Durante minha estadia no Fera Palace Hotel, em Salvador, ficou claro que a experiência do hóspede não se constrói apenas no quarto, na arquitetura ou na vista para a Baía de Todos os Santos. Ela também acontece à mesa.
No café da manhã, no almoço executivo, no rooftop, no room service, nos eventos e nos pequenos momentos em que a gastronomia deixa de ser apenas serviço para se tornar parte da narrativa do hotel.
A experiência também passa pelo sabor

Em hotéis de luxo, A&B (Alimentos & Bebidas) participa diretamente da percepção de valor, da memória da estadia e da relação do hóspede com o destino. No caso do Fera Palace, essa relação é ainda mais evidente.
O hotel está instalado em um edifício histórico, na Rua Chile, no Centro Histórico de Salvador, e já carrega em sua arquitetura uma forte conexão com a cidade. Portanto, a gastronomia precisa dialogar com esse mesmo território.
Não basta servir bem. É preciso traduzir Salvador sem cair no óbvio.
Um chef entre técnica, gestão e afeto
À frente da cozinha está o chef Peu Mesquita, natural de Salvador, que começou cedo sua relação profissional com a gastronomia. Aos 15 anos, já fazia extras em um buffet da cidade nos fins de semana, enquanto conciliava o trabalho com os estudos.
Depois da formação em Gastronomia, sua trajetória passou por São Paulo, onde trabalhou no D.O.M., de Alex Atala, e pela Itália, onde atuou em um restaurante três estrelas Michelin, em Alba, no Piemonte.
De volta a Salvador, participou da abertura do restaurante Manga como subchef e, posteriormente, integrou o Grupo Soho, onde gerenciou diferentes operações. Foi nesse período que ampliou seu olhar sobre gestão, processos e a complexidade do negócio gastronômico.
Essa combinação entre cozinha e gestão parece ser uma das chaves para entender seu papel no Fera Palace. Em 2025, Peu aceitou o convite para prestar consultoria de Alimentos & Bebidas para o hotel. No ano seguinte, passou a se dedicar integralmente ao projeto.
A elegância da simplicidade

Na entrevista, uma ideia apareceu com força: para o chef, o simples é muito difícil. Essa afirmação revela uma filosofia importante. A cozinha do Fera Palace não busca impressionar pelo excesso, mas pela precisão. A proposta está em valorizar bons ingredientes, respeitar o tempo dos produtos e criar pratos em que técnica e frescor não escondam a essência do alimento.
É uma gastronomia contemporânea, mas sem ruído.
Essa abordagem conversa diretamente com o próprio hotel. Assim como a arquitetura do Fera Palace trabalha uma elegância contida, sem ostentação gratuita, a gastronomia também parece buscar equilíbrio entre sofisticação e naturalidade.
O luxo, nesse caso, está menos no espetáculo e mais na coerência.
Bahia, mar e acolhimento

Quando fala sobre o diferencial da Bahia, Peu não coloca o foco apenas nos ingredientes. Ele fala das pessoas. Para ele, o calor humano, o acolhimento e a forma como a equipe se relaciona com o hóspede são parte essencial da experiência. Esse ponto é importante porque reforça uma dimensão muitas vezes invisível na hotelaria: o serviço é presença.
Ainda assim, os ingredientes locais têm papel central. Frutos do mar e pescados da Baía de Todos os Santos aparecem como protagonistas em diferentes momentos da operação. No Arento, restaurante do hotel, a proposta une referências mediterrâneas, especialmente do Sul da Itália, com a riqueza dos produtos baianos.
O resultado é uma cozinha de mares: técnica italiana, frescor baiano e memória afetiva.
Arento: o restaurante como destino

O Arento amplia o papel do Fera Palace dentro de Salvador. Ele não atende apenas hóspedes. Também recebe moradores, visitantes e pessoas que buscam uma experiência gastronômica no Centro Histórico. Assim, o restaurante fortalece o hotel como destino urbano, e não apenas como local de hospedagem.
Esse movimento é muito relevante para a hotelaria contemporânea. Hotéis cada vez mais interessantes são aqueles que conseguem se abrir para a cidade. Eles deixam de ser espaços fechados, exclusivos para quem está hospedado, e passam a funcionar como pontos de encontro, convivência e cultura.
No Fera Palace, a gastronomia participa desse processo.
O menu executivo e o ritmo da cidade

Durante a semana, o menu executivo cumpre um papel estratégico. É mais descontraído, enxuto e ágil, pensado para a rotina de quem trabalha, circula ou visita o Centro Histórico. Ao mesmo tempo, não perde a identidade do Arento.
É também um espaço de experimentação para o chef, que aproveita o formato para testar sabores, brincar com referências globais e observar a resposta do público.
A proposta do menu executivo é transformar a pausa do almoço em uma experiência completa, com entrada, prato principal e sobremesa. Segundo divulgação da casa, ele acontece de segunda a sexta, das 12h às 15h, com assinatura de Peu Mesquita e foco em ingredientes frescos.
Essa é uma leitura interessante de A&B: o almoço executivo não precisa ser apenas funcional. Ele pode ser rápido, sim, mas também pode ser memorável.
O à la carte como viagem conceitual

Se o menu executivo conversa com o ritmo da cidade, o menu à la carte permite uma experiência mais aprofundada.
Nele, aparecem técnicas mais elaboradas e uma proposta mais conceitual, capaz de traduzir a identidade do Fera Palace com mais tempo, mais camadas e mais intenção.
Esse contraste entre formatos mostra a complexidade de uma operação gastronômica dentro de hotel.
É preciso atender o hóspede que quer uma refeição leve antes de subir para o quarto, o visitante que busca um almoço especial, o casal em celebração, o público de eventos, o cliente com restrição alimentar e quem chega tarde e espera um room service bem resolvido.
A cozinha funciona 24 horas por dia. Portanto, experiência também é consistência.
Rooftop: leveza, vista e memória afetiva

No rooftop, a gastronomia assume outro ritmo. Ali, o cardápio precisa conversar com piscina, vista, calor, pôr do sol e permanência. Por isso, a proposta é mais leve, afetiva e adequada ao clima do espaço.
Entram pratos como casquinha de siri, moqueca, pastel de bobó e ceviche de peixe fresco. São preparações que dialogam com a Bahia, com o mar e com o desejo de viver a paisagem de forma mais descontraída.
O rooftop já é um dos pontos altos da experiência no Fera Palace. Quando a gastronomia se conecta a esse cenário, ela deixa de ser complemento e passa a reforçar a memória do hóspede.
Afinal, muitas lembranças de viagem nascem exatamente assim: uma vista, um sabor, uma conversa e a sensação de estar no lugar certo.
A&B como parte da hospitalidade

O caso do Fera Palace mostra como Alimentos & Bebidas pode ser pensado como estratégia de hospitalidade. Não se trata apenas de cardápio. Trata-se de jornada.
O café da manhã prepara o início do dia. O menu executivo aproxima o hotel da cidade. O à la carte aprofunda a identidade gastronômica. O rooftop transforma paisagem em experiência. O room service garante conforto e continuidade. Os eventos ampliam o alcance da operação.
Quando tudo isso é bem costurado, a gastronomia deixa de ser setor e passa a ser linguagem.
A responsabilidade da Chave Michelin
O reconhecimento do Fera Palace pelo Guia Michelin 2025 também aparece como um marco importante nessa trajetória. Embora a Chave Michelin seja uma distinção voltada à hotelaria como um todo, sua origem simbólica está profundamente ligada à excelência gastronômica. Para o chef, fazer parte desse momento traz orgulho, mas também responsabilidade.
E essa responsabilidade não se limita a um prato específico. Ela envolve serviço, consistência, equipe, acolhimento, produto, ambiente e todos os detalhes que compõem a experiência. Em um hotel como o Fera Palace, a excelência precisa aparecer de forma integrada.
O hóspede não separa arquitetura, atendimento, gastronomia e conforto em departamentos. Ele sente o conjunto.
Quando a gastronomia completa a narrativa

Ao final da experiência, fica claro que a gastronomia do Fera Palace não está ali apenas para alimentar. Ela ajuda a contar a história do hotel.
Conecta Bahia e Itália. Une técnica e simplicidade. Valoriza o mar, os produtos locais e o acolhimento das pessoas. Aproxima o hotel da cidade e transforma diferentes momentos da estadia em memória.
Assim como a arquitetura cria uma forma de habitar Salvador, a gastronomia cria uma forma de saboreá-la.
E talvez seja exatamente nesse encontro entre espaço, serviço, paisagem e sabor que o Fera Palace revela uma de suas maiores forças: entender que hospitalidade não acontece em partes separadas. Ela acontece na costura.
(*) Crédito das fotos: Camila Contato





