Há uma diferença importante entre projetar um hotel em determinado lugar e projetar um hotel a partir desse lugar. A primeira possibilidade pode resultar em uma arquitetura tecnicamente correta, funcional e até visualmente marcante. A segunda exige algo a mais: entender por que aquele empreendimento deveria existir justamente ali, o que o território tem a dizer e como essa identidade pode ser traduzida sem cair na reprodução literal de símbolos locais.

Essa ideia atravessou minha conversa com Kardec Borges, um dos sócios da UNYT Arquitetura & Urbanismo, escritório sediado em Goiânia e com forte atuação em hospitalidade, entretenimento, desenvolvimento imobiliário, retrofit e transformação de ativos urbanos.
Segundo Borges, a configuração atual da UNYT nasceu há cerca de 11 anos da união de profissionais que já traziam trajetórias consolidadas no mercado imobiliário e em projetos de diferentes escalas. Hoje, além dele, o escritório reúne os sócios Paulo Gonçalves, Marcos Leite Bastos e Andrey Machado. Em seu portfólio, a empresa registra mais de 20 anos de experiência acumulada, mais de 6 milhões de metros quadrados (m²) projetados e presença em diferentes regiões brasileiras.
Essa multidisciplinaridade ajuda a compreender o posicionamento do escritório. A UNYT coloca lado a lado arquitetura, urbanismo, técnica, experiência e mercado e inclui, entre suas áreas de atuação, viabilidade de empreendimentos, desenvolvimento urbano, hospitalidade, entretenimento, branding e storytelling arquitetônico.
No segmento de hospitalidade, sua atuação alcança marcas e grupos como Club Med, Marriott/Westin, Hyatt, Wyndham, Minor Hotels, Hilton e Grupo AVIVA. O escritório informa presença em 19 estados brasileiros e cinco países, com uma abordagem multidisciplinar voltada não apenas ao design, mas também aos resultados de arquitetura e urbanismo nos segmentos de hospitalidade, entretenimento, comercial e desenvolvimento urbano.
Arquitetura como estratégia de hospitalidade

Um dos pontos que mais me chamou atenção foi a maneira como Borges posiciona a arquitetura dentro da cadeia da hotelaria. Para ele, um projeto precisa conciliar pelo menos três perspectivas que nem sempre partem das mesmas prioridades: o investidor, o operador e o hóspede.
O investidor precisa de viabilidade e retorno. O operador precisa que fluxos, manutenção, serviços e estrutura funcionem sem improvisos. E o hóspede deseja que tudo isso se transforme em conforto, facilidade e experiência.
Como sintetizou Borges durante nossa conversa, “a arquitetura hoteleira é a tradução física de uma estratégia de negócios”.

A frase ajuda a explicar por que algumas decisões do escritório quase desaparecem visualmente dentro dos projetos. Modulação estrutural, acessos de serviço, possibilidade de manutenção, setorização e flexibilidade talvez não sejam os elementos mais fotografados de um hotel, mas podem determinar como ele funcionará durante décadas.
É justamente nesse ponto que aparece outra provocação feita por Borges: “bom hotel é hotel que envelhece bem.”
Envelhecer bem significa continuar funcionando, permitir atualizações, absorver novas demandas, facilitar a manutenção e preservar sua relação com hóspedes, operação e destino.
Essa discussão é particularmente relevante em um mercado que convive simultaneamente com novos empreendimentos e com um enorme estoque de edifícios que precisará ser reinterpretado nos próximos anos.
Do hotel genérico à arquitetura narrativa

Borges também faz uma crítica a períodos em que a hotelaria brasileira buscou referências externas sem necessariamente estabelecer uma relação verdadeira com o território.
Castelos deslocados de contexto, referências balinesas reproduzidas em diferentes destinos ou empreendimentos com organização muito semelhante à de condomínios residenciais podem entregar acomodação, mas não necessariamente construir pertencimento.
É nessa discussão que surge o conceito de genius loci — a identidade, ou “alma”, de um lugar.
Na leitura da UNYT, essa identidade pode aparecer nos materiais, na implantação, na relação com o clima, nos modos locais de permanecer e conviver e até na maneira como o hóspede percorre o empreendimento.
O resultado se aproxima daquilo que Borges chama de arquitetura narrativa: espaços capazes de contar uma história sem depender de elementos decorativos para explicá-la. E o Costana Frontier Resort é um dos exemplos dessa abordagem.
Costana Frontier Resort e o Rio Uruguai

Localizado em Novo Machado, no Noroeste do Rio Grande do Sul, junto à fronteira entre Brasil e Argentina, o Costana nasce em uma região marcada pelo Rio Uruguai, pela história das Missões Jesuíticas e pela herança guarani, mas com oferta limitada de infraestrutura hoteleira compatível com o potencial turístico e paisagístico do território.
O empreendimento, atualmente lançado, em comercialização e desenvolvimento de projeto, foi reconhecido no LIV Hospitality Design Awards 2025, na categoria Resort – Midscale & Lifestyle.
Mais interessante que a premiação, porém, é a pergunta que deu origem ao projeto: como construir hospitalidade em uma região cuja identidade está profundamente ligada ao rio sem transformá-lo apenas em paisagem para ser contemplada?
A resposta começou na arquitetura vernacular.
Aprender com os “costeiros”, sem copiá-los

Uma das referências foram os “costeiros”, pequenos abrigos utilizados tradicionalmente por pescadores ribeirinhos da região.
A equipe, porém, não procurou reproduzir sua forma. Buscou compreender a inteligência espacial presente nessas construções: sombra, abrigo, varanda e proximidade constante com a água.
Esses princípios foram reinterpretados e levados à escala de um empreendimento hoteleiro. Em vez de transformar a arquitetura vernacular em caricatura, o projeto procura traduzir sua lógica espacial.
Identidade, nesse caso, deixa de significar “parecer com” determinado lugar e passa a significar entender como aquele lugar funciona.
A topografia organiza a experiência

O Costana ocupa um terreno de 66,2 mil m², com aproximadamente 35,7 mil m² de área construída, e foi planejado para receber até 773 hóspedes em 275 unidades, entre apartamentos e bangalôs.
A arquitetura acompanha o desnível natural do terreno. O programa é distribuído em três decks complementares: chegada e áreas sociais ocupam os níveis superior e intermediário, enquanto hospedagem e bangalôs ficam em posições mais reservadas e próximas à paisagem.
A topografia, portanto, deixa de ser apenas uma condicionante física e passa a organizar acessos, fluxos, privacidade e vistas. O resultado é uma arquitetura predominantemente horizontal, que procura acompanhar a escala do vale em vez de competir com ela.
Também existe uma lógica operacional nessa decisão: diferentes áreas podem funcionar de maneira relativamente independente, permitindo setorização sem fragmentar a experiência geral do resort.
Desempenho desenha a arquitetura

Outro aspecto interessante do Costana é a maneira como soluções técnicas se transformam em linguagem arquitetônica.
As unidades seguem uma modulação estrutural de 3,15 metros, combinada a sistemas de protensão que ampliam os vãos e permitem diferentes configurações internas sem alterar a malha estrutural.
Na fachada, uma pele ripada de WPC, apoiada sobre estrutura metálica independente, ajuda a proteger as faces mais expostas ao sol e aos ventos constantes do vale. Como essa camada não é diretamente incorporada ao fechamento térmico, pode ser reparada ou substituída independentemente — uma decisão construtiva que ganha enorme importância quando pensamos no ciclo de vida de um resort.
Aqui, a frase de Borges sobre hotéis que precisam “envelhecer bem” ganha materialidade. A arquitetura está antecipando manutenção, adaptação e operação futura.
Trazer o rio para dentro sem imitá-lo

Uma das soluções mais poéticas do projeto aparece sobre o restaurante principal. Um espelho d’água na cobertura auxilia no resfriamento da laje por evaporação e cria uma superfície que prolonga visualmente a presença do Rio Uruguai no nível superior.
A referência assumida pelo projeto está em soluções da arquitetura brasileira de Paulo Mendes da Rocha. O rio, entretanto, não é reproduzido literalmente. Sua presença é percebida por relações de horizonte, reflexo, temperatura e continuidade.
Nos bangalôs, outra decisão procura preservar a relação com o terreno: as construções são elevadas sobre fundações pontuais, mantendo a drenagem natural da margem.
São soluções diferentes, mas que partem da mesma lógica: permitir que a arquitetura responda às características do território em vez de apenas utilizar a paisagem como pano de fundo.
Paisagem que pertence a todos

Outra decisão ultrapassa a experiência privada do resort. O mirante voltado ao Rio Uruguai terá acesso público. A comunidade poderá percorrer essa área e alcançar um ponto de contemplação integrado ao empreendimento, mas não restrito apenas aos seus hóspedes.
Se o território participa da construção de valor daquele empreendimento, existe também a possibilidade de o empreendimento devolver algo ao território.
Talvez esse gesto sintetize uma das ideias mais interessantes do Costana: entender a paisagem não somente como um ativo privado a ser explorado pela hotelaria, mas como parte de um patrimônio compartilhado.
Essa reciprocidade pode parecer pequena diante da escala de um resort, mas aponta para uma discussão cada vez mais relevante na hospitalidade: qual é a relação que um hotel estabelece com o destino além dos limites de sua propriedade?
Arquitetura que começa antes do edifício

Ao final da conversa com Borges, fiquei com a sensação de que uma das principais questões levantadas pela UNYT está justamente em reconhecer e valorizar o lugar, seu território e sua cultura.
O que já existe naquele lugar que deveria orientar o projeto?
No Costana, a resposta passa pelo rio, pelos abrigos ribeirinhos, pelas varandas, pela sombra, pelo vento, pela topografia e pelos modos de permanecer próximos à água.
O edifício vem depois. E talvez seja justamente aí que uma arquitetura de hospitalidade consiga deixar de simplesmente ocupar um destino para começar a pertencer a ele.
(*) Crédito das fotos: divulgação




















