumidores mais jovens.
Para Yuri Mourão, sócio-proprietário da Yes Temporada, o público com mais de 60 anos deve ganhar participação no mercado de aluguel por temporada, mas essa transformação ocorre em conjunto com mudanças na dinâmica das viagens em família. Em entrevista ao Hotelier News, o executivo afirma que os idosos concentram cada vez mais poder aquisitivo, enquanto filhos e netos assumem a responsabilidade de pesquisar destinos, realizar reservas e lidar com plataformas digitais.
“O mercado de short-term rental precisa entender que o ‘pagador’ mudou. O público 60+ possui maior estabilidade financeira, mas muitas vezes sua entrada no aluguel por temporada é viabilizada pelos jovens, que atuam como curadores tecnológicos e organizam toda a experiência da viagem”, explica.
Na avaliação de Mourão, a combinação entre o poder de compra dos idosos e a familiaridade digital das gerações mais jovens tende a ampliar a presença desse público no aluguel por temporada. Segundo ele, esses viajantes procuram unir o conforto de uma residência à segurança operacional oferecida por empresas especializadas na gestão dos imóveis.

O executivo acredita que essa mudança exige adaptações tanto na infraestrutura das propriedades quanto na forma como o setor se relaciona com os hóspedes. Entre elas, cita melhorias de acessibilidade e a adoção de automações simples, capazes de facilitar a experiência sem torná-la excessivamente dependente da tecnologia. No aspecto comercial, defende que operadores priorizem estadas mais longas, já que esse perfil de consumidor costuma ter maior disponibilidade de tempo e valoriza praticidade durante a hospedagem.
“Embora o jovem facilite a reserva, o viajante 60+ continua valorizando o atendimento humano. Quem não adaptar processos, suporte e segurança operacional pode ficar de fora de uma das parcelas mais relevantes da Economia Prateada”, diz o sócio da Yes Temporada.
Além da operação, Mourão aponta a comunicação como outro desafio para o setor. Segundo ele, grande parte das estratégias de marketing do aluguel por temporada ainda é direcionada ao público jovem e deixa de destacar atributos valorizados pelos viajantes seniores. Em vez de enfatizar apenas tecnologia ou experiências, o mercado deveria comunicar aspectos como suporte durante toda a estadia, transparência, proximidade de serviços e facilidade de uso.
O executivo também destaca o crescimento de nichos específicos, como grupos de mulheres com mais de 60 anos que viajam juntas em busca de independência e segurança. “O anfitrião que comunicar conforto sem complicação e souber dialogar tanto com o viajante 60+ quanto com o jovem que organiza a viagem terá uma taxa de ocupação mais estável e resiliente”, conclui.
Público 60+ exige operação mais simples
Fabio Nahon, sócio-diretor da Pineapples, aponta que o envelhecimento da população deve impulsionar o mercado de aluguel por temporada, ainda que de forma diferente de outros segmentos do turismo. Para o executivo, características como espaço, privacidade, autonomia, cozinha equipada e lavanderia atendem às preferências dos viajantes 60+, especialmente em estadias mais longas.
“O público 60+ que opta pelo aluguel por temporada é, em geral, um viajante independente, mas que exige um processo de entrada simples, comunicação acessível e imóveis com boa infraestrutura. A operação precisa estar preparada para isso”, afirma.
Embora a Pineapples ainda não disponha de dados segmentados por faixa etária, Nahon pontua que a empresa já identifica comportamentos típicos de um público mais maduro. Entre eles estão a preferência por estadas prolongadas, o uso do WhatsApp como principal canal de comunicação, a necessidade de mais esclarecimentos antes da reserva e maior dificuldade com processos totalmente digitais. Para o executivo, o crescimento da participação de idosos no turismo, especialmente no Rio de Janeiro, reforça que essa tendência deve ganhar força nos próximos anos.

As principais adaptações implementadas pela empresa ocorreram na operação, e não necessariamente nos imóveis. A jornada de check-in foi simplificada, com redução da quantidade de informações exigidas nos formulários digitais, enquanto as instruções passaram a utilizar uma linguagem mais direta e objetiva. Além disso, hóspedes com limitações de mobilidade são direcionados, sempre que possível, para unidades com elevador.
“O mercado começa a reconhecer que o check-in 100% automatizado, embora eficiente, precisa ter uma camada humana disponível. Para nós, isso não representa um retrocesso operacional, mas um posicionamento de qualidade”, avalia Nahon.
Na avaliação do executivo, os próximos anos também devem ampliar a procura por imóveis mais acessíveis, com elevadores, boa iluminação e menos barreiras arquitetônicas. Ele também prevê aumento das reservas realizadas com maior antecedência e de estadias prolongadas, inclusive fora da alta temporada.
“A resposta não é abandonar a automação, mas criar camadas de atendimento. O hóspede precisa encontrar um processo eficiente, mas também ter apoio humano quando necessário. Quem conseguir oferecer essa combinação estará mais preparado para atender o viajante 60+ e aproveitar o potencial de crescimento desse mercado”, analisa Nahon.
Qualidade da experiência pesa mais do que a idade
Mônica Medeiros, CCO da Seazone, afirma que os viajantes com mais de 60 anos vêm ampliando sua participação no aluguel por temporada, mas ainda representam uma parcela reduzida da base de hóspedes da empresa. Segundo a executiva, imóveis compactos — principal foco da plataforma — continuam sendo procurados majoritariamente por solteiros, casais e famílias pequenas, perfil que também predomina no Airbnb. Atualmente, os hóspedes 60+ representam menos de 10% da demanda da companhia, embora esse público tenha registrado crescimento de aproximadamente 7% no último ano.

Mônica acredita que o envelhecimento da população não deve provocar mudanças radicais no perfil da demanda, pois o próprio conceito de terceira idade evoluiu. Segundo ela, pessoas na faixa dos 60 anos estão mais ativas, saudáveis e interessadas em aproveitar o tempo livre com viagens e novas experiências.
“Hoje, 60 anos é o novo 45. Esse consumidor quer viajar, ir à praia, ao teatro, ao cinema e viver experiências. Ele não quer ser tratado como um idoso frágil, mas como qualquer outro viajante que busca conforto e qualidade”, afirma.
A executiva ressalta que as expectativas desse público não diferem significativamente das de consumidores mais jovens. Limpeza, conforto, boa localização e atendimento eficiente continuam sendo os principais fatores na escolha da hospedagem. A principal diferença, segundo ela, está na preferência por regiões mais tranquilas, afastadas de áreas com intensa vida noturna.
“Quem tem recursos para viajar busca qualidade de serviço, independentemente da idade. O viajante 60+ espera ser tão bem atendido quanto alguém de 30 ou 40 anos”, diz. Mônica também observa uma mudança no perfil dos investidores do aluguel por temporada. De acordo com a CCO, cresce o número de aposentados interessados em atuar como anfitriões e administrar os próprios imóveis como fonte de renda, contando com o suporte de empresas especializadas na gestão das propriedades.
Ao mesmo tempo, a executiva acredita que a busca por hospedagens mais flexíveis continuará favorecendo o aluguel por temporada em relação aos hotéis, principalmente entre consumidores que valorizam autonomia, espaço e uma experiência mais próxima da rotina do destino.
Para Mônica, essa transformação também ajuda a explicar por que modelos voltados exclusivamente ao público sênior, como alguns empreendimentos de senior living, podem não atender às expectativas dessa nova geração de viajantes.
“As pessoas estão vivendo mais e melhor. Quem está saudável quer continuar perto de pessoas ativas, viajar, conhecer lugares e aproveitar a liberdade que conquistou. É esse comportamento que vemos em mercados como Florianópolis e São Paulo”, finaliza.
Embora a participação dos viajantes 60+ ainda seja relativamente pequena no aluguel por temporada, o envelhecimento da população indica que esse perfil deve ganhar relevância nos próximos anos. Mais do que adaptar imóveis, operadores e administradoras terão de equilibrar tecnologia, atendimento humanizado, acessibilidade e comunicação para atender às expectativas desse público.
Em um mercado cada vez mais competitivo, compreender as transformações da Economia Prateada pode representar não apenas uma oportunidade de crescimento, mas também um diferencial estratégico para empresas que buscam ampliar sua demanda e reduzir a dependência da sazonalidade.
(*) Crédito das fotos: Divulgação













