O acordo firmado entre Apple e Google para integrar, ao longo de vários anos, os modelos Gemini ao Apple Intelligence representa um reconhecimento implícito de que a Siri precisa de um “cérebro” de nível profissional para seguir competitiva no mercado de assistentes virtuais. Para a indústria de viagens, a parceria sinaliza a próxima fase da expansão do metabuscador, que tem feito fortes investimentos em soluções para o setor, para além da busca tradicional, aponta o Skift.
Ao incorporar o Gemini ao núcleo do iPhone, o Google se posiciona ainda mais próximo do momento de intenção do consumidor — possivelmente antes mesmo de o viajante abrir um navegador ou aplicativo. Imagine que uma conversa casual entre amigos desperte a ideia de uma viagem para uma ilha. Em vez de alternar entre aplicativos e sites de turismo ou esperar para ligar o computador, bastaria perguntar à Siri.
Para o próprio Google, a escala é gigantesca. A Apple afirma que a Siri processa cerca de 1,5 bilhão de solicitações por dia em mais de 2 bilhões de dispositivos ativos. Já o Gemini contava com aproximadamente 35 milhões de usuários ativos diários em março de 2025, segundo documentos judiciais. A questão central, porém, não é apenas inteligência, mas utilidade.
Ainda não está claro quão capaz será uma Siri redesenhada para atender às demandas de viagens com IA (Inteligência Artificial) — um segmento que o Google prioriza há anos com produtos como Google Flights, Hotels, Maps e recursos mais recentes de busca baseada em inteligência artificial, incluindo uma ferramenta de reservas agentic ainda em desenvolvimento.
Expectativas
Para as marcas do setor de turismo, a incerteza gira em torno do alcance real das capacidades da Siri. Apple e Google não detalharam quais partes da pilha de IA do buscador estarão disponíveis dentro da assistente. Hoje, por exemplo, a integração da Siri com o ChatGPT se limita à geração de respostas, sem execução de ações.
Um porta-voz do Google reiterou que os sistemas de IA da Apple serão “baseados nos modelos Gemini e na tecnologia de nuvem do Google”, o que permitiria uma Siri “mais personalizada”.
Segundo a Bloomberg, o Gemini dará suporte a tarefas de planejamento e sumarização dentro da Siri. Isso sugere um sistema capaz de sintetizar informações, mas não necessariamente executar ações — algo semelhante ao que a Apple já demonstrou, como extrair detalhes de voos a partir do Mail ou exibir reservas presentes em Mensagens e Calendário, mediante autorização do usuário.
A Apple, por sua vez, reforça o discurso de controle e contenção. O Apple Intelligence continuará operando no dispositivo e via Private Cloud Compute, arquitetura projetada para limitar a exposição de dados pessoais e não reter solicitações após o processamento. Ainda assim, a empresa não explicou como esse modelo suportaria interações mais longas e em múltiplas etapas.
Sem clareza sobre se a Siri apenas chamará os modelos de linguagem do Gemini ou acessará capacidades mais avançadas de agentes, os impactos para o setor de viagens permanecem em aberto. A partir daí, dois cenários principais se desenham.
Cenário A: ferramenta de inspiração e “bibliotecária”
Nesse cenário, a Siri utiliza o Gemini principalmente como motor de linguagem e recuperação de informações. Ela resume avaliações de hotéis, responde dúvidas sobre destinos ou exibe itinerários já confirmados no e-mail do usuário.
Impacto: Siri se consolida como ferramenta de inspiração no topo do funil e como referência no pós-reserva. As transações continuam acontecendo em aplicativos e sites, permitindo que as marcas de turismo mantenham o relacionamento com o cliente e os dados de reserva.
Cenário B: a orquestradora de viagens
Aqui, a Siri evolui para um agente de fato. Ela responde a solicitações, acessa inventário em tempo real, lembra preferências, preenche formulários, aplica números de fidelidade e navega — ou até conclui — processos de check-out.
Impacto: o risco é a erosão do tráfego no iOS para empresas de turismo, das grandes OTAs a qualquer fornecedor com aplicativo ou site móvel. Se o usuário puder simplesmente falar com o telefone, em vez de abrir um ou vários apps, a redução de fricção pode transformar a Siri em uma consultora de viagens natural para uma base massiva de usuários.
Esse cenário depende de quão completas serão as respostas da assistente. Se ela conseguir confirmar comodidades, preços e políticas, usuários de iPhone talvez nem precisem acessar Expedia ou Delta, mesmo que a transação não ocorra dentro da Siri. Um fenômeno semelhante já acontece na página de buscas do Google, com os AI Overviews e o AI Mode reduzindo visitas a sites. Agora, isso pode se estender a todos os usuários da Siri.
Como tudo isso se alinha à política de privacidade da Apple ainda é uma incógnita. Para que esse cenário funcione, a questão de memória e retenção de dados precisa ser resolvida; caso contrário, a combinação Siri-Gemini não conseguirá encadear a sequência complexa de ações necessárias para criar uma viagem no mundo real.
A capacidade de exibir inventário em tempo real — preços de voos, disponibilidade de quartos e mais — é outro divisor entre os dois cenários e define a diferença entre uma bibliotecária eficiente e uma agente de reservas. A forma como Apple e Google lidarem com isso determinará se a Siri continuará sendo apenas uma camada de interface ou se ela se tornará também uma camada de transação.
O que está em jogo
As apostas comerciais são altas, já que o mobile é hoje o principal canal de planejamento e reservas de viagens. Segundo a Mordor Intelligence, os dispositivos móveis responderam por 56% das reservas online em 2024 e devem crescer a uma taxa composta anual próxima de 12% até 2030.
Se uma Siri turbinada pelo Gemini for capaz de gerenciar reservas de ponta a ponta, ela deixa de ser apenas uma ferramenta de inspiração e passa a atuar como gatekeeper, integrada ao ecossistema de dispositivos de consumo mais valioso do mundo.
Por estar presente nos iPhones há 15 anos, a Siri também pode escapar de parte da resistência que outras ferramentas de IA enfrentam. “Uma Siri de qualidade remove muita fricção entre usuários pouco técnicos e as marcas, porque é familiar, intuitiva e já vem integrada aos nossos aparelhos”, afirmou Greg Oates, diretor de Advocacy em IA da Matador Network.
Para as marcas de turismo, o maior risco não é a Siri entregar menos do que promete. É o contrário: que o assistente atinja todo o seu potencial, interceptando viajantes no momento exato da intenção e relegando companhias aéreas e hotéis ao papel de fornecedores de bastidores em mais uma interface comandada pelo Google.
(*) Crédito da foto: Divulgação















