O arquiteto que acredita que a verdadeira hospitalidade acontece muito antes do check-in
Ao longo dos últimos meses, visitei hotéis, resorts, parques temáticos, cruzeiros e destinos turísticos em diferentes países buscando compreender uma questão que tem se tornado cada vez mais relevante para a hotelaria contemporânea: o que faz uma experiência permanecer na memória das pessoas?

Essa mesma pergunta norteia há décadas o trabalho do arquiteto Eduardo Manzano, fundador do EMDAStudio e uma das principais referências brasileiras em arquitetura para hospitalidade.
Com mais de 35 anos de atuação no setor e participação em projetos para marcas como Marriott, Hyatt, Hilton, Wyndham, Meliá e diversos grupos nacionais, Manzano construiu uma trajetória baseada em uma premissa simples:
As pessoas não retornam a um hotel por causa da arquitetura. Elas retornam pelas memórias que construíram nele.
Essa visão muda completamente a forma de projetar.
Em vez de começar pela fachada, pelos acabamentos ou pelo mobiliário, o processo começa pela experiência que se deseja provocar.

Antes da arquitetura existe uma história
Durante nossa conversa, Eduardo repetiu uma frase que resume sua filosofia de trabalho:
“A arquitetura é só mais um componente. Ela é um item que precisa ser exato por conta da operação”
O que realmente diferencia um hotel é a narrativa.
Influenciado por sua experiência em projetos ligados ao universo Disney, ele acredita que todo empreendimento deve ser concebido como uma grande história.
Uma história com início, meio e fim.
Uma história capaz de conectar emocionalmente o visitante ao lugar.
Por isso, o processo de desenvolvimento do EMDAStudio frequentemente envolve pesquisas históricas, culturais e antropológicas para compreender a essência do destino antes mesmo de desenhar os espaços.
O hotel deixa de ser apenas um edifício para se tornar uma experiência.

O poder da memória afetiva
Se a narrativa é o ponto de partida, os sentidos são o caminho.
Para Eduardo, um projeto de hospitalidade precisa ativar emoções.
Luz, textura, sons, aromas, temperatura, materiais e objetos trabalham juntos para despertar lembranças e criar conexões.
Ele cita como marco dessa transformação o movimento iniciado por hotéis lifestyle no final dos anos 1990, quando o design deixou de ser apenas funcional e passou a dialogar com a memória afetiva dos hóspedes.
O objetivo não é impressionar.
É gerar reconhecimento.
É provocar aquele momento em que o visitante sente que aquele lugar foi criado especialmente para ele.
Essa talvez seja uma das maiores diferenças entre um hotel bonito e um hotel memorável.

O retorno da identidade local
Durante muitos anos, a hotelaria internacional buscou padronização.
Independentemente da cidade ou do país, os hotéis apresentavam linguagens semelhantes, materiais semelhantes e experiências semelhantes.
Hoje o movimento é inverso.
Os viajantes desejam conexão com o destino. Desejam compreender a cultura local. Desejam sentir que estão em um lugar único. Por isso, a regionalização se tornou um dos pilares do trabalho de Manzano.
Um dos exemplos mais emblemáticos é o retrofit do Sanma Hotel, em Foz do Iguaçu.
O projeto utilizou a lenda indígena de Naipi Tarobá como base narrativa e incorporou dezenas de obras do artista brasileiro Aldemir Martins encontradas no próprio empreendimento, transformando cultura local em diferencial competitivo.
Outro exemplo é o desenvolvimento do parque aquático e temático do complexo Termas de Jurema.
O conceito foi inspirado na arquitetura dos povos originários da região, utilizando referências culturais para construir uma experiência contemporânea de lazer e entretenimento.

Projetar para operar
Talvez o insight mais valioso compartilhado por Eduardo tenha sido sobre operação.
Enquanto muitos profissionais observam apenas a experiência do hóspede, ele chama atenção para outro protagonista frequentemente invisível:
A equipe, Camareiras, Garçons, Manutenção, Governança e Recepção.
Segundo ele, um projeto que dificulta o trabalho dessas pessoas inevitavelmente prejudica a experiência final do cliente.
A altura de uma cama. O espaço entre os móveis. A ergonomia de um armário. A logística de circulação.
Tudo impacta produtividade, custos operacionais e qualidade de serviço.
Essa visão dialoga diretamente com uma tendência crescente da hotelaria contemporânea:
Compreender que hospitalidade não acontece apenas nos ambientes visíveis ao hóspede, mas também nos bastidores.

Sustentabilidade também é longevidade
Outro ponto interessante é sua visão sobre sustentabilidade.
Mais do que tecnologias ou certificações, Eduardo defende que um projeto sustentável é aquele que permanece relevante ao longo do tempo.
É a arquitetura que evita reformas desnecessárias.
Que resiste às mudanças estéticas.
Que mantém sua atratividade mesmo após anos de operação.
Essa lógica aparece em diversos trabalhos do escritório, incluindo projetos de retrofit e requalificação de ativos existentes, onde a reutilização de estruturas se torna uma estratégia ambiental, econômica e urbana.

O futuro da hotelaria é mais humano
Ao analisar a trajetória de Eduardo Manzano, fica evidente que sua arquitetura vai muito além da forma.
Ela busca equilibrar narrativa, identidade local, eficiência operacional, viabilidade econômica e experiência humana.
Não por acaso, o próprio posicionamento do EMDAStudio resume essa visão ao afirmar que a arquitetura deve recuperar sua função principal:
fornecer espaços de qualidade para que as pessoas possam evoluir, conviver e construir um futuro melhor.
Talvez seja justamente essa a principal lição para a hotelaria contemporânea.
Em um mercado cada vez mais competitivo, a diferença não está apenas nos quartos, nos restaurantes ou nas áreas de lazer.
Está na capacidade de criar lugares que as pessoas queiram lembrar.
E, principalmente, lugares para os quais elas desejem voltar.
(*) Crédito das fotos: Divulgação










