A pergunta do título ressoa com um problema latente do setor: a falta de mão de obra qualificada. Com a escassez de profissionais disponíveis, é preciso olhar para a base e entender quais são as prioridades na formação de colaboradores e como esses fatores podem contribuir com a entrega de serviços do segmento. Com o intuito de unir educação e mercado de trabalho, o projeto TRILHO (Trajetórias de Inserção Laboral em Hotelaria) busca suprir as lacunas existentes nos quadros de funcionários com a capacitação de pessoas em situação de vulnerabilidade.
A iniciativa, fruto da parceria entre a FTH-UFF (Faculdade de Turismo e Hotelaria da Universidade Federal Fluminense) e ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), busca responder a três desafios: o das universidades, de exercer seu papel extensionista e fortalecer sua relevância social; o da sociedade civil, de promover a inserção laboral de populações vulneráveis; e o dos hotéis, de encontrar e reter talentos. O objetivo comum é criar vínculos colaborativos e permanentes entre as partes, promovendo justiça social e econômica.
A proposta parte da premissa de que a universidade pode atuar como intermediadora entre instituições provedoras de mão de obra e hotéis, contribuindo para a promoção do trabalho decente e da redução das desigualdades — princípios alinhados aos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas).
De um lado, o setor hoteleiro busca novos profissionais e maior retenção de funcionários; de outro, há a necessidade urgente de integrar ao mercado de trabalho pessoas em busca de renda e oportunidades. O TRILHO atua justamente nesse ponto de convergência.
No ano passado, as universidades iniciaram um projeto piloto em 2024, com testes e capacitações em parceria com o Fundo FICA (Fundo Imobiliário Comunitário para Aluguel), ligado ao padre Júlio Lancelotti.

Formação de base e oportunidades
O programa oferece cursos de curta duração, gratuitos ou de baixo custo, ministrados nas universidades parceiras. Os módulos incluem temas como Introdução à Hotelaria, Preparação Pessoal para Atuação Profissional, Comunicação e Interação Pessoal, Estruturação do Trabalho na Hotelaria, Recepção de Hóspedes, Serviços de Limpeza e Manutenção, entre outros.
O projeto-piloto ocorreu entre maio de 2024 e abril de 2025, período em que foram realizadas nove reuniões de trabalho e três treinamentos gerais. Após ajustes metodológicos, os cursos passaram a ter duração de duas horas por módulo. Desde então, as capacitações estão disponíveis tanto para beneficiários do programa quanto para colaboradores de hotéis parceiros.
Os primeiros resultados já foram alcançados: um dos beneficiários, Jackson Jesus Ferreira, foi efetivado em dezembro de 2024 no Hotel Emiliano São Paulo, na área de Manutenção, e Mikaelly Tamiris Ferreira Daguimar, que atua desde maio de 2025 no Hotel Renaissance São Paulo.
“Atuamos com pessoas de diferentes níveis de escolaridade. Por isso, desenvolvemos apostilas mais elaboradas e lúdicas, com cartilhas rápidas e mais visuais. Procuramos os hotéis para a parceria com o projeto contando com o auxílio de colegas de formação que hoje ocupam postos de liderança no setor”, explica Ana Paula Spolon, professora da UFF.
No período de testes, 11 empresas e 12 hotéis fizeram parte do projeto. Este ano, o TRILHO promoveu seu primeiro curso de formação, encaminhando profissionais para hotéis e renovando a capacitação a cada seis meses com novos módulos de treinamento.
“Focamos muito em soft skills, cuidado pessoal e atendimento ao cliente. No início, os resultados não foram tão satisfatórios, pois muitos candidatos não completaram o processo seletivo. Buscamos entender por fora os empecilhos para conseguir inserir as pessoas no mercado de trabalho”, completa Ana Paula.
Em maio deste ano, o projeto estabeleceu novas parcerias com ONGs e hotéis, desta vez no Rio de Janeiro. Nesta etapa, há também o recadastramento de parceiros da sociedade civil responsáveis por identificar e preparar novos participantes.
“Universidades estão entrando para ingressarmos com a parceria em outras cidades. O TRILHO atua como um projeto de extensão nas instituições com módulos gratuitos por com valor simbólico”, pontua a professora.

Pesquisa com o setor hoteleiro
Em paralelo às ações de capacitação, o TRILHO conduz uma pesquisa com hotéis parceiros, com o objetivo de identificar as áreas que mais demandam treinamento e desenvolvimento profissional. Os resultados serão compartilhados com o setor, garantindo confidencialidade e tratamento ético das informações. Para responder, acesse o link.
“Vamos entender o que os hotéis precisam que seja ensinado em cada nível de colaborador. Só vamos conseguir escalar o projeto depois de identificar essas demandas. Esta é uma pergunta que nunca foi feita para a hotelaria”, salienta a professora.
Os conteúdos dos cursos são introdutórios sobre a organização da hotelaria, hierarquização do setor, escalas, turnos, uniforme, entre outros fundamentos. Os módulos seguintes são focados em comportamento e interação social, além de apresentação pessoal, comunicação corporativa e educação financeira.
A professora Ana Paula coordena o TRILHO ao lado dos docentes Profa. Dra Débora Cordeiro Braga (USP); Profa. Dra Lúcia O. da Silveira Santos (UFF); Prof. Dr Aguinaldo Fratucci (UFF) e Prof. Dr Ari Fonseca Filho (UFF).
(*) Crédito das fotos: Divulgação















