Na Itália, falar de luxo sem falar de história parece quase impossível. Roma e Florença carregam séculos de arquitetura, arte e identidade cultural, mas o desafio para a hotelaria contemporânea está justamente em encontrar novas formas de ocupar esse patrimônio sem transformá-lo em cenário congelado no tempo.

É nesse território que a W Hotels vem construindo sua presença italiana. Com o W Rome e o W Florence, a marca propõe uma leitura de luxo baseada menos na formalidade e mais na maneira como o hóspede se relaciona com a cidade. Herança arquitetônica, design contemporâneo, gastronomia e ambientes sociais passam a funcionar como partes de uma mesma experiência.
Mais do que atualizar edifícios históricos, os dois projetos ajudam a revelar uma transformação importante na hospitalidade de luxo: o hotel assumi o papel de mediador entre viajante, cultura e vida urbana.
Roma: quando o palazzo se torna espaço social

Inaugurado em 2022, o W Rome marcou a estreia da marca na Itália. Instalado em dois palazzi adjacentes do século XIX, próximos à Escadaria Espanhola, o hotel parte justamente da coexistência entre patrimônio e contemporaneidade.
O projeto de interiores, assinado pelo Meyer Davis Studio, preserva elementos que revelam a história dos edifícios enquanto introduz superfícies refletivas, mobiliário em couro, cores marcantes e uma interpretação contemporânea do estilo romano.
Essa combinação é interessante porque evita dois extremos comuns em projetos de adaptive reuse: reproduzir literalmente o passado ou apagar completamente a identidade original do imóvel. No W Rome, a arquitetura histórica se torna uma das camadas da experiência.
O conceito se estende para além dos 119 quartos e 29 suítes. Pátio, lounge e rooftop foram pensados como ambientes que mudam de função e atmosfera ao longo do dia, conectando hospedagem, gastronomia, música e vida noturna. É uma lógica que aproxima o hotel da cidade.
Em vez de espaços comuns concebidos apenas para circulação dos hóspedes, surgem ambientes com potencial para atrair também o público local, algo cada vez mais relevante para hotéis lifestyle. O hotel ganha, assim, uma segunda camada de uso: além de receber quem viaja, passa a participar da dinâmica social do destino.
Gastronomia como expressão de território

A comida ocupa uma posição central nessa construção. No W Rome, a direção gastronômica conta com o chef Ciccio Sultano, detentor de estrela Michelin, ao lado do chef executivo Giacomo Vinci. No restaurante Giano, referências sicilianas se encontram com a cultura romana, enquanto outros espaços ampliam a experiência para diferentes momentos do dia.
O Giardino Clandestino funciona como pátio e coração social do hotel; o W Lounge ganha outra atmosfera à noite com música ao vivo e DJs; e o rooftop reúne o WET Deck, com piscina ao ar livre, e o Citrico Rooftop – Pizza e Cocktail, com vista panorâmica sobre Roma.
Aqui, gastronomia faz parte da estratégia de posicionamento. O restaurante, o bar, o pátio e o rooftop tornam-se pontos de contato entre hotel, moradores e visitantes — e também ferramentas para transformar diferentes períodos do dia em experiências distintas dentro da mesma propriedade.
Florença: reinterpretar sem recorrer à nostalgia

Se Roma trabalha com a sobreposição entre o antigo e o contemporâneo, Florença acrescenta outra questão: como criar novidade em uma cidade cuja própria identidade está profundamente ligada à história da arte e da arquitetura?
Inaugurado em 2025, o W Florence ocupa o antigo Grand Hotel Majestic, na Piazza dell’Unità Italiana, próximo à estação Santa Maria Novella e aos principais pontos turísticos da cidade. O hotel oferece 119 quartos e 17 suítes, incluindo uma penthouse.
Assinado pelo AvroKO, o design utiliza materiais, padrões e intervenções artísticas para estabelecer relações com a herança florentina, incorporando também influências sutis dos anos 1970.
O ponto mais interessante talvez esteja na intenção de trabalhar com referências históricas sem transformar o projeto em uma reconstrução nostálgica. Isso altera a própria relação entre patrimônio e inovação.
Em vez de perguntar apenas “como preservar o passado?”, a hotelaria passa a perguntar também “como permitir que esse passado continue produzindo experiências relevantes no presente?”
O hotel como ponto de encontro da cidade

Assim como em Roma, a dimensão social ocupa papel importante no W Florence. O hotel reúne pátio central, W Lounge, rooftop e diferentes experiências gastronômicas. Entre elas está o restaurante do chef Akira Back, com cozinha japonesa contemporânea influenciada por referências coreanas, além do Zefiro Rooftop. A mistura é reveladora.
Em uma cidade profundamente associada à tradição italiana, a presença de referências gastronômicas globais não necessariamente diminui a identidade do destino. Pelo contrário, ela reforça a ideia de Florença como cidade historicamente aberta à circulação de ideias, arte e cultura.
Nesse sentido, o luxo contemporâneo parece se afastar da busca por uma identidade exclusivamente local ou exclusivamente internacional. A experiência nasce justamente do encontro entre essas duas dimensões.
Do lobby para o living room

A estratégia de Roma e Florença também acompanha uma transformação mais ampla dentro da própria W Hotels.
A marca, presente em cerca de 70 destinos, vem passando por uma evolução global de posicionamento. Entre seus elementos recorrentes estão o serviço Whatever/Whenever e os chamados Living Rooms, espaços concebidos para promover conexão e interação social.
A mudança de vocabulário é significativa. O tradicional lobby — historicamente relacionado à passagem, recepção e espera — começa a ser tratado como uma sala de estar coletiva.
Isso muda o projeto. Mobiliário, iluminação, acústica, gastronomia, música e programação passam a trabalhar juntos para estimular permanência e encontros. O espaço precisa funcionar visualmente, mas também de forma comportamental.
Para a hotelaria, talvez esteja aí uma das questões mais relevantes desses projetos: luxo é aquilo que o hóspede encontra no quarto, na qualidade das experiências que consegue construir ao longo de toda a jornada dentro e fora dele.
Um novo significado para o luxo?

Os hotéis W Rome e W Florence (da marca W Hotels, do grupo Marriott) trazem uma proposta inovadora de hospitalidade urbana ao desafiar a relação tradicional do turista com cidades de patrimônio histórico e identidade cultural profundamente consolidadas, como Roma e Florença.
Os dois hotéis combinam design, gastronomia e espaços sociais para criar experiências ancoradas na herança local, mas direcionadas às expectativas de um viajante contemporâneo. E talvez essa seja uma pista importante sobre a transformação do luxo na hotelaria.
Durante muito tempo, luxo esteve fortemente relacionado à exclusividade, formalidade, materiais nobres e serviços impecáveis. Esses atributos continuam relevantes, mas parecem já não ser suficientes. A nova camada está na capacidade de produzir conexão.
Conexão com o lugar, com a cultura, com outras pessoas e com experiências que dificilmente poderiam ser reproduzidas de maneira idêntica em outro destino. Em Roma e Florença, o patrimônio torna-se algo a habitar. E, para a hotelaria contemporânea temos uma nova definição de luxo.
(*) Crédito das fotos: Divulgação




















