Durante minha visita à CASACOR São Paulo 2026, uma sensação ficou evidente desde os primeiros passos: estava vivenciando uma experiência cuidadosamente desenhada para provocar emoções, estimular os sentidos e criar conexões humanas. E foi impossível não fazer um paralelo com a hotelaria.
Os melhores hotéis do mundo já entenderam que hóspedes não procuram apenas um quarto confortável. Procuram bem-estar, pertencimento, memória afetiva e experiências que façam sentido.
O tema desta edição, Mente e Coração, traduz exatamente esse desafio contemporâneo: criar espaços que funcionem racionalmente, mas que também emocionem.

A experiência começa antes da recepção
Assim como em um hotel, a jornada na CASACOR começa antes mesmo da entrada.
A Galeria Muxarabi, assinada por Favaro Arquitetos, cria uma transição gradual entre o mundo exterior e o ambiente da mostra. O jogo de luz e sombra, a filtragem visual e a sensação de descoberta lembram os melhores projetos de hospitality design, onde o percurso de chegada já prepara emocionalmente o visitante.
Na hotelaria, chamamos isso de construção da experiência. Nada é por acaso.
O poder da natureza como ferramenta de bem-estar
Talvez um dos maiores aprendizados da mostra esteja na forma como a natureza deixa de ser decoração para se tornar protagonista.
O Jardim Respiro, de Ana Lui e Karen Marini, o projeto Conhecer para Preservar, de Pam Faccin, e a praça Da Terra ao Solo, de Maria Fernanda Marques, mostram como paisagismo, biodiversidade, água, vegetação nativa e elementos naturais podem reduzir estímulos excessivos e promover reconexão emocional.
Não por acaso, os hotéis mais inovadores do mundo vêm investindo cada vez mais em biofilia, jardins terapêuticos, wellness e experiências ao ar livre.

Espaços que desaceleram
Alguns ambientes pareciam ter sido projetados para uma necessidade cada vez mais rara: parar.
O Jardim Onde a Mente Pousa, de Bia Abreu, utiliza água, pedra, madeira, aromas naturais e diferentes texturas para criar uma atmosfera de atenção plena.
O Spa Raízes, de Marcos Serrano Miralles, foi concebido para aquietar o ruído e devolver presença ao instante.
Já o Tempo de Estar, livraria e chocolateria assinada pelo Studio Sitta + Barbo, encerra o percurso como um convite à permanência e à contemplação.
São conceitos que dialogam diretamente com tendências globais de hospitalidade, onde o luxo muitas vezes não está no excesso, mas na capacidade de oferecer silêncio, pausa e conforto emocional.

Hospitalidade é memória
Outro aspecto que me chamou atenção foi a quantidade de ambientes construídos a partir de histórias pessoais, lembranças familiares e memórias afetivas.
A Casa Jacob, de Felipe Carolo, homenageia os 100 anos de seu avô.
A Casa Coral Celeiro Alvorada, de Nildo José, nasce da relação com a memória do pai.
O hall Memórias Costuradas em Uso, de Paulo Azevedo, transforma o espaço em uma cabana simbólica de contemplação e afeto.
Essa valorização da memória e das narrativas pessoais também aparece com frequência na hotelaria, onde muitas marcas buscam construir vínculos emocionais por meio de histórias, identidade e significado.

Design que cuida das pessoas
Um dos temas mais presentes na mostra foi o cuidado.
O estúdio Âmbar, de Letícia Nannetti, propõe acessibilidade universal e acolhimento para diferentes fases da vida.
O Living Ritmo Vital, da MAAI Arquitetura Integrada, utiliza materiais naturais para reduzir estímulos, melhorar conforto acústico e criar sensação de equilíbrio.
Já o Refúgio Fleury, do Estúdio Musgo, utiliza a paisagem para provocar pequenas pausas cognitivas e reorganizar a atenção.
São exemplos claros de como arquitetura, neurociência, design e hospitalidade estão cada vez mais conectados.

Inspirações da CASACOR para a hospitalidade
Ao final da visita, saí com a mesma convicção que venho observando em hotéis, resorts, cruzeiros e experiências internacionais: os espaços mais memoráveis são aqueles que conseguem equilibrar mente e coração.
A mente busca funcionalidade, conforto, tecnologia, acessibilidade e eficiência.
O coração busca pertencimento, emoção, acolhimento, identidade e significado.
Quando esses dois elementos trabalham juntos, a arquitetura deixa de ser apenas cenário.
Ela se transforma em experiência.
Talvez essa tenha sido a principal reflexão que a CASACOR São Paulo 2026 me trouxe ao longo do percurso.

Muitos dos conceitos apresentados na mostra também aparecem em projetos de hospitalidade ao redor do mundo: biofilia, bem-estar, memória afetiva, acessibilidade, desaceleração, cuidado e conexão humana.
Mais do que estabelecer comparações, a visita reforça como diferentes segmentos podem inspirar uns aos outros na busca por espaços mais relevantes, acolhedores e significativos.
Porque, no fim, sejam casas, hotéis, hospitais, restaurantes ou espaços corporativos, continuamos projetando para pessoas.
(*) Crédito das imagens: arquivo pessoal/Camila Contato










