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Slaviero hospitalidade

STR, comunidades locais e o dilema da expansão

A expansão do STR (short-term rental) deixou de ser apenas um movimento de mercado para se tornar um fenômeno urbano com impactos econômicos, sociais e imobiliários cada vez mais visíveis. Ao distribuir visitantes por áreas residenciais e ampliar o perfil de viajantes seja do lazer ao corporativo ou das estadas curtas ao anywhere office, o modelo altera fluxo de pessoas, padrão de consumo e dinâmica comercial.

Dados da FGV (Fundação Getulio Vargas), em estudo encomendado pelo Airbnb, apontam que a atividade movimentou R$ 99,8 bilhões na economia brasileira em 2024. Com a consideração de efeitos diretos, indiretos e induzidos, a estimativa é que 627,6 mil postos de trabalho tenham sido sustentados no período, gerando R$ 8 bilhões em tributos diretos no período.

A lógica do efeito multiplicador é central nesse debate: para cada R$ 10 gastos em hospedagem, outros R$ 52 circulariam em setores como alimentação, comércio e transporte. O estudo utiliza a metodologia de matriz insumo-produto, ferramenta que permite rastrear como o gasto inicial se propaga por diferentes setores da economia, mensurando impactos diretos, indiretos e induzidos ao longo da cadeia produtiva.

Contudo, para além dos números, a reportagem do Hotelier News entrevistou executivos e o próprio Airbnb para entender o impacto do STR em comunidades locais, principalmente no Brasil.

Fluxo distribuído e consumo mais constante

Para Yuri Mourão, fundador e CEO da Yes Temporada, o STR provoca uma mudança estrutural no fluxo de visitantes. Ao contrário do modelo hoteleiro concentrado em zonas específicas, o aluguel por temporada distribui turistas em bairros residenciais, promovendo capilaridade no consumo. Ele cita o estudo da FGV para reforçar que o impacto vai além da hospedagem e pode reduzir a sazonalidade em destinos com demanda diversificada. “A questão central não é apenas o volume de recursos, mas sua regularidade ao longo do ano”, afirma.

Mourão destaca ainda pesquisas internacionais, como estudo publicado no Cambridge Journal of Regions, Economy and Society (2023), que associam o crescimento do Airbnb à reconfiguração da geografia econômica urbana. Segundo ele, a ampliação das estadas longas no pós-pandemia tende a espalhar o consumo ao longo do calendário, diminuindo a dependência exclusiva da alta temporada.

Na mesma linha, Ricardo Nielsen, CMO da Slaviero Hospitalidade, responsável pela operadora de STR 1/4 UmQuarto, afirma que o segmento amplia o acesso às viagens ao oferecer flexibilidade de preço e permanência. “O viajante passa a se comportar como um morador temporário”, diz. Para ele, isso gera receita mais distribuída ao longo do ano, com uso frequente de padarias, mercados, academias e lavanderias.

STR, comunidades locais e o dilema da expansão
“A renda é melhor distribuída na cidade”, diz Mourão

Já Ricardo Urbano, cofundador e CEO da Quarto à Vista, relativiza o peso do modelo na sazonalidade. Ele cita que o desempenho depende mais da praça do que do formato de hospedagem. “A sazonalidade depende muito mais da praça do que, propriamente, da expansão do STR ou da hotelaria”, afirma. Ainda assim, pondera que mesmo em períodos de baixa, é possível gerar receita. O ponto central está em diferenciação e posicionamento estratégico.

O Airbnb reforça que a capilaridade dos anfitriões permite distribuir o fluxo turístico por regiões menos atendidas por hotéis, fortalecendo o comércio local e ampliando a circulação de renda ao longo de todo o ano, inclusive em viagens a trabalho, tratamentos médicos e visitas familiares.

Nova cadeia produtiva e renda pulverizada

O avanço do STR consolidou uma cadeia própria. Mourão aponta que 57,9% do impacto econômico estimado pela FGV ocorre no setor de serviços e 24,8% no comércio. Ele destaca o crescimento de lavanderias industriais, serviços de enxoval, manutenção preventiva, empresas de vistoria, gestão profissional de propriedades e tecnologia aplicada à hospitalidade. É, praticamente, um ecossistema econômico.

Além da cadeia operacional, Mourão ressalta o fortalecimento institucional do setor, com a criação da ABLT (Associação Brasileira de Locação por Temporada), que atua como fórum de debates regulatórios e de capacitação, contribuindo para a formalização e profissionalização da atividade.

Nielsen observa que, além do varejo tradicional, consolidou-se uma rede de limpeza, manutenção predial, check-in terceirizado e gestão de propriedades, muitas vezes formada por microempreendedores locais. Para ele, o STR tende a manter parte relevante da renda dentro da própria comunidade.

Urbano, por sua vez, ressalta que a cada R$ 1 gasto em hospedagem, outros R$ 5 são movimentados na cadeia do destino. “O STR movimenta toda a cadeia econômica. O modelo democratiza viagens ao reduzir o ticket médio por hóspede, permitindo que o visitante direcione mais recursos ao consumo local”, avalia.

O Airbnb reitera que, há dois anos, a atividade adicionou R$ 55,8 bilhões ao PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro e gerou R$ 28,3 bilhões em renda para profissionais de diferentes áreas. Por isso, a empresa entende que o impacto ocorre de forma pulverizada, ativando pequenos negócios e trabalhadores autônomos.

STR, comunidades locais e o dilema da expansão
Para Nielsen, o bairro integra a experiência do STR

Pressão imobiliária e equilíbrio urbano

Se, por um lado há dinamização econômica, por outro cresce o debate sobre moradia. Mourão reconhece que a migração de imóveis do aluguel tradicional para o curto prazo pode reduzir oferta e pressionar preços em áreas de alta demanda. Ele cita estudo publicado na Tourism Management, indicando que aumento de 1 ponto percentual na densidade de STR pode elevar em até 3,7% os preços residenciais em determinadas cidades. O impacto econômico é real e mensurável, mas a sustentabilidade depende de equilíbrio entre turismo, moradia e planejamento urbano.

No Rio de Janeiro, o executivo cita uma reportagem recente que aponta queda de 27,5% na oferta de locação tradicional na Zona Sul em dois anos, além de valorização de cerca de 12,5% no metro quadrado em Ipanema em 12 meses, segundo dados da ADEMI-RJ (Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário). Ao mesmo tempo, o programa Reviver Centro teria impulsionado novos lançamentos e ampliado a oferta residencial na região central, demonstrando o peso das políticas públicas.

Nielsen concorda que, em regiões de alta concentração, a redução de oferta pode elevar custos para moradores permanentes. “O desafio está justamente em encontrar um ponto de convergência que permita inovação no modelo de hospedagem sem comprometer a sustentabilidade urbana”, afirma.

Urbano avalia que o impacto é mais intenso em grandes centros e reforça a necessidade de equilíbrio e boa convivência. Já o Airbnb sustenta que não há evidências de que o aluguel por temporada seja determinante para a dinâmica de preços no Brasil, citando exemplos internacionais, como Nova York, onde restrições não solucionaram desafios estruturais de habitação.

Comércio local: fortalecimento ou dependência?

A substituição parcial do comércio de necessidade por serviços voltados ao visitante também divide opiniões. Para Mourão, alteração não significa fragilização. Ele argumenta que o efeito multiplicador — R$ 52 adicionais para cada R$ 10 em hospedagem — indica fortalecimento do comércio, com maior ticket médio e rotatividade. Ele entende que o comércio não desaparece, mas ganha escala, ticket médio maior e maior rotatividade de consumo.

Nielsen pondera que, no curto prazo, o fluxo turístico pode fortalecer a base econômica, mas alerta para o risco de dependência excessiva quando a transformação ocorre de forma concentrada. Urbano defende análise caso a caso e destaca ganhos indiretos, como segurança, infraestrutura e geração de empregos.

O Airbnb reforça que não há evidência de substituição automática e que o gasto do hóspede tende a se distribuir entre diferentes tipos de estabelecimentos.

STR, comunidades locais e o dilema da expansão
Urbano: “cada praça tem suas dinâmicas específicas”

Quem captura o valor?

No balanço geral sobre a situação, Mourão argumenta que, embora a receita primária esteja na diária e beneficie proprietários e plataformas no curto prazo, cerca de 84% do impacto econômico total ocorre fora da hospedagem, espalhando-se por comércio e serviços. O executivo da Slaviero Hospitalidade observa que os benefícios iniciais tendem a se concentrar em plataformas e investidores, mas, ao longo do tempo, alcançam prestadores de serviço, varejo e mercado imobiliário.

Já Urbano acredita que, em muitos casos, a maior fatia da receita direta permaneça com o proprietário, embora o transporte aéreo possa capturar parcela relevante. Para ele, mais importante do que hierarquizar ganhos é focar no desenvolvimento sustentável de cada destino.

O Airbnb afirma que os efeitos se distribuem ao longo da cadeia. No Rio de Janeiro, segundo dados da empresa, mais de 55% dos anfitriões afirmam que a renda obtida ajuda a permanecer em suas casas, e quase 45% utilizam o recurso para pagar contas recorrentes.

Entre dinamização econômica, pressões imobiliárias e reconfiguração comercial, o STR consolida-se como um agente de transformação urbana. O impacto é mensurável, mas sua sustentabilidade, como destacam os entrevistados, continua a depender de equilíbrio regulatório, planejamento urbano e integração com a comunidade local.

(*) Crédito da capa: Freepik

(*) Crédito da foto: Divulgação

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