O Brasil está envelhecendo. E essa transformação, irreversível, passará inevitavelmente pelos corredores, recepções e quartos de hotéis, sobretudo os urbanos.
A categoria compreende a maior oferta da rede hoteleira nacional. Estudos estimam aproximadamente 10 mil estabelecimentos ativos nas cidades, o que significa cerca de 90% dos meios de hospedagem no Brasil.
Espalhados por diferentes centros, esses empreendimentos têm a oportunidade de funcionar como verdadeiros laboratórios para a inserção de inovação e iniciativas tanto para o consumo e uso inteligente de recursos naturais, quanto para a inclusão e diversidade, no convívio intergeracional que tende a crescer aceleradamente.
Em 2012, metade da população brasileira tinha menos de 30 anos. Hoje, há mais gente com mais de 50 do que com menos de 30. Em 2040, segundo as estimativas do IBGE1, nossa população vai parar de crescer, dando espaço ao aumento contínuo e progressivo no número de pessoas 50, 60+.
As cidades são palco aberto a esse fenômeno. Uma espécie de corredor grisalho e diverso, cada vez mais frenético, de gente se deslocando entre pequenos e grandes municípios, ora para consultas médicas e assuntos burocráticos, ora para o lazer, compras, excursões, ou visita a familiares e amigos.
Os hotéis urbanos, se e quando bem preparados, podem ser, mais que ponto de apoio a esse fluxo, o lugar fora de casa, a base segura e agradável à essa circulação que, certamente, vai se intensificar. Mesmo que por diferentes razões, o que prevalecerá é a melhor experiência, custe o que custar. Digo isso por conta própria.
Há pouco tempo, quando meus pais, já na faixa dos 70, moravam em Joanópolis, interior de São Paulo, houve um período em que, por questões de saúde, as idas até a capital tornaram-se frequentes. Em uma dessas ocasiões, foi preciso ficar hospedado em um hotel. Infelizmente, a experiência não foi tranquila. Tivemos dificuldades no deslocamento entre espaços, com meu pai, cadeirante. No quarto, mesmo informadas as condições específicas do hóspede, nos deparamos com alguns desafios desagradáveis, como camas altas demais e mobiliário inadequado. Esse é o tipo de vivência que salta aos olhos e marca a estadia. Em uma outra viagem, procuramos outro estabelecimento, que se mostrou muito mais bem preparado.
A economia prateada é assim. Não tem tempo a perder. Ouso dizer que, nessa fase da vida, a primeira impressão é, definitivamente, a que fica. Daqui a bem pouco tempo, no envelhecimento ativo, será mais frequente e intensa a troca intergeracional, com jovens e velhos compartilhando salas de aula, cargos semelhantes, e espaços de lazer e hospedagem.
As famílias estão ficando menores, em termos de consanguinidade, é verdade; mas, por outro lado, há novos arranjos. Assim, hospedar um grupo, muitas vezes e cada vez mais, significará também acolher um hóspede 60+, em toda a diversidade que esse contingente etário tem.
Em outras palavras, a economia prateada não é um nicho, mas um público estruturante aos meios de hospedagem. E na cidade, essa é uma realidade forte e cotidiana, que traz um potencial de legado incrível: o hotel urbano tem a chance de protagonizar o acolhimento à longevidade brasileira, promover o rico convívio entre gerações e inspirar iniciativas favoráveis para o envelhecer, que é uma experiência coletiva.
Ignorar esse desafio é perder mercado, reputação e relevância.
Referência bibliográfica
1Estudo estratégico sobre as perspectivas estratégicas para o Brasil no horizonte 2050. Secretaria Nacional do Planejamento. Portal Gov.br, 2025. Disponível em https://www.gov.br/planejamento/pt-br/assuntos/planejamento/estrategia-2050-conteudo/Arquivos/eb2050-estudo-perspectivas-demograficas.pdf. Acesso em: 5 jun.2026.
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Vanessa Costa é jornalista, com especialização em comunicação corporativa pela Fundação Cásper Líbero; ESG e Stakeholders pela FIA Business School e Fundação Getúlio Vargas, e em Gestão de Projetos pela Esalq/USP, com mais de 20 anos de experiência em comunicação corporativa e jornalismo. Atuou em veículos como a Folha de S.Paulo e em agências de comunicação atendendo empresas nacionais e multinacionais de diversos setores. Integra o time de consultores do projeto Hospitalidade Sustentável Brasil (HSB) e é coautora do Guia da Hospitalidade Sustentável. Fundadora da Registro e Memória – Comunicação e Gestão da Informação, desenvolve projetos em comunicação, memória empresarial e assessoria de imprensa.
É membra conselheira do Movimento Bstory, voltado ao combate ao etarismo e à promoção da longevidade saudável, além de autora do livro infantil As Fadas Banguelas.
(*) Crédito da foto: arquivo pessoal do autor















