InícioHub DesignXHospitalidadeHotel Unique: o retrofit que renovou um ícone sem apagar sua identidade

Hotel Unique: o retrofit que renovou um ícone sem apagar sua identidade

Poucos edifícios hoteleiros estão tão associados à imagem de São Paulo quanto o Hotel Unique. Inaugurado há 24 anos, o empreendimento projetado pelo arquiteto Ruy Ohtake atravessou mudanças econômicas, comportamentais e urbanas sem perder sua condição de referência na hotelaria de luxo. Mas até mesmo um ícone precisa se atualizar.

Wellington Melo, diretor geral e Larissa Cruz, gerente de Receitas

Diante da chegada de novos concorrentes, da transformação das expectativas dos hóspedes e da necessidade de modernizar sua infraestrutura, o Unique iniciou um amplo processo de reposicionamento. O projeto envolveu um investimento de aproximadamente R$ 75 milhões e foi conduzido enquanto grande parte do hotel continuava em operação.

Em entrevista ao Hub Hotel DesignX da Hotelier News, Wellington Melo, diretor geral do Hotel Unique, e Larissa Cruz detalharam os bastidores do retrofit, desde a construção dos cenários financeiros até os testes de materiais, a redução temporária do inventário e a participação dos colaboradores nas decisões do projeto.

Mais do que uma reforma estética, o processo tornou-se um exercício de preservação de identidade, gestão de riscos e transformação organizacional.

Continuar sendo o Unique

Ícone paulistano

A principal orientação estabelecida para o retrofit parecia simples, mas carregava um desafio complexo: depois da reforma, o hotel precisava continuar sendo reconhecido como o Unique.

Não bastava renovar acabamentos ou incorporar soluções contemporâneas. Era necessário preservar o DNA irreverente, artístico e provocativo que diferencia o empreendimento desde sua inauguração.

Para explicar o conceito desejado para os novos apartamentos, o proprietário recorreu a uma imagem deliberadamente desconcertante: um quarto minimalista e totalmente branco, ocupado apenas por uma banheira vitoriana, dentro da qual estaria o vocalista do The Cure, com maquiagem marcante.

A cena não deveria ser reproduzida literalmente. Funcionava como uma síntese conceitual.

O Unique não poderia se tornar apenas bonito, elegante ou confortável. Precisaria continuar provocando alguma reação — surpresa, curiosidade, estranhamento ou questionamento. Em um mercado no qual o luxo tende a repetir códigos visuais semelhantes, causar impacto permanece parte importante do posicionamento do hotel.

Essa lógica aparece no contraste entre referências clássicas e contemporâneas, entre a alta gastronomia e elementos afetivos da cultura brasileira. Na chegada, por exemplo, o champanhe Veuve Clicquot pode ser acompanhado por um tradicional dadinho.

É o encontro entre o sofisticado e o popular, o internacional e o brasileiro, o inesperado e o familiar.

Nos quartos renovados, a brasilidade também ganhou maior protagonismo. O mobiliário incorpora peças e referências de designers como Oscar Niemeyer, Sergio Rodrigues e Percival Lafer, reforçando a relação entre hospitalidade, arte, arquitetura e design nacional.

Uma reforma financiada pelo próprio negócio

Projeções orientaram a decisão

O projeto foi estruturado em um contexto especialmente desafiador. Após a pandemia, o hotel precisava renovar seu produto sem depender de aportes externos, utilizando os recursos gerados pela própria operação.

Larissa teve papel central na construção dos estudos financeiros e das projeções que orientaram a decisão. Foram analisados três cenários para os cinco anos seguintes: a continuidade do hotel sem reforma, uma intervenção parcial e uma renovação mais abrangente.

No cenário sem retrofit, as projeções indicavam perda gradual de competitividade. Enquanto novos hotéis entravam no mercado com apartamentos maiores, infraestrutura atualizada e novas propostas de luxo, o Unique poderia enfrentar estagnação da diária média e envelhecimento de seu produto. Os números ajudaram a transformar a reforma de uma possibilidade em uma decisão estratégica.

Depois da aprovação, a execução avançou rapidamente. Em apenas cinco dias após a liberação dos primeiros espaços, começaram as demolições. A decisão foi além de uma atualização superficial. As paredes internas dos apartamentos foram demolidas e reconstruídas, possibilitando melhorias no isolamento acústico e na organização dos ambientes.

Em projetos desse porte, a precisão revela eficiência orçamentária, qualidade do planejamento, das especificações e do acompanhamento contínuo da execução.

Um protótipo antes da transformação completa

Renovação começou em alguns apartamentos como um protótipo operacional

Para reduzir riscos, a renovação começou apenas em dez apartamentos. Essa primeira etapa funcionou como um protótipo operacional.

Além de permitir a avaliação do projeto arquitetônico, a fase inicial mostrou como poeira, ruído, transporte de materiais, circulação de equipes e bloqueio de elevadores poderiam afetar hóspedes e colaboradores.

A partir desse aprendizado, o hotel estruturou as etapas seguintes para os períodos de menor demanda, principalmente em meses entre dezembro e fevereiro.

Durante as obras, não era suficiente bloquear apenas o pavimento em reforma. Para diminuir os impactos acústicos, também eram retirados do inventário o andar imediatamente superior e o inferior. Em alguns momentos, o Unique operou com apenas 26 apartamentos disponíveis, todos pertencentes às categorias de suítes.

A equipe de vendas e reservas, entretanto, trabalhou para reposicionar temporariamente as suítes e preservar os relacionamentos comerciais durante a obra.

Era, como descreve Wellington, a tarefa de trocar a roda com o carro em movimento.

Menos quartos, mais espaço e competitividade

Reduzir o inventário pode ampliar o valor percebido e a rentabilidade

O retrofit também levou o hotel a rever seu inventário. O número de apartamentos foi reduzido permanentemente de 94 para 86 unidades.

Em vez de preservar o número total de unidades, o Unique decidiu ampliar apartamentos e criar novas suítes. A redução da densidade tornou-se, nesse sentido, uma escolha de posicionamento.

Menos quartos significaram mais espaço, maior conforto e melhor capacidade de competir por diária média, além de benefícios para a própria operação.

O projeto mostra que a eficiência hoteleira não depende necessariamente da maximização do número de apartamentos. Em determinados produtos, reduzir o inventário pode ampliar o valor percebido e a rentabilidade de cada unidade.

Quem opera também participa do projeto

Comitê formado por profissionais de áreas do hotel participam das decisões

Um dos aspectos mais relevantes do processo foi a participação dos colaboradores nas decisões do retrofit.

Antes mesmo das conversas definitivas com os arquitetos e fornecedores, a liderança reuniu um grupo formado por profissionais de diferentes áreas do hotel. O comitê incluiu, entre outros participantes, uma camareira reconhecida por seu desempenho, além de representantes da elétrica, manutenção e marcenaria.

A proposta era avaliar o projeto sob o ponto de vista estético, pela perspectiva de quem limparia, consertaria e conservaria os ambientes diariamente.

Em parceria com o escritório de João Armentano, responsável pelo projeto dos interiores originais e pela renovação, o grupo realizou testes práticos com pedras, tecidos e revestimentos.

Azeite, café, vinho e refrigerantes foram aplicados sobre diferentes superfícies para verificar porosidade, facilidade de limpeza e resistência a manchas antes da aprovação das especificações.

O método pode parecer simples, mas responde a um problema recorrente na hotelaria: materiais visualmente atraentes nem sempre suportam o uso intenso de um empreendimento que funciona 24 horas por dia.

Ao incorporar a experiência da operação ainda na etapa de projeto, o Unique buscou reduzir custos futuros de manutenção, substituições prematuras e dificuldades de higienização.

Da gestão vertical à participação coletiva

Baixa rotatividade preserva conhecimento

O comitê de obra também refletiu uma mudança mais ampla na cultura organizacional.

Ao assumir a direção geral, Melo passou a estimular uma gestão mais horizontal, na qual diferentes níveis da equipe pudessem contribuir para decisões estratégicas e operacionais.

A transformação se apoia em um ativo difícil de reproduzir: a memória acumulada pelos profissionais.

Dos cerca de 330 colaboradores diretos, muitos possuem mais de 10 anos de empresa. Há integrantes da equipe com 16 ou 18 anos de casa, enquanto o próprio Wellington acompanha o hotel desde sua abertura.

A baixa rotatividade preserva conhecimento sobre hóspedes, processos, manutenção, eventos e particularidades do edifício. Também ajuda a sustentar uma experiência de atendimento menos protocolar e mais humana.

Em um momento no qual a hotelaria discute escassez de mão de obra e dificuldade de retenção, o caso do Unique mostra que o capital humano pode ser tão estratégico quanto a arquitetura ou a tecnologia.

Um investimento refletido na diária média

O reajuste ganhou força quando o novo produto podia ser percebido por todos

Os resultados comerciais apareceram rapidamente após a renovação.

Antes do retrofit, a diária média estava na faixa de R$ 1,9 mil. Após a entrega das novas unidades, o hotel registrou crescimento próximo de 40%, com tarifas públicas que atualmente ultrapassam R$ 3 mil e podem chegar a aproximadamente R$ 3,2 mil, dependendo do período e da categoria.

O planejamento prevê um crescimento acumulado de até 66% na diária média até 2030.

A mudança, porém, não aconteceu de forma abrupta. Nos primeiros meses, o hotel manteve condições próximas às praticadas anteriormente, permitindo que os hóspedes recorrentes conhecessem os novos apartamentos sem perceber imediatamente uma ruptura tarifária.

O reajuste ganhou força quando mais da metade do inventário já estava renovada e o novo produto podia ser percebido de maneira consistente.

Um novo hóspede nos finais de semana

Mudança de comportamento depois da pandemia

O comportamento do público também mudou após a pandemia. Historicamente, hotéis urbanos voltados ao segmento corporativo enfrentam menor demanda nos finais de semana. No Unique, entretanto, cresceu a presença de moradores de São Paulo que procuram o hotel para pequenas pausas, celebrações ou estadias a dois.

São hóspedes que permanecem na própria cidade, mas buscam uma interrupção da rotina — um movimento próximo ao conceito de staycation.

A mudança contribuiu para equilibrar a ocupação entre os dias úteis e os períodos anteriormente mais ociosos. Também reforçou o papel do hotel como destino urbano e local de hospedagem para visitantes de fora da cidade.

Nesse contexto, arquitetura, gastronomia, rooftop, entretenimento e serviço funcionam de maneira integrada. O hóspede não precisa deixar o empreendimento para sentir que viveu uma experiência distinta.

Um hotel que não depende apenas dos quartos

Unique opera com ecossistema de hospitalidade

A diversificação das receitas é outro fator que diferencia o modelo do Unique.

A hospedagem representa aproximadamente 35% do faturamento citado durante a entrevista. A área de eventos, com cerca de 2 mil m², responde por aproximadamente 35%, enquanto gastronomia e o restaurante Skye representam cerca de 30%.

Receitas complementares e outras frentes completam a composição do negócio. Essa distribuição reduz a dependência exclusiva da ocupação dos apartamentos e ajuda a sustentar o empreendimento durante períodos de reforma ou oscilações de demanda.

O Skye, localizado na cobertura, tornou-se um destino independente dentro da cidade. Da mesma forma, os espaços de eventos atraem empresas, celebrações e ativações de marcas, ampliando a circulação de pessoas que não estão necessariamente hospedadas.

O Hotel Unique funciona, portanto, como um ecossistema de hospitalidade: hospedagem, gastronomia, entretenimento, arquitetura e eventos alimentam diferentes jornadas e fontes de receita.

Tecnologia como parte da experiência e da segurança

Tecnologia como parte básica

Embora o design seja a face mais visível do retrofit, a renovação também envolveu investimentos significativos em infraestrutura tecnológica.

O sistema de fechaduras inteligentes utiliza conectividade Wi-Fi e Bluetooth, permitindo que portas sejam reprogramadas, canceladas ou abertas remotamente em casos de emergência.

A solução melhora a conveniência operacional, mas também possui uma função de segurança. Em uma emergência, a administração consegue gerenciar acessos de forma centralizada, contribuindo para procedimentos de evacuação e atuação das equipes.

A conectividade também foi redesenhada para acompanhar a evolução dos dispositivos utilizados pelos hóspedes. O hotel implantou infraestrutura compatível com Wi-Fi 6 e desenvolveu, em parceria com a Claro, uma rede de antenas 5G em áreas internas e externas.

A iniciativa é especialmente relevante para os espaços de eventos, nos quais centenas de pessoas podem utilizar simultaneamente celulares, transmissões ao vivo e plataformas corporativas.

Na hotelaria contemporânea, conectividade é uma comodidade adicional. Parte básica da experiência, comparável à qualidade do colchão, do banho ou do isolamento acústico.

Celebrar cada transformação no “ícone paulistano”

Experiências únicas em cada momento da permanência

Para celebrar a conclusão dos apartamentos renovados, o hotel planejou uma festa para mais de 500 pessoas, concebida como uma extensão da própria experiência do Unique.

Em vez de apresentar o retrofit por meio de discursos formais, painéis explicativos ou de uma visita técnica convencional, o mesmo permitiu que os convidados explorassem livremente os ambientes. Os corredores receberam intervenções artísticas e performances de bailarinas, enquanto DJs ocuparam suítes como a Oasis, transformando os espaços de hospedagem em cenários de música, arte e convivência.

A celebração funcionou como uma demonstração prática, pois os convidados puderam observar o mobiliário, os materiais, a iluminação e a configuração dos apartamentos enquanto vivenciavam a atmosfera irreverente. O andar tornou-se um percurso imersivo, no qual arquitetura, design, entretenimento e hospitalidade se encontravam.

O evento comunicou o reposicionamento do Unique de forma coerente com sua identidade. A celebração refletiu a essência que o projeto buscou preservar: um hotel que transforma até mesmo a apresentação de seus novos quartos em uma experiência memorável.

Retrofit como estratégia de continuidade

Brasilidade, hospitalidade e identidade única num só local

O processo vivido pelo Hotel Unique mostra que renovar um ícone significa compreender quais elementos são essenciais, quais precisam evoluir e quais já não respondem às novas expectativas do mercado.

No Unique, o retrofit articulou arquitetura, planejamento financeiro, operação, tecnologia, gestão de pessoas e reposicionamento comercial. O retrofit foi tratado como um projeto de reforma e também como uma transformação sistêmica do negócio.

A participação dos colaboradores ajudou a aproximar projeto e operação. A redução do inventário ampliou espaço e competitividade. A modernização tecnológica fortaleceu segurança e conectividade. A diversificação de receitas permitiu enfrentar a reforma com maior resiliência.

Ao final, talvez o principal resultado não esteja apenas nos novos quartos ou no crescimento da diária média. O maior êxito foi renovar o Hotel Unique sem permitir que ele deixasse de ser Unique.

(*) Crédito das fotos: arquivo pessoal Camila Contato e Peter Kutuchian