Uma matriz de materialidade pode permanecer exatamente igual enquanto o risco da organização dobra.
A afirmação parece contraditória. Afinal, se o risco aumenta, não deveria a materialidade mudar também? A resposta é não. E compreender essa diferença talvez seja um dos passos mais importantes para amadurecer a gestão ESG. Uma organização pode manter exatamente os mesmos temas materiais durante anos enquanto sua exposição ao risco se transforma continuamente. Não porque a materialidade esteja errada, mas porque ela nunca teve a função de medir risco.
Nos últimos anos, a materialidade consolidou-se como uma das principais ferramentas da agenda ESG. Por meio dela, empresas identificam os temas mais relevantes para seus negócios, dialogam com stakeholders, definem prioridades e orientam suas estratégias de sustentabilidade. Trata-se de um exercício essencial para compreender o que realmente importa para a organização e para aqueles que são afetados por suas decisões. O problema surge quando se espera que essa mesma ferramenta seja capaz de mostrar como a exposição ao risco evolui ao longo do tempo.
São perguntas diferentes. A materialidade procura responder quais temas possuem maior relevância estratégica. A gestão de riscos procura compreender como as mudanças nesses temas alteram a probabilidade de a organização alcançar seus objetivos. A primeira estabelece prioridades. A segunda acompanha a dinâmica da incerteza. Confundir essas duas perspectivas significa atribuir à materialidade uma responsabilidade que ela nunca pretendeu assumir.

Imagine um hotel cuja matriz de materialidade já identifica segurança da informação como um tema prioritário. Em determinado momento, uma atualização defeituosa de software paralisa aeroportos, hospitais, bancos e redes hoteleiras em diversos países. O tema continua exatamente o mesmo. A matriz provavelmente permanecerá inalterada. O que mudou foi a percepção sobre a dependência de fornecedores críticos, sobre a vulnerabilidade das operações digitais e sobre a necessidade de fortalecer planos de continuidade de negócios. A materialidade permaneceu estável. A exposição ao risco não.
O mesmo raciocínio aplica-se às demais dimensões ESG. Uma seca prolongada não transforma a gestão da água em um novo tema material para um resort. Um conflito geopolítico não cria um novo tema relacionado à cadeia de suprimentos. Uma alteração regulatória não torna a privacidade de dados subitamente relevante. Todos esses temas já eram importantes antes do acontecimento. O que muda é a intensidade com que passam a ameaçar os objetivos da organização. É exatamente essa mudança que exige revisão de decisões, redistribuição de recursos e fortalecimento de controles.
Essa distinção ajuda a compreender por que ESG e gestão de riscos não competem entre si. ESG oferece a estrutura para interpretar as transformações ambientais, sociais e de governança que ocorrem no ambiente de negócios. A gestão de riscos avalia como essas transformações afetam a capacidade de a organização criar e proteger valor. Enquanto uma disciplina explica a natureza da mudança, a outra orienta a resposta gerencial. Separadas, ambas oferecem apenas uma visão parcial da realidade. Integradas, tornam-se instrumentos poderosos para apoiar decisões executivas.
Na hotelaria, essa integração assume importância ainda maior. A operação depende simultaneamente de pessoas, tecnologia, infraestrutura, energia, água, mobilidade, fornecedores, plataformas digitais e condições ambientais. Nenhum desses fatores é novo. O que muda continuamente é a exposição da organização às incertezas associadas a cada um deles. É por isso que uma fotografia periódica dos temas materiais, por mais bem elaborada que seja, não consegue substituir um acompanhamento permanente das mudanças que alteram o perfil de risco do negócio.
Essa é a lógica que orienta o Observatório ESG da Hotelaria. Não buscamos identificar quais temas são importantes para o setor, porque essa discussão já está consolidada nos processos de materialidade. Nosso propósito é interpretar como acontecimentos concretos modificam a exposição ao risco das organizações e por que essas mudanças exigem novas decisões. A notícia é apenas o ponto de partida. A verdadeira unidade de análise é a transformação da exposição ao risco.
Uma matriz de materialidade pode permanecer exatamente igual durante anos. A exposição ao risco pode mudar em questão de horas. Compreender essa diferença talvez seja uma das competências mais importantes para as organizações que desejam transformar ESG em uma capacidade efetiva de gestão.
ESG explica o que está mudando. A gestão de riscos explica por que isso importa.
O Observatório ESG da Hotelaria não monitora notícias. Monitora mudanças na exposição ao risco da hotelaria.
Referencias Bibliográficas
HUBBARD, Douglas W. The Failure of Risk Management: Why It’s Broken and How to Fix It. 2. ed. Hoboken: John Wiley & Sons, 2020.
IFRS FOUNDATION. IFRS S1 – General Requirements for Disclosure of Sustainability-related Financial Information. London: IFRS Foundation, 2023.
ISO. ISO 31000:2018 – Risk management — Guidelines. Geneva: International Organization for Standardization, 2018.
SEIERSEN, Jack; SPRONG, Andrew. One Step Ahead: A Modern Cybersecurity Manifesto. Hoboken: John Wiley & Sons, 2024.
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CSO (Chief Sales Officer) da GRCiber, Sócio da Muncinelli Consultoria e Treinamento. Professor em cursos de MBA em programas como FGV Management, Grupo Ânima, PUC-PR, dentre outros. Co-fundador do C2T – Formação de Conselheiros de Tecnologia na GoNew. Exerceu cargos executivos em empresas como Intedya (International Dynamic Advisors), Oi, Brasil Telecom, NET, Between do Brasil e GVT, atuando em gerenciamento de projetos e processos, desenvolvimento de negócios e suporte técnico. Membro do Conselho Consultivo do Grupo BTZ (Coordenador do Comitê de Risco).Foi membro do Conselho Consultivo do Hub ESG Alagev. Engenheiro Eletricista (UFSC), Pós-Doutor em Engenharia de Produção e Sistemas (UTFPR), Doutor em Engenharia de Produção e Sistemas (PUCPR) (assunto da tese: Capabilidade de Processos para Compliance com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados)), Mestre em Engenharia Elétrica (UTFPR), Data Protection Officer (Universidad San Jorge – Espanha), Compliance Officer (Universidad San Jorge – Espanha), Executive Program in Project Management (The George Washington University – EUA), MBA em Gestão Comercial (FGV), Especialista em Telecomunicações (PUCPR), Especialista em Gestão Empresarial (UFSC) e Especialista em Concepção e Análise de Dispositivos Eletromagnéticos (UFSC). Auditor Líder na ISO27001:2013, na ISO9001:2015 e na ISO50001:2018. Certificado IPMA-D Certified Project Management Associate. É membro da International Society for Transdisciplinary Engineering (ISTE) e do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), formado no Curso de Conselheiros de Administração e membro da Comissão de Gerenciamento de Riscos Corporativos. Membro da ABNT nas comissões: ABNT/CEE-093 “Gestão de Projetos, Programas e Portfólio”; ABNT/CB-021/CE 021 004 027 “Segurança da Informação, segurança cibernética e proteção da privacidade”; ABNT/CEE-063 “Gestão de Riscos”; ABNT/CEE-256 Comissão de Estudo Especial de Environmental, Social and Governance – ESG; ABNT/CEE-256/GT3 – Acompanhamento do ISO/PC 343 SDG Sustainable development goals management. Membro Consultor da Comissão de Direito Digital e Proteção de Dados da OAB, Seção do Paraná.
(*) Crédito da Foto: Arquivo pessoal





