Quando conheci Eduardo Manzano para entrevistá-lo sobre arquitetura hoteleira, esperava naturalmente conversar sobre hotéis, materiais, interiores e projetos. Mas algumas das histórias que surgiram durante nosso encontro revelaram algo mais interessante sobre sua trajetória.
Manzano aprimorou seus conhecimentos em hotelaria também ouvindo camareiras e garçons. Trabalhou por mais de 10 anos em um escritório parceiro da Disney no desenvolvimento de projetos. Utiliza pesquisas históricas para construir o storytelling de seus empreendimentos e, junto à sua equipe, desenha móveis e luminárias especialmente para hotéis. Além disso, acredita que o hóspede retorna ao espaço onde conseguiu construir boas memórias.
Essas histórias ajudam a entender quem é o arquiteto por trás do EMDAStudio e, principalmente, sua maneira de pensar a hospitalidade.
A carreira na hotelaria começou uma semana depois da faculdade
A relação de Eduardo Manzano com a hotelaria começou praticamente junto com sua vida profissional. Formado em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade Belas Artes, em 1986, apenas uma semana depois de concluir a graduação ele já estava envolvido no projeto da antiga Pousada do Rio Quente, empreendimento que posteriormente se transformaria no Rio Quente Resorts.
Era o início de uma trajetória que atravessaria diferentes momentos da hotelaria brasileira e internacional. Nas décadas seguintes, Manzano participou de centenas de projetos no Brasil e na América Latina, trabalhando com diversas redes e marcas hoteleiras.
13 anos próximos ao universo Disney mudaram sua maneira de projetar
Durante 13 anos, Manzano atuou como diretor de um escritório parceiro no desenvolvimento de projetos ligados à Disney. Dessa experiência veio uma lição que permanece presente em sua metodologia até hoje: antes de desenhar um espaço, é preciso construir sua história.
Em grandes projetos de entretenimento, arquitetura começa com pesquisadores, historiadores e profissionais capazes de construir narrativas. Um empreendimento precisa ter começo, meio e fim.
Essa lógica foi incorporada ao processo criativo do EMDAStudio. O escritório trabalha com apoio de pesquisa histórica para compreender personagens, acontecimentos, culturas e características do território antes de transformar essas informações em arquitetura. O storytelling passa a fazer parte da concepção.
Um quadro esquecido ajudou a definir um hotel inteiro

Um dos exemplos mais interessantes aconteceu no Sanma Hotel, em Foz do Iguaçu. Durante o desenvolvimento do retrofit, um quadro existente na recepção ajudou a iniciar a construção conceitual do projeto.
A pesquisa levou à lenda indígena de Naipi e Tarobá, associada às Cataratas do Iguaçu. Mas havia outra surpresa escondida no próprio hotel. Durante o processo foram encontradas dezenas de obras de Aldemir Martins que estavam guardadas no empreendimento.
Em vez de buscar referências externas para construir uma identidade artificial, o projeto começou a trabalhar com aquilo que já pertencia à história daquele lugar.
A lenda regional, os povos originários e as obras do artista brasileiro passaram a integrar a experiência. Essa é uma abordagem que revela uma diferença importante entre decorar um hotel e descobrir a identidade de um hotel.
Para projetar hotéis, ele ouvia experiências com camareiras e garçons
Talvez uma das afirmações mais reveladoras de Manzano durante nossa conversa tenha sido esta: boa parte do que aprendeu sobre arquitetura hoteleira veio das camareiras e dos garçons. A razão é bastante simples são eles que conhecem problemas que muitas vezes não aparecem nas plantas.
Uma mesa de cabeceira mal posicionada pode machucar repetidamente a canela de uma camareira. Uma cama grande demais para determinado quarto pode impedir que ela consiga esticar o lençol adequadamente sem lesionar as mãos.
Alguns centímetros podem parecer irrelevantes no desenho. Multiplicados por centenas de quartos e milhares de operações de limpeza ao longo do ano, deixam de ser um detalhe.
Um erro de projeto pode significar maior tempo para arrumar um apartamento, mais funcionários necessários por andar, afastamentos por problemas ergonômicos, quartos liberados com atraso e, finalmente, hóspedes insatisfeitos.
É quando arquitetura, ergonomia, operação e rentabilidade se encontram. Para Manzano, projetar para o hóspede significa também projetar para quem cuida dele.
Há uma historiadora participando do processo de arquitetura
Outra particularidade do EMDAStudio é a participação de pesquisa histórica na construção conceitual dos projetos. A historiadora Fernanda colabora na investigação das narrativas que poderão orientar determinados empreendimentos.
Isso ajuda a evitar um problema recorrente em projetos que procuram incorporar regionalidade: transformar cultura em decoração superficial. O Jurema Águas Quentes, no Paraná, é um bom exemplo. O projeto do parque aquático e temático inserido na natureza utiliza referências da arquitetura vernacular dos povos originários da região. Mas a preocupação foi evitar representações estereotipadas.
Em vez de simplesmente reproduzir símbolos, personagens ou elementos indígenas, a narrativa procura trabalhar de maneira mais abstrata com cultura e natureza. Água, vento, floresta e território tornam-se componentes da experiência.
Um hotel inspirado no manto de Nossa Senhora Aparecida
Em outro projeto, a própria geometria arquitetônica nasceu de um símbolo. No hotel concebido para a região da Basílica de Aparecida, o desenho do edifício foi desenvolvido a partir da forma triangular do manto de Nossa Senhora Aparecida.
Em entrevista, Manzano dá mais detalhes do projeto — o conceito não ficou restrito à fachada. A geometria funciona como elemento estruturador de diferentes decisões do projeto. Esse é mais um exemplo de como o arquiteto procura transformar narrativa em espaço físico. A arquitetura passa a comunicar antes mesmo de alguém explicar seu significado.
No Hotel Nacional, ele queria que a Bossa Nova recebesse o hóspede
No retrofit do Hotel Nacional, no Rio de Janeiro — edifício originalmente projetado por Oscar Niemeyer — surgiu outra experiência curiosa. Manzano imaginou um dispositivo eletrônico conectado à entrada dos apartamentos.
Quando o hóspede abrisse a porta pela primeira vez, uma suave trilha de Bossa Nova começaria a tocar. A música faria parte da chegada ao quarto e ajudaria a estabelecer imediatamente uma conexão com o Rio de Janeiro.
A tecnologia disponível na época tornou a solução cara e mudanças posteriores no posicionamento do hotel fizeram com que a ideia não fosse implantada. Mas o conceito revela algo importante. A experiência de um hotel não precisa terminar naquilo que conseguimos enxergar. Som também é arquitetura da experiência.
O arquiteto também desenha aquilo que não encontra no mercado
Outra característica de seu trabalho é o desenvolvimento de peças exclusivas. Mesas de cabeceira, luminárias, mobiliário e outros elementos podem ser desenhados especificamente para um empreendimento e posteriormente produzidos em escala pela indústria.
Em hotelaria, essa estratégia ganha uma dimensão interessante. Uma peça exclusiva utilizada em centenas de apartamentos deixa de ser apenas uma criação autoral e passa a ter escala industrial.
No Hotel Nacional, por exemplo, foram desenvolvidas peças especialmente para o empreendimento. No Sanma, o escritório também trabalhou com elementos de design autoral para aumentar a percepção de exclusividade do hotel. É uma alternativa à repetição das mesmas referências que circulam globalmente pelas plataformas de inspiração.
Para ele, o clean perdeu espaço

Manzano acompanhou de perto a época em que as grandes redes buscavam criar hotéis visualmente semelhantes em qualquer lugar do mundo. Bege, marrom, cinza. Ambientes neutros. Poucos elementos regionais. O objetivo era transmitir consistência de marca.
Mas o comportamento do viajante mudou. Hoje, parte importante da experiência está justamente em perceber onde se está. São Paulo não precisa parecer Singapura. Foz do Iguaçu não precisa parecer Miami.
Para Manzano, a regionalização voltou a ser fundamental e as cores voltaram aos hotéis. Mas não se trata de substituir o minimalismo por uma explosão cromática. O desafio é encontrar equilíbrio e, principalmente, longevidade. Um hotel precisa continuar relevante muitos anos depois de sua inauguração.
O estagiário de 22 anos pode discordar do fundador
A mesma lógica centrada nas pessoas aparece dentro do próprio escritório. Manzano descreve uma estrutura de trabalho menos baseada em hierarquias rígidas e mais próxima de uma cultura de colaboração. A opinião de um jovem profissional pode questionar a de alguém com décadas de experiência. Para ele, seu papel também é o de mentor.
A convivência entre gerações torna-se particularmente importante porque os hotéis precisam atender justamente públicos de diferentes idades, referências culturais e comportamentos. Quem projeta experiências para diferentes gerações precisa, de alguma maneira, conseguir ouvi-las.
Tecnologia só faz sentido quando elimina atrito
Muito antes de o check-in sem contato se tornar uma discussão recorrente na hotelaria, Manzano já havia desenvolvido um conceito de aplicativo utilizando o Fasano como estudo de caso. A ideia era eliminar uma das situações menos hospitaleiras de uma viagem: chegar cansado ao hotel e encontrar burocracia. Com dados previamente cadastrados e geolocalização, o sistema reconheceria a chegada do hóspede.
Em vez de preencher fichas, ele seria recebido e conduzido diretamente ao quarto. A provocação permanece atual. Talvez inovação em hospitalidade não seja colocar mais tecnologia diante do hóspede. Talvez seja justamente fazê-la desaparecer.
No final, o projeto precisa virar memória
Depois de conhecer melhor a trajetória de Eduardo Manzano, algumas aparentes contradições começam a fazer sentido. Ele fala de storytelling, mas também de centímetros ao redor de uma cama. Fala de memória afetiva, mas também de produtividade de camareiras. Fala de cultura e história, mas também de tecnologia. Desenha hotéis, parques, mobiliário e experiências, mas insiste que arquitetura é apenas um dos componentes de um sistema muito maior.
Talvez seja justamente aí que esteja o diferencial de sua trajetória. Hospitalidade nasce da soma entre espaço, pessoas, operação, cultura, sentidos e serviço. O hóspede talvez nunca saiba por que determinado quarto funciona tão bem, por que uma música despertou uma lembrança ou por que aquele ambiente parece pertencer exatamente àquele destino.
Mas pode lembrar de como se sentiu. E, para Eduardo Manzano, é essa memória que pode fazê-lo voltar.
(*) Crédito das fotos: arquivo pessoal Eduardo Manzano





