Em um momento em que hotéis investem cada vez mais em experiências capazes de estabelecer vínculos emocionais com seus hóspedes, a CASACOR 2026 traz uma reflexão que ultrapassa o universo residencial.
Sob o tema Mente e Coração, a mostra propõe pensar os espaços como territórios de acolhimento, intimidade e reconexão, em resposta à hiperconectividade e à aceleração da vida contemporânea.
Entre os projetos apresentados nas edições de São Paulo e Bahia, dois lounges chamam atenção justamente pela maneira como transformam memória, cultura e pertencimento em experiência espacial.
Há ainda uma conexão interessante entre eles: a arquiteta Michele Wharton assina o Lounge Mi Corazón, na CASACOR São Paulo, e divide com a arquiteta baiana Dayse Pellegrini a autoria do Lounge Entre Camadas, na CASACOR Bahia.
São projetos distintos, concebidos para territórios diferentes, mas que compartilham uma ideia essencial para a hospitalidade: um espaço pode contar uma história sem precisar explicá-la o tempo todo.
São Paulo: a casa latino-americana como memória

No Lounge Mi Corazón, apresentado na CASACOR São Paulo 2026, Michele Wharton parte de suas memórias afetivas latino-americanas e das grandes salas de estar dos anos 1980 para construir um espaço de aproximadamente 30 metros quadrados (m²) pensado em torno da convivência.
Não se trata, porém, de reproduzir literalmente uma casa daquele período. A memória aparece reinterpretada.
O sofá em veludo terracota ocupa o ambiente quase como um convite à permanência. Tapetes, porcelanas, cerâmicas artesanais, vegetação e objetos se acumulam em diferentes camadas, afastando-se deliberadamente da neutralidade e da assepsia que durante muitos anos dominaram parte do design de interiores.
A curadoria reúne ainda trabalhos de artistas afro-indígenas e latino-americanos e peças artesanais, entre elas as tradicionais molas panamenhas, inserindo no ambiente objetos decorativos, histórias, técnicas e referências culturais.
Até o teto participa dessa narrativa. Sobre um fundo azul intenso, a figura de um pavão cria um ponto de forte impacto visual e amplia a dimensão simbólica do ambiente. Mas talvez um dos elementos mais interessantes para a hotelaria esteja no fundo do lounge: o bar.
Inspirado nos bares domésticos presentes nas residências dos anos 1980, ele recupera o ritual social de receber alguém, preparar uma bebida, permanecer, conversar. Nesse contexto, o bar se transforma em infraestrutura para o encontro.
Essa mudança de perspectiva é relevante para hotéis. Projetar hospitalidade significa compreender que comportamento queremos estimular nesses espaços.
Bahia: um território entre quem vive e quem descobre

Se em São Paulo Michele parte da memória latino-americana, em Salvador a narrativa se aproxima ainda mais do território.
O Lounge Entre Camadas, criado por Michele Wharton e Dayse Pellegrini, nasce justamente do encontro entre dois olhares: a Bahia vivida por Dayse, que é baiana, e a Bahia percebida por Michele como visitante. Essa diferença transforma-se no próprio conceito do projeto.
Não é apenas uma representação da Bahia. É um percurso entre aquilo que é reconhecido por quem pertence ao lugar e aquilo que surpreende quem o encontra pela primeira vez.
A publicação da CASACOR Bahia descreve o ambiente como uma experiência construída a partir de memória, pertencimento e ancestralidade, reunindo natureza, espiritualidade e identidade em uma travessia sensorial. Logo na entrada, esculturas de Exu simbolizam a abertura dos caminhos e introduzem o visitante à narrativa.
No lounge principal, um sofá desenhado especialmente por Michele convive com vegetação tropical, mobiliário, materiais naturais, texturas e obras de arte. Acima dele, tecidos azul-claros suspensos evocam o céu da Bahia.
Aos poucos, porém, esses tecidos mudam de significado. Ao longo do percurso, deixam de representar o céu e passam a formar ondas. O visitante é conduzido simbolicamente das alturas para o mar.
Essa pequena transformação revela algo importante: arquitetura também pode trabalhar com sequência, expectativa e descoberta. É quase uma dramaturgia espacial.
O bar como memória de chegada

Mais uma vez, o bar ocupa o centro da experiência. No Entre Camadas, porém, a referência muda. Seu acabamento remete ao bambuzal existente no acesso ao Aeroporto de Salvador — uma das primeiras imagens percebidas por muitos visitantes quando chegam à cidade.
A escolha é particularmente interessante sob a perspectiva da experiência turística. Um elemento aparentemente cotidiano da infraestrutura urbana torna-se memória de chegada e, posteriormente, matéria de projeto.
Não é o cartão-postal convencional de Salvador. Não é uma reprodução do Pelourinho, uma imagem de praia ou um conjunto de símbolos turísticos facilmente reconhecíveis. É uma lembrança mais sutil. E justamente por isso pode ser mais poderosa.
Para a hotelaria, existe aqui uma provocação: quantas referências capazes de construir identidade estão escondidas nos percursos cotidianos de um destino?
Talvez a identidade de um hotel possa surgir do cheiro de determinada vegetação, da sombra de uma árvore, de um material utilizado tradicionalmente na região, de uma história do bairro, de um artesanato, de uma música ou até da primeira imagem vista por quem chega à cidade.
Arte como parte da experiência

Outro elemento fundamental do projeto baiano é a arte. O Lounge Entre Camadas se conecta à Galeria Casa Reina, concebida como uma extensão da narrativa de memória, ancestralidade e pertencimento presente no projeto. Com curadoria de Michele Wharton e expografia assinada por Michele Wharton e Dayse Pellegrini, a mostra reúne obras de 15 artistas e tem como inspiração o Dique do Tororó, em Salvador. Cada trabalho atua como um reflexo de memória, espiritualidade e território, ampliando o papel da arte no espaço para além de uma função meramente decorativa e transformando-a em parte ativa da experiência.
O percurso inclui ainda um altar simbólico dedicado a Iemanjá, inspirado na vivência das arquitetas durante a celebração de 2 de fevereiro. A referência conecta espiritualidade, feminino, cultura e a profunda relação de Salvador com o mar.
Nesse caso, obras, objetos, arquitetura e memória participam de uma mesma narrativa. Essa integração talvez seja uma das questões mais interessantes para hotéis que desejam trabalhar arte de maneira consistente.
Uma coleção pode ajudar a explicar onde estamos, quem vive naquele território e quais histórias merecem ser contadas.
Duas geografias, uma mesma ideia

O interessante ao observar Mi Corazón e Entre Camadas lado a lado é perceber que os projetos não repetem uma linguagem estética.
Em São Paulo, a narrativa parte de uma memória latino-americana mais íntima, quase autobiográfica, construída pela convivência entre culturas, artesanato, arte, objetos e lembranças.
Na Bahia, o olhar torna-se profundamente territorial. Surge da tensão criativa entre pertencer e descobrir.
Em ambos, entretanto, aparecem recursos semelhantes: arte, tecidos, vegetação, cores intensas, objetos com história, referências culturais e espaços destinados ao encontro. Não como uma fórmula estética, mas como instrumentos para produzir significado.
A CASACOR São Paulo 2026 encerrou sua edição em 9 de agosto, no Parque da Água Branca, enquanto a edição baiana permanece aberta até 6 de setembro na Casa Nossa Senhora das Mercês, em Salvador.
O que a hotelaria pode se inspirar com esses projetos?

Os dois lounges sugerem alguns caminhos interessantes para projetos hoteleiros:
- Começar pela narrativa. Antes de decidir cores, móveis ou revestimentos, perguntar qual história aquele lugar deseja contar.
- Pesquisar o território além de seus ícones turísticos. Algumas das referências mais interessantes podem estar nas experiências cotidianas, nos rituais, materiais, gestos e memórias locais.
- Projetar comportamentos. Sofás, bares, iluminação e circulação não organizam apenas o espaço; ajudam a determinar se as pessoas permanecem, conversam, observam, descobrem ou simplesmente passam.
- Transformar a arte em conteúdo. Quando existe curadoria e contexto, a arte pode aproximar hóspedes da cultura local e criar novas camadas de interpretação do destino.
- Criar sequências de descoberta. A experiência não precisa ser entregue de uma vez. Mudanças de luz, textura, escala, paisagem e significado podem transformar o deslocamento pelo espaço em narrativa.
Do design de interiores ao design da memória

Talvez a principal contribuição dos dois ambientes para a hotelaria esteja justamente aí.
Durante muito tempo, projetos de hospitalidade buscaram criar uma imagem suficientemente universal para agradar ao maior número possível de hóspedes. Como consequência, muitos hotéis terminaram se tornando sofisticados, tecnicamente impecáveis — e difíceis de localizar emocionalmente. Você poderia estar em São Paulo, Salvador, Lisboa ou Miami.
Mi Corazón e Entre Camadas apontam para outra direção. Quanto mais específico é o repertório utilizado, maior pode ser a capacidade de criar uma experiência universalmente compreensível. Porque não é necessário conhecer previamente uma referência para perceber acolhimento, curiosidade, beleza ou pertencimento.
A identidade não limita a experiência. Ela lhe dá profundidade.
Na hotelaria, talvez esteja aí uma das diferenças entre criar um ambiente bonito e criar um lugar memorável. O primeiro impressiona quando chegamos. O segundo continua conosco depois que partimos.
(*) Crédito das fotos: Bia Nauiack e Gabriela Perseguin


























